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Gênesis: a versão mais que verdadeira - O cortador de cutículas – I, por Paulo Gaiger*




Naquela região denominada Mesopotâmia, do velho Crescente Fértil aonde quase tudo começou, entre os rios Tigre e Eufrates, pois no fundo das águas, guardada em urna à prova d’água, dos dias e noites e do mexerico dos peixes, répteis e anfíbios, foi recentemente encontrado um pergaminho com a versão mais que verdadeira do Gênesis, descoberta que deverá estremecer as convicções das três maiores religiões do planeta terra, pois de outro não poderá ser uma vez que nos escritos até então lidos e conhecidos, o criador do céu, da terra e do sapo-cururu se refere a este em que vivemos e que destruímos e flexibilizamos a exploração das áreas de preservação ambiental, e não a Netuno, Marte ou Júpiter. Cientistas do mundo inteiro, curas, rabinos e mulás se debruçaram horas a fio decifrando e levando sustos imensos segundo os jornalistas que acompanhavam o árduo trabalho. Antes que vaze para as redes sociais, especializadas em mentir e distorcer, trago em primeira mão a tradução das primeiras páginas a mim concedidas gentilmente pelos ávidos tradutores. Contudo, alerto que esta versão mais que verdadeira, bem anterior a que está congelada na Bíblia, requer coração forte e pensamento arejado. Vamos ao que interessa. Afinal, poderíamos ficar divagando sobre isso e aquilo, essa coisa e coisa nenhuma, o tudo e o nada. O escrito, isto é comprovado, foi realizado por uma mulher, visto que as páginas do pergaminho possuem adesivos de flores, de bichinhos, de coraçõezinhos, estão perfumadas e caprichosamente escritas. Além disso, em todas as páginas se lê o slogan “Não é não”, frases contundentes contra a monogamia, o casamento e a sujeição ao maridinho (ela escreve assim mesmo, ironia mesopotâmica). Preparem-se, que assim começa a versão mais que verdadeira do Gênesis, a verdade na lata: “Oiê!”, eu disse. Deus estava meio na pasmaceira, recostado sobre seu braço direito, tentando achar algo para admirar em sua criação, devaneando sobre como manipular suas criaturas, quando foi sacudido pelo meu Oiê. “O que foi?” Perguntou já furioso torcendo o pescoção. “Por acaso tu tens um cortador de cutícula pra emprestar?” “Âããã... de onde essa coisa saiu?”; “Ué, sou a Eva, por que, não me reconhece?”; “Não me faça rir, tu nem é minha imagem e semelhança!”; “Por deus, ainda bem. E deixa de ser grosso. Diz aí, o cortador de cutícula, tens ou não?”; “Por que eu teria um troço desses... um cortador de que...?”; “De cutículas, homem de deus. Como é que tu não tens? Fica seis dias fazendo o sol, a lua, a montanha, o mar, o rinoceronte, o mosquito-pólvora, a lagartixa, a cachalote, o urubu e não inventou um cortador de cutículas? É muita incompetência”; “Guria, olha que eu te amaldiçoarei... vais...”; “Já sei: vou sofrer as dores do parto, a minha vontade será o do meu marido, terei que usar salto agulha, ser zelosa com a penca de filhos, cuidar da casa, transar sem vontade, calar a boca, ir ao templo... Ô, que ridículo! Tens mãe?”; “Claro que não, sou deus”; “E uma namorada?”; “Pelo amor de deus, eu me basto”; “E sexo, tu fazes?”; “Deus me livre!”; “Ah, por isso esse mau humor do cão. Mãe, namorada e sexo fazem muito bem. Pena que eu não tenha uma mãe, só o plasta do Adão por estes jardins e nenhuma outra mulher”; “Pervertida! Irei te condenar, vais ter o pecado dentro de ti!”. “Ai, ficou brabinho... eu e a santa paciência!”; “Vade retro, mulher, vai pra cozinha”. E virou as costas para mim, quase enfartando. Subi uns degraus etéreos e fiz uma massagem em suas costas Ele relaxou um pouco. “Então, não é bom ter alguém com quem conversar, alguém pra beijar, abraçar, escutar, fazer e receber cafuné?”; “É que eu sou deus, não preciso disso, não preciso de ninguém, só de fé, adoração e orações!”. E eu vi uma lágrima de tristeza correr em seu rosto.


(*) Conto publicado no livro Metáfora das Flores



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