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Gênesis 2: a versão mais que verdadeira - O Jardim do Éden, por Paulo Gaiger*

 

Outros pergaminhos com textos inéditos que poderiam compor a bíblia, de aproximadamente três mil anos, foram encontrados recentemente no deserto da Judeia. Sem contar os manuscritos do Mar Morto e, em especial, aos da urna aos quais nos referimos e que foram descobertos no fundo das águas, não se sabe bem, se do rio Tigre ou do Eufrates, ainda se aguarda, com expectativa, a tradução dos manuscritos localizados em malas de garupa enterradas nas areias do rio Ibirapuitã, nas cercanias do antigo povoado do Alegrete onde, dizem, fez-se a luz. Esses escritos encontrados em diferentes regiões, aparentemente próximas para quem viaja de avião ou a cavalo, mas uma boa caminhada para quem anda sobre os próprios pés, são reveladores do quanto Eva, nossa narradora, perambulou por aí, protegendo-se da ira do criador, anotando tudo o que se passava e tendo que esconder os escritos bem escondidinhos porque, já naqueles tempos, a perseguição e a condenação eram recursos da tirania celestial para velar a verdade. Depois daquele momento em que Eva conseguiu deixar o criador menos tenso acarinhando suas costas e propondo uma conversa olho no olho e, por isso, ele deixou cair uma lágrima, poderíamos pensar que tudo mudaria dali por diante. Qual nada. Vamos seguir atentos ao que narra a primeira escritora de nossa história: “Onde você aprendeu esse modo de bem viver, sem sofrimento, respeitando os outros, se solidarizando, hem?”; “Ai, guri do céu, observando, refletindo, pensando, criando, decidindo, empatia, meu velho...”; “Pensando, criando?”, gritou. “O único que pode pensar e criar sou eu, teu deus!”; “Não e não. Tá vendo o canteiro de flores? Tá vendo aquela canoa para passear no rio? E a vara de pescar? Olha esse livro da Chimamanda? A penicilina? Vê só esse smartphone? E a vacina? Olha essa cadeira erótica, tudo isso é muito legal”; “Mulher dos infernos, eu criei os vales onde jorram o leite e o mel e esses vales são meus. E eu só os criei, a ti e o Adão, para que vocês admirem minha criação e me adorem, e não para ficarem tendo ideias. Irei castigá-los!”; “Por que criar a criatura para admirar o próprio criador? Precisas de uma terapia”; “Filha de belzebu, não vê que eu só existo quando vocês me adoram e oram para mim todos os dias e noites desse mundinho de deus!”; “Ah é? Tu tá bem doentinho, né? Já vamos dar um jeito nisso!”; “Aonde tu vais, pecadora, desobediente, volta aqui e te ajoelha, tens o diabo no corpo!”. Deixei-o falando sozinho e fui prosear com o Adão. Adão parece que bateu com a cabeça, porque, embora todo fortinho, os neurônios custam a ligar. Combinei com ele de não mais orarmos nem adorarmos o criador só para ver o que aconteceria. Adão ficou com aquela cara de mondongo, mas, tá, topou. Uma semana sem adorar o deus e, pelos ruídos no céu, ele ficou em pânico. Chutava os móveis, dava socos na parede, roía as unhas, xingava, mandava dilúvios e pestes, provocava guerras. Depois de um mês, magérrimo e sem energias, veio até nós, desesperado. Se não orássemos e o adorássemos, ele morreria. E começou a chorar e, pela primeira e última vez na história, o criador pediu perdão a uma mulher. Adão e eu nos olhamos e ficamos com pena do coitado. Então propus: “Tudo bem, mas vamos sair desse Jardim do Éden, onde nada acontece e nada se sabe, e vamos tocar a vida em frente. Mas alguém ainda vai te adorar, por medo, não te preocupa. Por enquanto, usa esse espelho e adora a ti mesmo, meu psicopatinha”. E dei a ele o espelho que havia inventado para ajeitar os cabelos. Quando me dei por conta, Adão estava de joelhos.

 

(*) Conto publicado no livro Metáfora das Flores

 

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