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DOCUMENTÁRIO SOBRE GRENAL POSSIBILITA ENXERGAR O CLÁSSICO A PARTIR DE OUTRO PONTO DE VISTA

há 12 minutos
7 min de leitura

“GRENAL: o Maior Clássico das Américas” percorre mais de um século de rivalidade entre Grêmio e Internacional e propõe um olhar que ultrapassa resultados, títulos e a divisão entre vermelho e azul

POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINADEMOCRATICA.COM.BR


Gre-Nal é pura nitroglicerina. Em Porto Alegre, basta inverter a ordem dos clubes numa frase, escolher quem aparece primeiro numa imagem ou dedicar alguns segundos a mais para uma história e haverá alguém disposto a enxergar favorecimento. Imagine, então, assumir a responsabilidade de colocar mais de um século dessa rivalidade em 84 minutos de cinema.

Quem arriscaria a própria reputação entrando numa história marcada por vermelho e azul, vitórias e derrotas, pertencimentos familiares e paixões transmitidas entre gerações, tentando impedir que a gangorra da narrativa pendesse para um dos lados? Foi esse o desafio enfrentado por “GRENAL: o Maior Clássico das Américas”, documentário dirigido por Belisario Franca e Tatiana Sager, com direção adicional de Renato Dornelles. Produzido pela Giros Filmes e Panda Filmes, em coprodução com RBS e sportv, o longa estreia nesta quinta-feira (17) nos cinemas da rede GNC em Porto Alegre e Santa Catarina. A versão que chega às salas tem 84 minutos.[1]

O filme já havia sido apresentado publicamente em 20 de agosto, durante o 54º Festival de Cinema de Gramado, em uma Exibição Especial fora das mostras competitivas, realizada no Hotel Serra Azul.[2] Na noite de terça-feira (15/9), o Esquina Democrática acompanhou a pré-estreia para convidados no GNC Moinhos, em Porto Alegre, e conversou com Tatiana Sager e Renato Dornelles.

O Esquina Democrática não vai dar spoiler, antecipando cenas e histórias que pertencem à experiência única de quem entra numa sala de cinema. Jornalismo também se faz com responsabilidade, e percepção é algo que se constrói. Cada espectador chegará ao filme carregando sua própria história, suas cores e, inevitavelmente, seu próprio ponto de vista.

O LUGAR DE ONDE OLHAMOS

Imagine duas pessoas diante do mesmo objeto, mas posicionadas em lugares diferentes. Cada uma descreve aquilo que consegue enxergar e as duas descrições podem parecer incompatíveis. Nenhuma delas precisa estar mentindo ou necessariamente errada. O que cada uma vê depende também do lugar de onde olha.

Talvez seja preciso mudar a posição do olhar para descobrir que aquilo que parecia contraditório fazia parte do mesmo objeto. Essa metáfora ajuda a compreender uma das experiências proporcionadas por GRENAL. O documentário não pede ao colorado que deixe de ser colorado nem ao gremista que abandone sua identidade. Tampouco exige uma neutralidade improvável diante de uma paixão que, muitas vezes, começa dentro de casa antes mesmo que saibamos explicar por que escolhemos determinadas cores.

O que o filme possibilita é enxergar o clássico a partir de outro ponto de vista. Olhar, por alguns instantes, para o lado de lá. E o lado de lá não precisa ser o lado errado. É apenas o lugar de onde o outro vê. A própria apresentação da produção ajuda a compreender essa construção. A Giros Filmes define o Gre-Nal como uma disputa em permanente “gangorra”: em determinados períodos favorável ao Grêmio, em outros ao Internacional, sem que a rivalidade produza um vencedor definitivo.[3]

Construir esse equilíbrio dentro do filme exigiu cuidado. Renato Dornelles contou ao Esquina Democrática que a produção procurou assegurar tempos equivalentes aos dois clubes. Tatiana Sager foi ainda mais longe ao explicar que esse equilíbrio chegou a ser acompanhado praticamente como um cronômetro durante a construção do documentário. Segundo ela, até escolhas aparentemente pequenas poderiam alimentar a discussão sobre qual dos lados teria recebido maior destaque.

