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O SORRISO QUE VOLTOU


POR ALEXANDRE COSTA | JORNALISTA


Na noite da última sexta-feira (24/7), fui ao aniversário de Ariane Leitão. Poderia ser apenas mais uma festa. Mas não era. Dias antes, ela me disse que por algum tempo havia perdido a vontade de comemorar o próprio aniversário. A frase veio acompanhada de um breve silêncio. Depois completou: havia perdido não apenas a vontade de comemorar, mas, em determinado momento, até mesmo a vontade de viver.


Conheço Ariane há muitos anos. Fui seu assessor de imprensa quando disputou uma vaga na Câmara Municipal de Porto Alegre. Foi nesse período que a conheci: uma guria combativa, íntegra e comprometida com as causas sociais e com a defesa dos direitos das mulheres.


Por isso, o que aconteceu depois me tocou profundamente.


Ariane denunciou ter sido vítima de estupro durante uma confraternização partidária realizada em dezembro de 2022. A investigação avançou, o acusado foi indiciado, o Ministério Público apresentou denúncia e a Justiça a recebeu, transformando-o em réu. O processo segue em segredo de Justiça.


Mas este artigo não é sobre o processo.


É sobre o que aconteceu com Ariane depois da denúncia. Como tantas mulheres, ela sofreu uma segunda violência. Foi desacreditada, isolada, perdeu o emprego, teve sua saúde emocional e física afetadas e passou a conviver com o peso do preconceito. Experimentou na própria pele aquilo que milhares de mulheres denunciam todos os dias: o julgamento da vítima.


Na festa de aniversário, percebi o real sentido da palavra acolhimento. Seja no abraço da dona Dalva, sua mãe, presença decisiva para que Ariane encontrasse forças quando tudo parecia desabar. No carinho do filho Francisco, do marido Carlos e das amigas e companheiras de caminhada. Na dedicação de sua advogada Rúbia Abs da Cruz e na oportunidade que Manuela d'Ávila lhe deu, abrindo portas para recomeçar profissionalmente quando muitas se fecharam. Tive a oportunidade de ver o acolhimento também no abraço carinhoso e autêntico das deputadas Luciana Genro e Fernanda Melchionna.


Naquele salão havia muito mais do que uma comemoração. Havia respeito, afeto e uma rede de mulheres dizendo, sem precisar pronunciar uma palavra: "você não está sozinha".


Quando uma mulher denuncia uma violência, espera acolhimento. Quando encontra silêncio ou desconfiança, a ferida se aprofunda. Nenhuma organização política pode defender uma causa apenas no discurso. O mínimo que se espera é uma reflexão crítica para que isso nunca mais se repita.


Mas prefiro falar do que mais me deixou feliz na festa de aniversário.


Ariane voltou a sorrir.


Não é o sorriso de quem esqueceu. É o sorriso de quem sobreviveu. A dor permanece, as cicatrizes continuam e a batalha judicial ainda está em curso. Mas aquele sorriso mostra que ela voltou a acreditar na vida. Ao deixar a festa, entendi que essa vitória não pertence apenas à Ariane. Pertence a cada mulher que encontrou coragem para denunciar uma violência e a todas aquelas que estenderam a mão quando outras mais precisaram.


A violência jamais será apagada. Mas o acolhimento devolve algo precioso: a esperança.


A noite do aniversário da Ariane me permitiu ver, bem de perto, o tamanho e a dimensão da luta das mulheres. Vou guardar na memória o bordão repetido em alto e bom tom: “ninguém solta a mão de ninguém”. Parabéns às mulheres do PSOL, que demonstraram, com gestos e não apenas com palavras, o verdadeiro significado de solidariedade e acolhimento. 📲 curta, compartilhe e contribua

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