UNIDADE NA LUTA ANTIFASCISTA E ANTIIMPERIALISTA, POR RAUL CARRION
- Alexandre Costa

- há 18 horas
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Entre os dias 26 e 29 de março, realizou-se em Porto Alegre, – berço do Fórum Social Mundial –, a “I CONFERÊNCIA INTERNACIONAL ANTIFASCISTA PELA SOBERANIA DOS POVOS”. Inicialmente prevista para maio de 2024, ela foi inviabilizada pela terrível inundação que atingiu o Rio Grande do Sul e Porto Alegre naquele ano. A sua organização foi retomada em 2025, através da convocatória da “I Conferência Internacional Antifascista”, assinada pelas direções no Rio Grande do Sul do Partido dos Trabalhadores (PT), do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Nela, se afirmava:
“A extrema direita governa ou é a força política alternativa em quase toda a Europa. Governam a maior potência militar do Planeta. Governam ou tensionam governos democrático-populares em toda a América Latina. [...] A partir da iniciativa do PSOL, do PT e do PCdoB do Rio Grande do Sul, convocamos as forças antifascistas internacionais a [...] enfrentar a destruição promovida pelos arautos do conservadorismo ultraliberal [...] queremos coordenar e nos reunir em março de 2026 em Porto Alegre, para organizar [...] uma luta capaz de derrotar as expressões de extrema direita e o fascismo, abrindo caminho para a solidariedade entre os povos em luta, a defesa dos direitos sociais e econômicos e das liberdades democráticas, do ambiente, da ciência e da arte e contra todas as formas de exploração, xenofobia ou qualquer outro tipo de opressão.”
Fica claro que esta convocatória inicial – da mesma forma que o “I Fórum Internacional Antifascista” de Minsk, realizado em abril de 2023, e o “Congresso Antifascista” de Caracas, realizado em setembro de 2024 – tinha como centro a luta contra o fascismo, que avançava em todo o mundo, mas não enfrentava explicitamente a luta anti-imperialista e as crescentes agressões dos Estados Unidos e seus aliados contra os povos que resistem aos seus ditames.
Desde o primeiro momento em que foi retomada a construção da referida Conferência Internacional, o PCdoB colocou a necessidade de transformar a “Conferência Antifascista” em uma conferência “antifascista e anti-imperialista”, inclusive argumentando que o fascismo nasce do ventre do imperialismo e sem enfrentá-lo é impossível derrotar o fascismo.
Depois de um profícuo debate, o nome da Conferência foi alterado para “I CONFERÊNCIA INTERNACIONAL ANTIFASCISTA PELA SOBERANIA DOS POVOS”, onde a expressão “pela soberania dos povos” foi a forma encontrada para expressar de maneira propositiva a luta anti-imperialista. Em decorrência desta decisão, a programação passou a incluir novas mesas para abordar a temática anti-imperialista, e outras mesas ampliaram o seu escopo, para tratar dessa luta.
Da mesma forma, o PCdoB trabalhou incansavelmente pela participação de representações de Cuba e de Venezuela nas mesas – o que inicialmente não estava previsto – e, após o ataque ao Irã, pela vinda de uma representação iraniana e pela criação de uma mesa especial sobre a agressão criminosa dos EUA e Israel.
Atendendo o chamamento do PT, PSOL e PCdoB, em um primeiro momento somaram-se à organização da Conferência Internacional, o MST, o CPERS, a ADUFRGS e o Fórum das Centrais Sindicais, em especial a CUT e a CTB. A partir de então, as principais entidades e organizações sociais do Rio Grande do Sul e do Brasil passaram a aderir à organização do evento. Por ocasião da primeira plenária do Comitê Organizador, mais de 70 entidades e instituições já havia se integrado ao mesmo, entre elas a CONTAG, a CONAM, a UNE, a UBES, o ANDES, a CNTE, a FEPAL, o Comitê Brasileiro do FSM e dezenas de entidades sindicais, estudantis e populares.
Em 28 de novembro de 2025, foi realizada uma reunião para criar o Comitê Internacional, com o objetivo de difundir em todo o mundo o evento e incentivar a vinda a Porto Alegre de delegações internacionais. Participaram dessa reunião em torno de 80 lideranças de 28 países de cinco Continentes. Através do trabalho desse Comitê, além da vinda de inúmeras representações internacionais, foi lançada – por iniciativa do CATDM – uma “Convocação” para a Conferência Internacional, assinada por mais de 1.500 lideranças mundiais.
Com a adesão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul à Conferência Internacional – com o integral apoio da Reitora Márcia Barbosa (ex-Secretária de Políticas e Programas Estratégicos do MCTI) e o empenho da Pró-Reitora de Extensão, Daniela Pavani (presidenta da FMG-RS) –, viabilizou-se o uso dos espaços mais nobres da UFRGS para as atividades do evento e este ganhou maior amplitude. Alguns dias antes da sua realização, o Partido Socialista Brasileiro no Rio Grande do Sul (PSB-RS) também se integrou à Conferência Internacional.