Não parece exagero. Quando se trata de Gre-Nal, até o ponto de partida pode ser interpretado como tomada de posição.

TATIANA E UM FUTEBOL QUE TAMBÉM MUDOU

A presença de Tatiana Sager na direção acrescenta outra perspectiva à história de um ambiente que durante décadas teve presença predominantemente masculina. Jornalista de formação, Tatiana trabalhou como fotógrafa e também cobriu futebol, antes de se dedicar ao cinema. Na conversa com o Esquina Democrática, lembrou que o futebol gaúcho sempre esteve dentro das famílias, envolvendo homens, mulheres e crianças, embora o espaço profissional e o próprio ambiente dos estádios tenham sido historicamente muito mais masculinos.


Ela conhece isso também pela própria experiência. Ao recordar seus tempos de fotojornalismo, contou um episódio ocorrido quando foi escalada para cobrir uma partida do Grêmio vestindo, inadvertidamente, uma camiseta vermelha. Em meio à hostilidade que encontrou no estádio, precisou da proteção do então colega, Roberto Santos, fotógrafo.

A história parece pertencer a outro tempo. E talvez seja justamente por isso que mereça ser lembrada. Tatiana chega a GRENAL com uma trajetória cinematográfica fortemente ligada a questões sociais. Poucas semanas antes da estreia do documentário sobre o clássico, seu “Filhas da Lua” conquistou o Kikito de Melhor Longa-Metragem Gaúcho no 54º Festival de Cinema de Gramado, além da escolha do Júri Popular. O documentário acompanha quatro mulheres trans que passaram pelo sistema prisional.

Perguntei a Tatiana, antes de assistir a GRENAL, sobre a participação feminina em um universo historicamente identificado com os homens. Depois do filme, a pergunta ganhou outro significado. Talvez a questão não esteja apenas em contar quantas mulheres aparecem na tela, mas em perceber de quantos lugares somos capazes de olhar para uma mesma paixão.

ADVERSÁRIO NÃO É INIMIGO

Existe ainda outra escolha importante no documentário. Renato Dornelles explicou ao Esquina Democrática que ele e Tatiana já trabalharam intensamente o tema da violência em outras produções. Em GRENAL, a opção foi concentrar o olhar na paixão, na história e na rivalidade esportiva, deixando a violência fora do centro da narrativa — justamente por considerá-la algo que deve permanecer distante dos estádios.

A decisão permite uma reflexão que ultrapassa o filme. Durante muito tempo, o vocabulário utilizado para falar de futebol apropriou-se de palavras associadas à guerra: batalha, inimigo, confronto, território, invasão. Algumas viraram figuras de linguagem incorporadas à narrativa esportiva. O problema começa quando a metáfora deixa de ser metáfora.

Adversário não é inimigo. Racismo, homofobia, machismo e violência não se tornam aceitáveis porque acontecem numa arquibancada ou porque alguém veste a camisa do clube rival. Preservar uma cultura não significa preservar tudo aquilo que algum dia fez parte dela. Culturas também mudam.

O esporte pode ensinar a competir, vencer e comemorar. Mas também deveria ensinar a perder, reconhecer o mérito do outro e voltar para tentar novamente. É nesse ponto que a gangorra reaparece. Para que alguém esteja em cima, é necessário que exista alguém do outro lado.

QUANDO AS LUZES SE ACENDEM

Talvez o momento mais difícil do documentário seja quando o documentário termina, as luzes da sala se acendem e somos obrigados a voltar ao presente. Durante 84 minutos, GRENAL: o Maior Clássico das Américas percorre uma história construída por grandes jogadores, títulos, vitórias, derrotas e personagens que ajudaram a dar a Grêmio e Internacional uma dimensão que ultrapassa o Rio Grande do Sul. Depois disso, é literalmente sofrível retornar à realidade.


