MAIS MADALENA E MENOS TESTOSTERONA, POR PAULO GAIGER E PATRÍCIA MATTEI

Escrever sobre gênero e sexualidade na escola não é mole e se corre o risco da agressão odiosa de quem reflete raso ou é de má fé. Como estes âmbitos acontecem na relação de ensino-aprendizagem, entre estudantes e docentes e dentro da própria estrutura curricular, didático-pedagógica e política da instituição são temas humanamente imprescindíveis na educação. E deveria ser na família, esse lugar insabido, heterogêneo e, muitas vezes, inseguro, onde ocorre a maior parte dos abusos sexuais de crianças e de violência contra a mulher. Os avanços e os debates que tomaram conta dos diversos espaços políticos e sociais podem estar comprometidos e as conquistas realizadas nos últimos anos relacionadas às mulheres, meninas e crianças estagnarem e dar passo atrás se a extrema-direita tomar o poder. Contrariando expectativas humanistas e de justiça, o que se percebe atualmente de forma incisiva e bélica, são as pressões de determinados segmentos, especialmente vinculados às igrejas neopentecostais, e de grupos políticos de extrema-direita para eliminar conquistas, estigmatizar os temas de gênero e sexualidade e condenar os feminismos e pessoas e comunidades LGBTQIA+ por conduta desviante e contaminante e, portanto, por um mal que, em nome da família e do país cristão, deve ser erradicado. Afinal, Deus está de olho e, desde sua imensa bondade, pune, castiga, envia vírus, pragas, secas e enchentes para matar milhares de pessoas e ajustar as coisas. Porém e como sempre, desde a consolidação do patriarcado, é sobre as mulheres que recaem as coações e as ações repressivas mais contundentes. As religiões e as igrejas foram e são dois dos principais obstáculos para a garantia das conquistas e aberturas sociais ao longo dos tempos. Elas, em grande parte, não conseguiram avançar e propor mudanças substanciais na forma como entendem o ser humano, especialmente, naquilo que costumam chamar de ordem e valores morais. Para a maioria, não há nada mais a se saber e conhecer além da palavra de Deus impressa na Bíblia (escrita a várias mãos e mentes perversas). A ciência e a pesquisa, portanto, devem ser dirigidas preferencialmente para deificar os mitos bíblicos. E se assim não o fizerem, que vão para o inferno. O apagamento das mulheres foi parte desta estratégia para que tudo desse certinho e o mundo cheirasse a pau, testículos e sangue. Paulo e Pedro, entre tantas vozes do patriarcado, anularam Maria Madalena e Maria, a mãe de Jesus, ambas lutadoras contra os desmandos da época. As duas Marias é que fizeram a cabeça de Jesus. Pastores e padres ao afirmarem que mulheres não podem estar no comando, de que algumas práticas e desejos sexuais contrariam a natureza, entram em contradição, pois qualquer coisa que seja contra as leis da natureza não pode acontecer. A maçã de Newton não deixará de cair quando se desprender da macieira mesmo sob ordens do papa; a Terra continuará girando em torno do sol mesmo que Malafaia seja contra. Diante deste fato evidente, as igrejas apelam à vontade de Deus. Contudo, se esse Deus, onipotente e onisciente, criou a natureza e a natureza não interpõe e nem julga as múltiplas formas de sexualidade e gênero, ou Deus é só uma fantasmagoria ou as igrejas mentem sobre a sua vontade para terem o poder de mandar e de encher os cofres. A preocupação em relação aos possíveis retrocessos advém da multiplicação de templos e pregações fundamentalistas e de como o discurso seduz parcelas da população, estudantes, pais e docentes das escolas, em nome de uma hipotética família cristã. Muitos senadores, deputados, prefeitos e ministros representam estas igrejas e a perversidade que vem no combo. É preciso resgatar e ouvir a Madalena.
*Paulo Gaiger, artista e cronista
*Patrícia Mattei, doutora em educação 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA
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