"MULHERES NEGRAS FUNDAMENTO DO MUNDO!", POEMA DE SILVANA CONTI*
- Alexandre Costa

- há 1 hora
- 2 min de leitura
Poetar é preciso, viver também é preciso!!! Compartilho um poema que fiz nesta madrugada de carnaval, de sexta para sábado (de 13/2 para 14/2), assistindo a Mocidade Unida da Mooca (MUM), escola de samba da zona leste de São Paulo, com enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin” e que me fez poetar e acreditar que a luta antirracista faz toda a diferença.

🌻MULHERES NEGRAS FUNDAMENTO DO MUNDO!
Antes da palavra, o sopro.
Antes do sopro, a terra.
Ododua firmou o mundo no vazio
e do barro primeiro nasceu o chão que sustenta tudo.
África — continente matriz.
Primeira ciência.
Primeiro ritmo.
Primeira arquitetura do sagrado.
Nada começa: tudo continua.
E cada mulher negra carrega essa continuidade.
É raiz que atravessa séculos.
É tronco que sustenta tempestades.
É folha que anuncia futuro.
São Yabás
rainhas do rio e do mar,
força das águas profundas,
vento que move destinos,
oceano que guarda a memória do mundo.
Chamam-se Conceição Evaristo,
escrevivência que transforma ancestralidade em verbo.
Chamam-se Sueli Carneiro,
pensamento que finca raiz e ergue consciência.
Chamam-se Instituto Geledés
Gèlèdé: celebração das grandes mães.
Reverência ao poder feminino ancestral.
Casa onde o axé se organiza em ação
e o sagrado atravessa a rua,
ocupa a praça,
entra no centro do poder
com a serenidade das montanhas antigas,
e da voz erguida
faz do texto escrito
território de vida.
São cientistas que leem as estrelas.
São artistas que moldam o invisível.
São sambistas que acordam a cidade
com o tambor que veio do primeiro chão africano.
A ancestralidade não habita o passado
ela brota do chão,
circula no sangue
e sustenta cada passo.
Mulheres negras
fundamento do mundo.
continente vivo.
princípio que permanece.
E quando seus nomes são pronunciados,
o ar se adensa.
Há um silêncio antigo que se abre,
como se as águas profundas parassem para ouvir.
Cada nome carrega barro e estrela.
Carrega travessia e permanência.
Carrega ventre e horizonte.
Quando dizemos
Conceição,
a palavra ganha corpo e memória.
Quando dizemos
Sueli,
a consciência acende como fogo que orienta.
Quando dizemos
Geledés,
as grandes mães caminham conosco.
E som que se espalha
é raiz que se aprofunda.
É rio que reencontra o mar.
É ancestralidade respirando no presente.
E então compreendemos:
o mundo não está começando
está sendo continuado
pelas mãos delas.
E quem escuta
sente no peito
o chamado antigo
de permanecer. *Silvana Conti é aposentada da RME. Militante Lésbica/Feminista/Antirracista. Mestra em Políticas Sociais. Doutoranda em Educação. Membra do Comitê Central do PCdoB, Dirigente nacional da UBM. Diretora de formação do SIMPA. 📲 CURTA, COMPARTILHE, COLABORE E CONTRIBUA WWW.ESQUINADEMOCRATICA.COM.BR
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