PARTE 1: TRABALHO, RENDA E O ESTADO QUE QUEREMOS

A eleição de 2026 não coloca diante dos brasileiros apenas a escolha de quem ocupará a Presidência da República pelos próximos quatro anos. Estão em discussão projetos diferentes sobre o papel do Estado, a distribuição da riqueza, a proteção dos direitos sociais, o controle dos recursos naturais e a posição que o Brasil pretende ocupar no mundo.
É a partir dessas questões que o Esquina Democrática olha para a eleição. Nossa posição editorial está vinculada aos princípios que orientam este espaço: defesa da democracia, dos direitos humanos, da justiça social e da soberania nacional. Mais do que perguntar quem queremos no Palácio do Planalto, queremos discutir que Brasil pretendemos construir.
Nesta primeira parte, começamos pela dimensão mais concreta dessa escolha: trabalho, renda, pobreza e serviços públicos.
QUANDO OS NÚMEROS CHEGAM À VIDA REAL
Comparações entre governos exigem contexto. Jair Bolsonaro governou entre 2019 e 2022, período que inclui a maior crise sanitária mundial em um século. A pandemia provocou mortes, paralisou atividades econômicas, destruiu empregos e ampliou a pobreza em diferentes países. Ignorar esse impacto produziria uma comparação artificial.
Mas reconhecer a pandemia não significa ignorar o que aconteceu antes, durante e depois dela. A taxa média de desemprego no Brasil estava em 9,6% em 2022, último ano do governo Bolsonaro. Caiu para 7,8% em 2023, 6,6% em 2024 e 5,6% em 2025, o menor índice anual da série histórica iniciada em 2012.[1] Em 2025, o rendimento médio real habitual do trabalho chegou a R$ 3.560, também recorde da série.[1]
Entre os mais vulneráveis, a mudança aparece com outra dimensão. Em 2022, 31,6% da população estava abaixo da linha de pobreza utilizada pelo IBGE. O percentual caiu para 27,3% em 2023 e 23,1% em 2024. Na extrema pobreza, a redução foi de 5,9% para 4,4% e depois para 3,5%.[2] São percentuais que escondem milhões de histórias individuais. Conseguir trabalho, aumentar a renda ou deixar uma situação de pobreza altera concretamente a relação de uma família com alimentação, moradia, saúde e futuro.
Em 2023, também foi restabelecida por lei uma política permanente de valorização do salário mínimo, combinando a inflação medida pelo INPC com o crescimento real do Produto Interno Bruto de dois anos anteriores. Posteriormente, o ganho real passou a observar o limite estabelecido pelo arcabouço fiscal.[3]
Mais importante do que comparar valores nominais é compreender a escolha política existente por trás deles: o salário mínimo deve apenas preservar seu poder de compra ou também permitir que trabalhadores participem do crescimento da riqueza produzida pelo país?
QUE ESTADO QUEREMOS?
A resposta nos leva ao papel do Estado. Ele deixa de ser uma abstração quando abre uma escola, financia pesquisa, mantém uma Unidade Básica de Saúde ou leva um médico a uma comunidade onde a lógica estritamente comercial não assegura atendimento.
Na educação profissional, a expansão da Rede Federal prevê mais de 100 novos campi de Institutos Federais, investimento de R$ 2,7 bilhões e capacidade estimada para mais de 155 mil novas vagas.[4] Nas universidades federais, dez novos campi integram o programa de expansão, além dos investimentos destinados à retomada de obras e à consolidação da estrutura existente.[5]
Na saúde, o Mais Médicos chegou a 27,4 mil profissionais em 2025, crescimento de 97% em relação a 2022. Seis em cada dez atuavam em municípios classificados entre média e altíssima vulnerabilidade.[6]
Esses números não significam que os problemas estejam resolvidos. O SUS continua convivendo com filas e desigualdades regionais; universidades e institutos federais enfrentam necessidades de custeio, infraestrutura e permanência estudantil. Defender o Estado não exige esconder suas deficiências, mas discutir como enfrentá-las.
Para o Esquina Democrática, um país profundamente desigual precisa de um Estado capaz de assegurar direitos, investir e financiar o desenvolvimento, sem excluir a iniciativa privada nem transferir a ela toda a responsabilidade pela construção do futuro.
Essa discussão não termina no salário, na escola ou no posto de saúde. Ela alcança as riquezas capazes de definir o lugar do Brasil na economia mundial nas próximas décadas.
Na segunda parte desta reportagem, a pergunta muda de escala: quem controla o petróleo, os minerais estratégicos, a tecnologia e o valor produzido a partir das riquezas brasileiras?
FONTES PARA CHECAGEM
[1] IBGE — PNAD Contínua: resultados anuais do mercado de trabalho, 2023, 2024 e 2025
O que comprova: taxa média de desocupação de 9,6% em 2022, 7,8% em 2023, 6,6% em 2024 e 5,6% em 2025; confirma também o rendimento real habitual anual de R$ 3.560 em 2025 e que ambos os indicadores de 2025 representam resultados históricos da série.
[2] IBGE — Síntese de Indicadores Sociais 2025: pobreza e extrema pobreza, série 2012–2024
O que comprova: pobreza de 31,6% em 2022, 27,3% em 2023 e 23,1% em 2024; extrema pobreza de 5,9%, 4,4% e 3,5%, respectivamente.
[3] PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA — Lei nº 14.663, de 28 de agosto de 2023
O que comprova: política de valorização do salário mínimo a partir de 2024, considerando INPC e crescimento real do PIB de dois anos anteriores. A limitação posterior do ganho real ao arcabouço fiscal decorre das mudanças legais posteriores.
[4] MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO — Expansão da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica
O que comprova: investimento de R$ 2,7 bilhões, implantação de mais de 100 novas unidades de Institutos Federais e previsão de mais de 155 mil novas vagas.
[5] CASA CIVIL — Novo PAC: Universidades Federais
O que comprova: implantação de dez novos campi de universidades federais nas cinco regiões e investimentos para expansão, retomada de obras e consolidação da rede.
[6] MINISTÉRIO DA SAÚDE — Balanço 2025: Mais Médicos
O que comprova: 27,4 mil médicos no programa, crescimento de 97% desde 2022 e presença de 60% dos profissionais em municípios de média a altíssima vulnerabilidade. 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA
Jornalismo livre e independente
.png)







