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Gênesis 3 - a versão mais que verdadeira Abraãmicas, por Paulo Gaiger*

Eva percorreu mundos e fundos, mundos de sua época, fundos para escapar da ira divina, que na bíblia chamam ironicamente de justiça, justiça de deus. Isso lá bem depois do início dos tempos em que deixamos, ano após ano, de ser nômades, caçadores, tementes aos fenômenos da natureza. Um eclipse, um céu avermelhado, uma gravidez, a menstruação, a TPM, a morte, o trovão, o ornitorrinco ainda eram coisas incompreensíveis. Ela deixou escrito: Adão viveu 930 anos, mas quase como se fosse uma dessas tartarugas que vivem séculos sem poder saber muita coisa dos dias e das noites. Claro, porque ele estava sempre de joelhos. E dá um toque para as mulheres: imaginem conviver com um chato mandão por todo esse tempo, preso à sua própria caverna e achando que sabe tudo, que deus isso, que deus aquilo. Sabe, Adão deu uma mordidinha na maça que eu alcancei para ele, mas me sacaneou ao me entregar para o criador: “foi ela, a culpa é dela”. Novecentos e trinta anos congelado em sua arrogância e burrice. Afff! No dia em que saímos do Éden, o criador cumpriu suas ameaças: me esconjurou e me colocou no chinelo, eu sofreria eternamente e seria subjugada pelo meu marido. “E se eu não quiser me casar, hem? E seu eu preferir viver com uma mulher?”; “Bruxa, pecadora, se não quiseres te casar com minha imagem e semelhança, toda a sociedade irá te condenar e falar de ti: é feia, mal-humorada, gorda, ruim de cama, bruxa, talvez sejas queimada vivinha da silva... E se fores viver com uma mulher, minhas igrejas irão te condenar aos infernos. O melhor, Evinha, é tu aceitares o destino que eu determinei, e te casares com minha imagem e semelhança, te submeter e ter prole numerosa para te ocupar!”. Que nojo! Desde então ele só se referiu a homens, homens após homens, uma fila de reis, mandatários, ricos e negociantes. Não tinha escapatória. Troquei de nome para tentar sumir dos olhos vigilantes do perverso. Não adiantou de nada. Com o nome de Sara, acabei meio casada com Abraão. Não queria ter filhos e inventei que eu era estéril. Pra quê? Abraão fez um filho com Hagar, nossa empregada. Meu marido enriqueceu, tornando-se dono de terras, ovelhas, jumentos, escravos, ouro e prata... sabem como? Me entregava para o deleite de reis e negociantes. Anos depois, por ordem de alguém poderoso, me estupraram e pari o Isaque. Deus aplaudindo e dizendo: “é pela aliança”. Nem sabia dessa tal aliança que ele fez com Abraão e para a qual não pude dar um pitaco sequer. Não contente com o festival de imbecilidades, o criador mandou Abraão sacrificar o Isaque, torrar o menino em uma fogueira como prova de devoção e em troca de ser poderoso, ser o pai de três nações. Ah, não! Quando soube que Abraão subia a montanha levando nosso filho para o sacrifício, corri atrás e segurei meu marido pela túnica à altura do pescoço. Ele sentiu meu hálito de mulher indignada: “Com o Isaque ou com quem quer que seja tu não vais cometer crime algum. Deixa de ser imbecil, Abraão. Uma vez na vida, seja justo e humano!”; “Mas Sara, é deus quem quer...”; “Boa desculpa pra fazer merda, para matar a quem te dá vontade! Pois mande o teu deus pra aquele lugar, seja forte, seja você mesmo, te liberta dessa maluquice!”. Abraão me olhou com aquela cara de pamonha, meio sem noção do ridículo. Ele tinha poder sobre mim, era a imagem e semelhança de um déspota, vingativo, injusto, e sonhava em ser o dono de três nações. Mas diante de meu olhar e de meu pulso, baixou a guarda e descemos a montanha. Desceu rosnando! Tive que sumir mais uma vez. Soube que o criador ficou furioso com o que eu fiz e que falou para os seus botões: “putz, vou ter que sacrificar um filho meu”.

 

(*) Conto publicado no livro Metáfora das Flores



Gênesis 2 – O Jardim do Éden


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