ASSOCIAÇÃO É CRIADA PARA PRESERVAR MEMÓRIA DA DITADURA E LUTAR POR CENTRO DE MEMÓRIA NO DOPINHA
REDAÇÃO | ESQUINADEMOCRATICA.COM.BR

A luta pela preservação da memória das violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura ganhou um novo instrumento no Rio Grande do Sul. Foi constituída, na noite de quinta-feira (17/9), a Associação Memória e Verdade Manoel Raymundo Soares, que terá entre suas principais tarefas a mobilização pela criação de um Centro de Memória no imóvel onde funcionou o Dopinha, em Porto Alegre.
A assembleia de fundação foi realizada na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, com a participação de entidades e lideranças ligadas à defesa dos direitos humanos. Os estatutos e a primeira direção da entidade foram aprovados por unanimidade.
A Associação terá como objetivo preservar a memória das graves violações de direitos humanos ocorridas no Brasil, especialmente durante a ditadura de 1964 a 1985, e também das diferentes formas de resistência ao regime.
UM LUGAR QUE AINDA DISPUTA A MEMÓRIA
Localizado na Rua Santo Antônio, 600, no bairro Bom Fim, o Dopinha funcionou clandestinamente como espaço de detenção e tortura. A Comissão Nacional da Verdade identificou o casarão como o primeiro centro clandestino de tortura da ditadura, utilizado para que a repressão pudesse atuar sem comprometer formalmente os órgãos oficiais do Exército e da polícia.[1]
Foi também pelo Dopinha que passou o sargento Manoel Raymundo Soares, preso ilegalmente em março de 1966 e submetido a meses de tortura. Seu corpo foi encontrado em 24 de agosto daquele ano no Rio Jacuí, com as mãos amarradas. O crime ficou conhecido como o Caso das Mãos Amarradas e ajudou a revelar a existência do centro clandestino.[1]
Transformar o antigo Dopinha em espaço dedicado à memória não é uma reivindicação recente. Movimentos de direitos humanos lutam há mais de uma década pelo reconhecimento do imóvel como sítio de memória. Em 2015, a criação de um centro no local já era discutida com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.[2]
Pesquisa acadêmica publicada em 2025 mostra que a preservação do imóvel enfrentou, ao longo dos anos, entraves administrativos e disputas em torno da memória da ditadura.[3]
A criação da Associação Memória e Verdade Manoel Raymundo Soares dá agora uma nova estrutura institucional a essa mobilização.
PRIMEIRA DIREÇÃO
O Conselho de Administração terá Maria Luiza Castilhos como presidenta e José Loguércio como vice-presidente. Também integram o colegiado Alessandra Gasparotto, Ananda Simões, Carlos Daniel Vieira, Jair Krischke, Lorena Holzmann, Marta Haas, Raul Carrion, Raul Ellwanger, Rodrigo Lenz e Tisiane Siqueira.
Como suplentes foram escolhidos Raul Pont, Sibele Rossales, Oscar Plentz, Anita Carneiro, Pedro Vargas e Luciana Hasselmann.
O Conselho Fiscal será formado por Antônia Mara Loguércio, Jacques Alfonsin e Jesus Mattos. Em sua primeira reunião, o Conselho de Administração deverá eleger a Coordenação Executiva da nova entidade.
Mais do que preservar um imóvel, a reivindicação de um Centro de Memória no Dopinha coloca em discussão o que uma sociedade decide fazer com os lugares onde o Estado violou direitos fundamentais.
Transformá-los em espaços públicos de memória significa preservar documentos, testemunhos e histórias, mas também permitir que novas gerações conheçam aquilo que aconteceu.
Para o Esquina Democrática, memória, verdade e justiça não pertencem apenas ao passado. Conhecer as violações cometidas pelo Estado, reconhecer suas vítimas e preservar os lugares onde elas ocorreram são compromissos necessários para que a democracia possa olhar para sua própria história — e impedir que ela seja apagada.
FONTES PARA CHECAGEM
[1] COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE — Relatório Final, Volume I, capítulo sobre centros clandestinos de violação de direitos humanos, 2014
O que comprova: funcionamento do Dopinha na Rua Santo Antônio, 600, sua caracterização como primeiro centro clandestino de tortura da ditadura e a prisão e tortura de Manoel Raymundo Soares antes de seu corpo ser encontrado no Rio Jacuí.
[2] SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA — “Ministro debate criação de Centro de Memória em Porto Alegre”, 8/5/2015
O que comprova: a existência, há mais de uma década, de mobilização para transformar o antigo Dopinha em espaço de memória dedicado às violações ocorridas durante a ditadura.
[3] JULIÃO, Letícia; CUSTÓDIO, Jacqueline — “Dopinho e os descaminhos da memória de um centro clandestino de detenção em Porto Alegre”, revista Patrimônio e Memória, 2025
O que comprova: trajetória das iniciativas da sociedade civil para reconhecimento do Dopinha como sítio de memória e os entraves enfrentados pelo processo de preservação do imóvel. As fontes externas confirmam bem o contexto histórico: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade — trecho sobre o Dopinha Ministério dos Direitos Humanos — projeto de Centro de Memória no Dopinha estudo acadêmico sobre o Dopinha e sua preservação. 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA
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