POR QUE OS ESTADOS UNIDOS MANTÊM O BLOQUEIO A CUBA HÁ MAIS DE SEIS DÉCADAS?
- Alexandre Costa

- há 2 dias
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POR ALEXANDRE COSTA | JORNALISTA

Carreata em Porto Alegre e festa em homenagem aos 100 anos de Fidel Castro recolocam no debate uma pergunta que atravessa gerações: por que a maior potência militar e econômica do planeta continua impondo duras sanções a uma pequena ilha do Caribe?
A solidariedade internacional a Cuba voltará às ruas de Porto Alegre neste fim de semana.
No domingo (26/7), às 10 horas, movimentos sociais, entidades e apoiadores da Revolução Cubana promovem uma carreata em apoio a Cuba, com concentração no Largo Zumbi dos Palmares. A mobilização denuncia o endurecimento das sanções norte-americanas e alerta para o agravamento da crise humanitária enfrentada pela ilha.
O chamado da atividade resume a posição dos organizadores:
"O governo gangster dos EUA prepara abertamente um ataque a Cuba. Defender Cuba é defender o Brasil e a América Latina."
A manifestação antecede outro ato de solidariedade marcado para 15 de agosto, quando a Associação Cultural José Martí do Rio Grande do Sul realizará, em Porto Alegre, a Festa dos 100 anos com Fidel, sob o lema "Solidariedade não se bloqueia". O evento ocorrerá às 19 horas, na Banda Saldanha, na Avenida Padre Cacique, reunindo militantes, artistas, intelectuais e simpatizantes da causa cubana.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, o presidente da Associação Cultural José Martí do Rio Grande do Sul, Ricardo Arend Haesbaert, convida apoiadores a participarem da atividade. A entidade atua há anos na promoção de intercâmbios culturais e da solidariedade internacionalista entre Brasil e Cuba.
Mas, para além dos atos públicos, permanece uma pergunta que raramente é debatida em profundidade pela grande imprensa brasileira.
POR QUE OS ESTADOS UNIDOS MANTÊM O BLOQUEIO CONTRA CUBA HÁ MAIS DE 60 ANOS?
Desde 1962, sucessivos governos norte-americanos — democratas e republicanos — mantiveram diferentes formas de embargo econômico e financeiro contra Cuba. Ao longo das décadas, as sanções foram ampliadas, flexibilizadas em alguns momentos e, posteriormente, endurecidas novamente, mas jamais deixaram de existir.
A justificativa oficial de Washington permanece praticamente a mesma: pressionar o governo cubano por reformas políticas, respeito aos direitos humanos e democratização do país.
Os críticos dessa política, entretanto, sustentam que o bloqueio ultrapassa a pressão diplomática. Argumentam que ele dificulta o acesso da ilha a crédito internacional, combustíveis, medicamentos, equipamentos médicos e investimentos estrangeiros, produzindo impactos diretos sobre a população civil. Essa posição é compartilhada por grande parte da comunidade internacional, que, há mais de três décadas, aprova na Assembleia Geral da ONU resoluções pedindo o fim do embargo.
A CRISE SE APROFUNDA
Em 2026, o governo Donald Trump voltou a endurecer significativamente as sanções contra Havana. Segundo levantamento publicado nesta semana pelo jornalista Leandro Demori, mais de 240 novas medidas foram adotadas desde janeiro, atingindo especialmente os setores energético e financeiro cubanos. A redução do fornecimento de combustíveis agravou os apagões que já afetavam milhões de habitantes e aprofundou as dificuldades de abastecimento de água, alimentos e medicamentos.

Demori relata que, durante visita à ilha no ano passado, encontrou um país submetido a longos períodos sem energia elétrica e com graves problemas de abastecimento. Em sua análise, o agravamento da crise também atende a interesses da política interna norte-americana, especialmente na disputa pelo voto do eleitorado cubano-americano da Flórida.
Segundo o jornalista, essa estratégia vai além da política externa. O endurecimento das sanções também atende a interesses eleitorais do Partido Republicano nas eleições legislativas de novembro de 2026. A comunidade cubano-americana da Flórida é considerada um dos principais redutos eleitorais republicanos, e o secretário de Estado, Marco Rubio, transformou a política para Cuba em uma vitrine política, combinando o discurso de combate ao governo cubano com promessas de uma "nova relação" com o povo da ilha.
Demori observa, porém, que essa estratégia apresenta uma contradição. Enquanto parte desse eleitorado apoia o endurecimento das sanções contra Havana, pesquisas indicam forte rejeição às deportações de imigrantes cubanos promovidas pelo próprio governo Trump.
Para o jornalista, a crise humanitária vivida atualmente por Cuba não pode ser compreendida apenas como consequência de problemas internos, mas também como resultado de uma política norte-americana que combina objetivos geopolíticos e cálculo eleitoral.
A SOBERANIA COMO CENTRO DO CONFLITO
Para movimentos de solidariedade a Cuba, o centro da questão não é apenas o modelo político adotado pela ilha.
O argumento é que, desde a Revolução de 1959, Cuba tornou-se alvo permanente da política externa dos Estados Unidos por ter rompido com a histórica influência de Washington sobre a ilha, nacionalizado empresas norte-americanas e optado por construir um projeto socialista independente em plena Guerra Fria.
Essa interpretação sustenta que o discurso da "ditadura cubana", frequentemente utilizado para justificar o embargo, não explica, por si só, a permanência de uma política de sanções que atravessa mais de seis décadas, diferentes governos e mudanças no cenário internacional. Para esses setores, o bloqueio representa uma tentativa de pressionar economicamente um país que decidiu seguir um caminho político distinto e afirmar sua soberania nacional.
Já o governo dos Estados Unidos afirma que as sanções têm como objetivo incentivar mudanças políticas, ampliar liberdades civis e pressionar Havana a respeitar os direitos humanos, argumentando que parte da responsabilidade pela crise econômica decorre da condução da economia pelo próprio governo cubano.
UM DEBATE QUE VAI ALÉM DE CUBA
Para os organizadores da carreata e das atividades de solidariedade, defender Cuba significa também defender o princípio da autodeterminação dos povos e rejeitar medidas unilaterais que afetam populações civis.
Independentemente das diferentes interpretações sobre o sistema político cubano, uma questão permanece aberta no cenário internacional: por que um embargo econômico iniciado há mais de seis décadas continua sendo mantido mesmo após o fim da Guerra Fria, atravessando governos democratas e republicanos nos Estados Unidos e sendo reiteradamente criticado pela maioria dos países na Assembleia Geral da ONU?
SERVIÇO
CARREATA EM APOIO A CUBA
Data: Domingo (26 de julho)
Horário: 10h
Concentração: Largo Zumbi dos Palmares – Porto Alegre
FONTES PARA CHECAGEM
[1] Leandro Demori – A fome em Cuba virou moeda eleitoral. https://www.instagram.com/leandro.demori/
[2] Organização das Nações Unidas – Resoluções da Assembleia Geral sobre a necessidade de pôr fim ao embargo econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos a Cuba.
https://digitallibrary.un.org/record/4092314?ln=en
[3] Organização das Nações Unidas – Histórico das resoluções sobre o embargo a Cuba.
https://press.un.org/en
[4] Associação Cultural José Martí do Rio Grande do Sul – Divulgação da Festa dos 100 anos com Fidel e atividades de solidariedade a Cuba. https://www.facebook.com/AssociacaoCulturalJoseMartiRS/?locale=pt_BR
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