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"MULHERES NEGRAS FUNDAMENTO DO MUNDO!", POEMA DE SILVANA CONTI*

Poetar é preciso, viver também é preciso!!! Compartilho um poema que fiz nesta madrugada de carnaval, de sexta para sábado (de 13/2 para 14/2), assistindo a Mocidade Unida da Mooca (MUM), escola de samba da zona leste de São Paulo, com enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin” e que me fez poetar e acreditar que a luta antirracista faz toda a diferença.


🌻MULHERES NEGRAS FUNDAMENTO DO MUNDO!

Antes da palavra, o sopro.

Antes do sopro, a terra.

Ododua firmou o mundo no vazio

e do barro primeiro nasceu o chão que sustenta tudo.

África — continente matriz.

Primeira ciência.

Primeiro ritmo.

Primeira arquitetura do sagrado.

Nada começa: tudo continua.

E cada mulher negra carrega essa continuidade.

É raiz que atravessa séculos.

É tronco que sustenta tempestades.

É folha que anuncia futuro.

São Yabás

rainhas do rio e do mar,

força das águas profundas,

vento que move destinos,

oceano que guarda a memória do mundo.

Chamam-se Conceição Evaristo,

escrevivência que transforma ancestralidade em verbo.

Chamam-se Sueli Carneiro,

pensamento que finca raiz e ergue consciência.

Chamam-se Instituto Geledés

Gèlèdé: celebração das grandes mães.

Reverência ao poder feminino ancestral.

Casa onde o axé se organiza em ação

e o sagrado atravessa a rua,

ocupa a praça,

entra no centro do poder

com a serenidade das montanhas antigas,

e da voz erguida

faz do texto escrito

território de vida.

São cientistas que leem as estrelas.

São artistas que moldam o invisível.

São sambistas que acordam a cidade

com o tambor que veio do primeiro chão africano.

A ancestralidade não habita o passado

ela brota do chão,

circula no sangue

e sustenta cada passo.

Mulheres negras

fundamento do mundo.

continente vivo.

princípio que permanece.

E quando seus nomes são pronunciados,

o ar se adensa.

Há um silêncio antigo que se abre,

como se as águas profundas parassem para ouvir.

Cada nome carrega barro e estrela.

Carrega travessia e permanência.

Carrega ventre e horizonte.

Quando dizemos

Conceição,

a palavra ganha corpo e memória.

Quando dizemos

Sueli,

a consciência acende como fogo que orienta.

Quando dizemos

Geledés,

as grandes mães caminham conosco.

E som que se espalha

é raiz que se aprofunda.

É rio que reencontra o mar.

É ancestralidade respirando no presente.

E então compreendemos:

o mundo não está começando

está sendo continuado

pelas mãos delas.

E quem escuta

sente no peito

o chamado antigo

de permanecer. *Silvana Conti é aposentada da RME. Militante Lésbica/Feminista/Antirracista. Mestra em Políticas Sociais. Doutoranda em Educação. Membra do Comitê Central do PCdoB, Dirigente nacional da UBM. Diretora de formação do SIMPA. 📲 CURTA, COMPARTILHE, COLABORE E CONTRIBUA  WWW.ESQUINADEMOCRATICA.COM.BR

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