Apesar de não contar com qualquer apoio governamental, o Comitê Organizador conseguiu, com grande esforço, garantir condições mínimas para o evento, inclusive a transmissão ao vivo pela internet, com tradução simultânea em português, espanhol, francês e inglês.
As inevitáveis diferenças entre forças tão díspares como o PT, o PCdoB e o PSOL foram enfrentadas pelo Comitê Organizador com sabedoria e amplitude, tratando as divergências com franqueza e fraternidade, evitando o sectarismo e o hegemonismo, buscando a unidade.
Como resultado desse esforço, a “I CONFERÊNCIA INTERNACIONAL PELA SOBERANIA DOS POVOS alcançou grande êxito, com cerca de 4.300 inscritos de mais de 40 países e cinco continentes.
O evento teve início na tarde do dia 26 de março, com o “Fórum de Autoridades Democráticas Antifascistas” – na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul – e com a mesa especial “A Agressão Imperialista e a Resistência do Povo Iraniano” – no auditório da AIAMU.
A abertura formal ocorreu no final da tarde, através de uma grande Marcha, com mais de 10 mil pessoas, que percorreu as ruas de Porto Alegre.
Nos três dias seguintes, aconteceram 11 mesas estruturantes, que abordaram os mais variados aspectos da luta antifascista e anti-imperialista, 130 mesas autogestionadas e 20 atividades diversas, como lançamento de livros, rodas de conversa e apresentações culturais.
Entre as mesas autogestionadas, todas importantes, destaco quatro: “A luta pelo socialismo, contra o fascismo e o imperialismo”, “Cuba e Venezuela não estão sós!” – ambas inscritas pelo PCdoB (a segunda em conjunto com a ACJM-RS) –, “Fórum Social Mundial, 25 Anos” e “La Internacional neofascista de Trump, Milei, Bolsonaro, Kast, y la extrema derecha europea (Le Pen, Viktor Orban, Meloni, Vox, Chega, etc.)”.
O evento se caracterizou pela diversidade e pluralidade, com a presença da corrente comunista internacional – representada pelos Partidos Comunistas de Cuba, Portugal, Chile, Uruguai, Argentina, Colômbia e Brasil –, diferentes correntes trotskistas (entre elas a 4ª Internacional) e sociais democratas, o Partido Socialista Unificado da Venezuela, a Frente Ampla do Uruguai, o Fórum de São Paulo, o Pacto Histórico da Colômbia, a “França Insubmissa”, o “Bloco de Esquerda” do Parlamento Europeu, o Partido dos Trabalhadores da Turquia, os “Socialistas Democráticos da América” (DSA-EUA), o Fórum Social Mundial, a Internacional Antifascista-Capítulo Brasil, o CATDM (Comité para a Abolição das Dívidas Ilegítimas), a ATTAC (Associação pela Tributação das Transações Financeiras para Ajuda aos Cidadãos) e lideranças anti-imperialistas e antifascistas de todo o mundo.
Entre as lideranças políticas e sociais brasileiras presentes, destaco – sem demérito das demais – a participação de Nádia Campeão, presidenta do PCdoB; Paula Coradi, presidenta do PSOL; ex-governadores e ex-ministros Olívio Dutra e Tarso Genro; ex-Prefeito Raul Pont; Márcia Barbosa, Reitora da UFRGS; Ana Maria Prestes, SRI do PCdoB; João Pedro Stédile, líder do MST; Ualid Rabah, presidente da FEPAL; Vânia Pinto, presidenta da CONTAG; Bianca Borges, presidenta da UNE; Adilson Araújo, presidente da CTB; Fátima Silva, presidenta da CNTE; Breno Altmann, do Opera Mundi; Socorro Gomes, ex-presidenta do Conselho Mundial da Paz; Thiago Ávila, da Global Sumud Flotilla; Mônica Valente, do Fórum de SP; Breno Almeida e Valter Pomar, da FPA; Ricardo Abreu de Melo, da FMG; senadora Teresa Leitão, deputadas federais Daiana Santos, Maria do Rosário, Fernanda Melchiona e Sâmia Bonfim; deputado federal Federal Glauber Braga; deputadas estaduais Luciana Genro, Stela Farias, Laura Sito: deputados estaduais Pepe Vargas, Matheus Gomes e Leonel Radde; vereadores Roberto Robaina e Giovani Culau.
Entre as presenças internacionais, destaco – pelo peso de sua representação – os embaixadores da Palestina, Marwan Jebril, da Liga Árabe, Ibrahim Alzeben, da Frente Polisário, Ahmed Mulay; o Cônsul Geral de Cuba, Benigno Perez; o vice-presidente da Casa das Américas/Cuba, Fernando Rojas; o Senador Oscar Andrade, Secretário Geral do PCU; Javier Miranda, ex-ministro de DH e ex-presidente da Frente Ampla do Uruguai; Pietro Alarcón, da Comissão Internacional do “Pacto Histórico” da Colômbia; Glória Ramirez, ex-ministra do Trabalho e ex-senadora de Colômbia; Yhonny García, Coordenador do Movimento de Amizade Solidariedade Venezuela-Cuba; as eurodeputadas Ana Miranda (Galícia, Espanha), Estrella Galan (Espanha), Leila Chaib (França), Manon Aubry (França) e o eurodeputado João Oliveira (Portugal); deputado Erkan Bas, presidente do PT da Turquia; Éric Toussaint, do CADTM; Michael Lowy, diretor do Centre National de la Recherche Scientifique da França; e Jana Silvermann, da UFABC e do DSA-EUA.
