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FUGA LOUCA PARA DENTRO DE CADA UM

por Antonio Manuel de Oliveira

Minhas loucuras não têm nada a ver contigo. Quero o campo aberto para correr. Até cansar, me enredar/embrenhar no mato, ferir-me com os espinhos até cair morto, ou vivo, para depois seguir em frente até onde der e puder. Meus pensamentos não têm nada a ver contigo, que já me olhas com desprezo e ódio e eu nem me importo, pois nunca me importei mesmo, e acho até que isto nem muda nada, pois minha boca está como que salgada, botando uma gosma para fora em vez de saliva. Uma coisa estranha. De certo por causa dos remédios que odeio e da canseira que me dá ficar só contemplando já sem forças e qualquer noção de ânimo para poder meter a mão, rasgar, acabar com tudo e ir em frente. Quando as coisas não têm mais sentido, insistir é só sofrer, não tem mais porquê. Juntar tudo nesta hora e apinchar fora é o mais aconselhável. Recomeçar com a carcaça quase morta também é possível, mas não é aconselhável/recomendável, melhor é ficar sozinho e parar de costurar ideias que nunca deram certo. Ou não. Quem sabe ? Remexer em coisas antigas, cheias de poeira, só atrai mais sujeira. A limpeza já é difícil, pois a memória cansada mais atrapalha do que ajuda. O rosto, o corpo, já cheios de marcas ou rugas também são um impedimento, pois ninguém mais quer saber de xarque cheio de sal que tem que bater e deixar de molho longo, de um dia para o outro. Todo mundo quer na hora. Ninguém mais quer esperar por nada. Não têm mais tempo.

Sempre está em cima da hora. Queimado. Ninguém mais pensa em ninguém só em si mesmo. Todos se fecharam dentro de si. Ninguém mais se abre. Homem já é mulher, mulher já é homem, tudo branco, ninguém quer ser ou ver negro por perto, que logo puxa o gatilho e quer matar. Para que serve então viver, se a luz já está se apagando e todo mundo indo embora, a fugir, cada um para a sua solidão e o seu silêncio, pois qualquer coisa que se fale pode ser perigosa para seguir na luta, que também já nem serve mais para nada, pois cada um se trancou e até tem os que rezam sem parar só param para comer e continuar se benzendo desesperado, pois sabe que não há mais o que encontrar além de feridas abertas que nunca se fecham. Se o que fiz incomoda alguém que se lixe e saia de perto, se mande, suma, desapareça antes que meus raios atinjam sua memória e a aniquile para sempre. Escape enquanto é tempo, pois o temporal que vem por cima e por baixo não vai perdoar ninguém e nem terá vacina ou vagina que cure. Num crescente sem parar a ira é quem vai dominar e o homem não terá mais nada a fazer a não ser destruir tudo para tentar se salvar. Sozinho. Como sempre pensou em estar. Mas será coberto por fogo ou água, sufocado, sem mais força para pedir socorro, pois também não terá ninguém, uma só alma acesa por perto, para vir e salvar. Se eu ainda pudesse tomar um trago fundo de cachaça para aliviar, depois de dar um pingo no canto para o santo, cuspir em cima e sair a caminhar na chuva, mas nem isto mais posso nesta fuga louca para dentro de cada um. Sou um velho que já não suporta outros velhos falando como se soubessem tudo, quando não sabem é absolutamente nada.


OBS: Este texto é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência.

(*) Antonio Manoel de Oliveira foi presidente do Sindicato dos Jornalistas/RS e Conselheiro da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ).

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