TEXTO DA ANA CAÑAS É A HOMENAGEM DO ESQUINA DEMOCRÁTICA ÀS MULHERES QUE LUTAM E RESISTEM
- Alexandre Costa

- 8 de mar. de 2021
- 2 min de leitura

A primeira vez que vi a Ana Cañas foi em vídeo no YouTube, um dueto em que ela e o ex-Titãs Nando Reis fizeram na canção “Pra você guardei o amor“, lançado em 2009. Me chamou a atenção a voz e a beleza daquela mulher. Desde então, passei a admirá-la. Mas me tornei seu fã durante as atividades de 1º de maio de 2018, em Curitiba, nas manifestações pela liberdade do ex-presidente Lula. Naquela noite, Ana Cañas apresentou Viverei, música que dedicou ao ex-presidente. Enquanto passava o som com sua banda, ela se aproximou do público e algumas pessoas me pediram que tirasse fotos. Aproveitei e também registrei o nosso encontro. Desde então, acompanho suas redes sociais. No sábado, Ana Cañas publicou um texto no seu facebook. Decidi postar o seu relato neste 8 de março, em homenagem às mulheres que lutam e resistem.
DEPOIMENTO DE ANA CAÑAS

Eu tive bulimia.
Durante muitos anos eu comia e vomitava.
Quando eu olho pra essa menina da foto eu vejo uma dor profunda e velada.
Também vejo o medo que essa menina sentia por estar tão vulnerável na sua órbita como ser humano que tudo que eu posso fazer hoje é acolher e abraçá-la.
Eu sofri um assédio muito jovem e durante muitos meses, não consegui contar pra ninguém.
Eu guardei essa violência comigo e, no meu silenciamento, passei a colocar pra fora os alimentos que ingeria.
Não foi uma bulimia pelo peso, por emagrecimento.
Foi emocional.
Foi uma dor que transcendeu inúmeros aspectos da minha vida.
E foi por ser mulher e ter o meu corpo ameaçado pela voracidade sexual e imoral de um homem que eu tive que aprender a lidar ainda muito cedo com as questões intrínsecas que envolvem "ser mulher".
Levei muitos anos para me curar dessa disfunção tão destrutiva.
Dessa doença.
Dilacerada pela vergonha e até pela culpa que carreguei muitos anos.
Culpa por ser uma adolescente que usava shorts.
E na minha dor e no meu medo, eu própria me violentei.
Porque a bulimia é terrível.
Ela te desestrutura e fere de maneira abissal.
Conto isso porque amanhã celebramos o dia da mulher.
E ser mulher ainda é ter que lidar com violência.
Com abusos, assédios, estupro.
Conto isso para que possamos refletir sobre a sociedade que vivemos.
Sobre o acolhimento que precisa ser feito quando alguém sofre e carrega uma dor profunda.
Não é fácil voltar pra esse passado, mas é necessário.
Hoje, enxergo a força que precisei ter para superar isso.
Sozinha.
Mas hoje eu também sei que não estou sozinha.
Sei que muitas mulheres passam, passaram ou (infelizmente) passarão por isso.
E romper o silêncio é uma das formas mais eficazes de combate à violência.
Nos fortalece e rompemos estruturas de opressão.
O silêncio é um alicerce potente da violência.
Que tenhamos coragem para enfrentar de cabeça erguida todo o mal que recebemos, sem causá-lo.
Que possamos viver numa sociedade onde uma mulher seja sempre respeitada e, nunca, oprimida ou violentada.
É isso que desejo, do fundo do coração.
Um beijo com todo amor.
Ana Cañas
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