As mesas de debates, sempre lotadas e vibrantes, apontaram a profunda crise que vive o sistema capitalista-imperialista, que vê o seu domínio mundial ser posto em xeque e reage com crescente belicosidade – do que o genocídio em Gaza, os ataques à Venezuela, ao Irã e à Cuba são expressão –, fomenta o fascismo, impõe políticas neoliberais e agride as nações mais fracas, buscando recolonizá-las. Por isso, a luta antifascista é inseparável da luta anti-imperialista, sendo necessário articulá-las internacionalmente de forma unitária, pois isoladamente cada país é presa fácil do imperialism0o e do fascismo.
A eliminação das liberdades democráticas, a destruição dos direitos trabalhistas, o desmantelamento da previdência social, as privatizações indiscriminadas, as políticas de “austeridade”, o negacionismo climático e científico, a criminalização da imigração, o racismo, a xenofobia, a opressão de gênero, a incitação ao ódio e à crueldade foram denunciadas como manifestações do fascismo em todo mundo.
Houve consenso quanto à necessidade de dar continuidade à 1ª Conferência Internacional, mas sem criar uma nova organização internacional antifascista, buscando articular-se com as demais organizações antifascistas e anti-imperialistas já existentes.
A CARTA DE PORTO ALEGRE procurou sistematizar este rico e polêmico debate – onde a diversidade de opiniões sempre esteve presente – mantendo o mesmo espírito unitário que presidiu a construção do evento. Sem dúvida, foi um trabalho hercúleo, que priorizou as convergências e minorou as divergências, resguardando o direito de cada um manter as suas opiniões em relação aos pontos em que não foi possível o consenso.
Penso que o resultado foi positivo – tanto que a CARTA foi aprovada por consenso e sem contestações –, apesar de manifestar-se em relação à quase totalidade das complexas questões internacionais do momento. Assim, denunciou o genocídio em Gaza, perpetrado pelo Estado sionista de Israel, com o apoio incondicional dos EUA e a conivência das demais potências imperialistas; condenou o bloqueio a Cuba, agora intensificado com seu cerco naval, conclamando à solidariedade com Cuba; repudiou a invasão da Venezuela e o sequestro do Presidente Nicolás Maduro e da deputada Cília Flores, comprometendo-se a lutar por sua libertação; solidarizou-se com a heroica resistência do Irã, atacado criminosamente pelos Estado Unidos e Israel; defendeu o fim da OTAN; manifestou apoio à autodeterminação do povo haitiano, à independência, de Porto Rico e do Sahara Ocidental e de todos os território sob ocupação colonial ou imperialista.
Registro, porém, uma lacuna: a não abordagem da questão da guerra na Ucrânia, que já dura quatro anos e tem causado um enorme número de vítimas. Lamento que a proposta do PCdoB, construída com a máxima amplitude, não tenha sido aceita. Para conhecimento, a reproduzo: “DEFESA DE UM PROCESSO DE PAZ NA UCRÂNIA QUE REMOVA AS CAUSAS DE FUNDO DO CONFLITO, ESTABELEÇA GARANTIAS DE SEGURANÇA PARA TODAS AS PARTES E RESPEITE A AUTODETERMINAÇÃO E A VONTADE SOBERANA DAS POPULAÇÕES ENVOLVIDAS NO CONFLITO.”
Mas, nem por isso deixamos de valorizar os consensos alcançados.
Agora, nos cabe reforçar a unidade conquistada, divulgar amplamente a plataforma comum aprovada, realizar conferências nacionais e regionais com o objetivo de construir, oportunamente, uma 2ª Conferência Internacional, ainda mais ampla.
Para isso, penso ser importante uma maior aproximação com todas as organizações e articulações antifascistas e anti-imperialistas já existentes – como o Fórum Social Mundial, o Foro de São Paulo, a Internacional Antifascista, a Internacional Progressista, o Fórum Internacional Antifascista, a Tricontinental, o CATDM, a ATTAC, a ALBA, e tantas outras. Como afirma a Carta de Porto Alegre:
DERROTAR O FASCISMO E O IMPERIALISMO É TAREFA URGENTE DE NOSSA ÉPOCA!
* Raul Carrion é membro da Secretaria de Relações Internacionais do PCdoB e faz parte do Comitê Organizador Local e Internacional da “I Conferência Internacional Antifascista Pela Soberania dos Povos”. CURTA, COMPARTILHE, COLABORE E CONTRIBUA WWW.ESQUINADEMOCRATICA.COM.BR jornalismo livre e independente
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