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O CARNAVAL MOSTRA O QUE A ROTINA ESCONDE: QUANDO A CIDADE SILENCIA, A EXCLUSÃO GRITA

por Alexandre Costa | www.esquinademocratica.com.br

Durante o Carnaval, Porto Alegre desacelera até quase desaparecer de si mesma. A metrópole de 1,33 milhão de habitantes, acostumada ao ruído dos motores, ao empurra-empurra das calçadas e à pressa cotidiana, amanhece vazia. É nesse silêncio raro — quando muitos partem em busca de descanso no litoral — que a exclusão ganha voz sem precisar falar: corpos estendidos nas calçadas, olhares esquecidos, vidas inteiras expostas. O que sempre esteve ali, mas era ignorado, torna-se impossível de não ver.


A invisibilidade que marca os dias comuns é rompida pelo vazio urbano. No cenário global, a falta de moradia atinge entre 150 e 300 milhões de pessoas [1]. No Brasil, o fenômeno assume contornos de crise humanitária aguda. Dados de 2026 indicam que o país possui entre 330 mil e 365 mil pessoas vivendo nas ruas [2]. O crescimento é acelerado: apenas entre 2023 e 2024, o aumento foi de 25% [3]. Entre 2020 e 2026, a expansão acumulada chega a quase 88% [2].


O FRACASSO DAS POLÍTICAS ESTRUTURANTES

O aumento da população de rua não é um fenômeno isolado, mas o resultado de falhas sucessivas nas redes de proteção social. A ida para as calçadas é o desfecho de processos cumulativos, onde os conflitos familiares aparecem como causa principal em até 44% dos casos, seguidos de perto pelo desemprego e perda de renda, que atingem até 39% dessa população [4].


A análise dos dados revela que a exclusão tem cor e origem definidas. Cerca de 70% das pessoas em situação de rua no Brasil são negras (pretos e pardos) e mais de 70% são migrantes que não nasceram na cidade onde hoje buscam abrigo [2]. Esse perfil evidencia que o problema está profundamente ligado a desigualdades estruturais e de raça, onde a habitação é tratada como mercadoria inacessível para as camadas mais pobres.


CRISE NA ASSISTÊNCIA SOCIAL EM PORTO ALEGRE

Em Porto Alegre, a visibilidade da população de rua durante o Carnaval expõe o que entidades representativas classificam como um colapso planejado da rede de proteção. A política de assistência social da capital já operava em condições precárias muito antes das enchentes de 2024 [5]. O Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (SIMPA) denunciou na época o sucateamento de equipamentos, a falta de profissionais concursados e a dependência de serviços terceirizados com fiscalização insuficiente [5].


A fragilidade dessa rede teve seu episódio mais dramático no incêndio de uma unidade da Pousada Garoa, em abril de 2024. O estabelecimento, que mantinha contrato com a Prefeitura para acolhimento de pessoas em vulnerabilidade, foi palco de uma tragédia que resultou na morte de 11 pessoas [6].


Se por um lado o feriadão na capital gaúcha deixa a cidade vazia, o que nos permite ver o tamanho real da população de rua, normalmente invisibilizada pelo rítmo frenético da sociedade. Por outro lado, o Carnaval evidencia a precariedade dos serviços de acolhimento, das políticas de assistência social e de moradia do município. Enquanto a prefeitura tenta esconder a fragilidade das suas políticas de proteção, a rua segue sendo o destino silencioso dos excluídos, que vivem na extrema pobreza, abandonados e desassistidos pelo estado e à margem da sociedade.

FONTES:

[1] OHCHR (ONU) – “Homelessness and human rights” – Data de acesso: 16/02/2026

[2] Agência Brasil – “Estudo aponta mais de 365 mil pessoas em situação de rua no Brasil” – 23/01/2026

[3] Observatório do 3º Setor – “População de rua brasileira cresceu 25% em um ano” – 2024

[4] The Conversation – “População em situação de rua não para de crescer no Brasil” – 2023

[5] SIMPA – “Melo desrespeita direitos e deixa rede de assistência social chegar ao colapso” – 26/07/2024

[6] G1 RS / Imprensa Local – “Incêndio em pousada que recebia pessoas acolhidas pela prefeitura deixa mortos em Porto Alegre” – Abril/2024


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