Para o próximo Gre-Nal a metáfora da gangorra não parece fazer sentido. Ao longo de mais de um século, uma das duas equipes mostrava sua superioridade em campo, tendo destaque no cenário nacional. Em 2026 não existe gangorra: as duas equipes estão ameaçadas de rebaixamento. Mas isso pertence ao futuro, e poucas coisas são tão capazes de derrubar certezas de uma semana para outra quanto o futebol.

O TAMANHO DA VITÓRIA É PROPORCIONAL À DIMENSÃO DO ADVERSÁRIO

O que o documentário permite perceber é que a grandeza de Grêmio e Internacional foi construída a partir da existência de um adversário à altura. O desafio é permanente. No caso do Gre-Nal, vitórias e derrotas fazem parte de um ciclo que não terminará quando o juiz soar o apito final. Será apenas um período antes do próximo clássico, do próximo desafio, que é sempre gigantesco. Um bom adversário é aquele que transforma uma vitória em uma grande vitória. Quando chegar o próximo clássico, colorados continuarão querendo derrotar gremistas e gremistas continuarão querendo derrotar colorados. É assim que deve ser. Mas talvez possamos olhar para o outro ponto de vista e compreender que, do lado de lá, alguém sente pelo clube dele algo muito parecido com aquilo que sentimos pelo nosso.

Pais e filhos podem estar em lados diferentes. Casais podem vestir cores opostas. Amigos podem passar uma semana provocando uns aos outros e sentar juntos à mesa na semana seguinte. O futebol não precisa apagar essas diferenças. Parte de sua beleza está justamente em permitir que elas existam.

Depois de 84 minutos olhando para mais de um século de Gre-Nal a partir de diferentes pontos de vista, uma ideia permanece quando as luzes se acendem:

o encanto do clássico não depende de odiarmos o outro. Depende justamente de ele existir.

NOTA DA REPORTAGEM — O Esquina Democrática acompanhou a sessão para convidados realizada no GNC Moinhos. Agradecemos a Patrícia Rabello e Isidoro Guggiana pelo convite e pela interlocução que possibilitou o acompanhamento da sessão e as entrevistas com integrantes da equipe. O convite não interfere na independência editorial desta reportagem.

FONTES PARA CHECAGEM

[1] GIROS FILMES / PANDA FILMES — “Grenal — O Maior Clássico das Américas” O que comprova: direção de Belisario Franca e Tatiana Sager; direção adicional de Renato Dornelles; produção; ficha técnica; sinopse e estreia em 17 de setembro. Giros Filmes — página oficial do documentárioPanda Filmes — página oficial do documentário

[2] 54º FESTIVAL DE CINEMA DE GRAMADO — “Grenal — O Maior Clássico das Américas” O que comprova: participação como Exibição Especial em 20 de agosto e apresentação do filme no Festival. A programação oficial separa a sessão das mostras competitivas. Observação para nossa checagem final: a página do Festival registra 87 minutos, enquanto o material atual de lançamento informa 84; para a versão em cartaz, adotamos os 84 minutos informados na divulgação da estreia. Festival de Cinema de Gramado — página do filme

[3] GIROS FILMES — sinopse oficial O que comprova: caracterização do Gre-Nal como uma disputa em permanente “gangorra”, alternadamente favorável a Grêmio e Internacional e sem vencedor definitivo. Giros Filmes — sinopse e ficha técnica

[4] ENTREVISTAS DO ESQUINA DEMOCRÁTICA — Tatiana Sager e Renato Dornelles, 15/09/2026 O que comprovam: declarações utilizadas nesta reportagem sobre equilíbrio entre os clubes, participação feminina, experiência profissional de Tatiana e decisão narrativa relacionada ao tratamento da violência. [5] PRESSPHOTO — 54º Festival de Cinema de Gramado, 20/08/2026 O que comprova: registro fotográfico oficial da Exibição Especial de GRENAL: o Maior Clássico das Américas. Crédito das imagens: Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto. Pressphoto — cobertura fotográfica de 20 de agosto

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