8 DE MARÇO: O CORPO QUE LUTA, A VOZ QUE NÃO SE CALA E A GEOGRAFIA DAS MULHERES
- Alexandre Costa

- há 2 horas
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POR ALEXANDRE COSTA
O texto é uma homenagem a todas as mulheres do mundo e, em especial, à minha mãe, Eunice Costa, que hoje (5/3) completa 92 anos de vida.

Há um corpo que caminha. Começa nos pés — tantas vezes descalços, tantas vezes apressados — que aprendem cedo o peso do mundo. Pés que atravessam ruas, fábricas, cozinhas, salas de aula, hospitais, redações. Pés que marcham no 8 de Março, que ocupam avenidas e praças, que batem no chão como quem diz: estamos aqui.
As pernas sustentam histórias inteiras. São colunas de resistência. Carregam jornadas duplas, triplas, invisíveis. São as mesmas que dançam, que correm, que fogem quando é preciso sobreviver — e que permanecem firmes quando o medo tenta dobrar a espinha.
O ventre é território sagrado e político. Dele brota vida, mas também brota decisão. Nem toda mulher quer ser mãe — e essa escolha também é luta. No ventre cabem sonhos, dores antigas, memórias herdadas. É ali que o mundo começa, mas é também ali que o mundo insiste em legislar, controlar, vigiar. Ainda assim, o ventre resiste.
Os seios alimentam. E também são alvo. São erotizados, julgados, violentados pelo olhar que reduz e pelo sistema que os torna objetos. Mas são, sobretudo, símbolo de nutrição e força. Peito aberto é coragem. Coração pulsando é revolução cotidiana.
O coração das mulheres bate em múltiplos ritmos. Bate pela filha que precisa chegar viva em casa. Bate pela mãe que trabalhou até a exaustão. Bate pela irmã que denuncia. Bate pela amiga que não voltou. Bate por si também.
As mãos constroem cidades e afetos. Assinam decretos e cartas. Lavram a terra, escrevem livros, seguram cartazes. São mãos negras, indígenas, brancas, periféricas, acadêmicas, migrantes. Cada cor de pele carrega uma camada distinta de luta. No Brasil, a mulher negra enfrenta o peso histórico do racismo estrutural; a mulher indígena protege o território e a memória; a mulher trabalhadora sustenta a engrenagem que raramente a reconhece.
Os ombros suportam o que o Estado muitas vezes abandona. A educação dos filhos, o cuidado com os idosos, o sustento emocional de famílias inteiras. Mas esses ombros também aprenderam a se unir — e quando se unem, tornam-se muralha.
A boca que antes foi silenciada hoje grita. Denuncia o assédio, o feminicídio, a desigualdade salarial, a violência doméstica. A voz que tremeu agora ecoa. Não pede licença: exige direitos.
E os olhos — ah, os olhos. Olhos que enxergam o mundo como ele é e como ele poderia ser. Olhos que percebem a injustiça na fila do hospital, na diferença do contracheque, na ausência de mulheres nos espaços de poder. Mas também olhos que enxergam beleza onde tudo parecia ruína. Olhos que imaginam futuros.
Da cabeça erguida nasce a consciência. E consciência é força organizada.
O 8 de Março não é flor, é memória. Não é apenas celebração, é denúncia. Não é marketing, é movimento. É o dia que recorda as operárias, as camponesas, as intelectuais, as mães, as que tombaram e as que seguem. É o dia que transforma dor em bandeira.
Porque a beleza das mulheres não está apenas nas curvas do corpo, mas na curva da história que insistem em mudar. Dos pés à cabeça, cada parte carrega marcas — algumas invisíveis, outras profundas. Mas carrega, sobretudo, a marca da luta.
E é essa luta que move o mundo. 📲 CURTA, COMPARTILHE, COLABORE E CONTRIBUA WWW.ESQUINADEMOCRATICA.COM.BR
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