ATUAÇÃO DE TÂNIA MARIA ABRE DIÁLOGO SOBRE ETARISMO NO CINEMA E DÁ LUZ AO ENREDO DE ‘O ÚLTIMO AZUL’, POR SARA LEITE*
- Alexandre Costa

- 16 de mar.
- 2 min de leitura

A atriz de 79 anos que conquistou os corações brasileiros é Tânia Maria, intérprete de Dona Sebastiana em O Agente Secreto. Na tela, ela representa tantas outras Marias que são vítimas de um velho preconceito: a ideia de incapacidade associada às pessoas idosas. O longa brasileiro O Último Azul era uma aposta para o Oscar 2026 e, apesar de não ter sido indicado, a trajetória de Tânia atravessa e ilumina esse mesmo enredo.
É fácil encontrar um fio condutor entre ela e a personagem Tereza, interpretada por Denise Weinberg. No filme, Tereza é uma mulher de 77 anos que trabalhava como faxineira e levava uma vida simples e tranquila, até precisar se reinventar para não perder a própria autonomia. Tânia, por sua vez, é nordestina, costureira, matriarca e artesã. Agora, também é atriz de cinema.
O movimento subversivo dessas duas mulheres está em dizer não ao estigma. O que, no filme, é a colônia de idosos, um lugar de regras e limitações imposto a Tereza, na vida de Tânia poderia ter sido o “não” ao convite do diretor Kleber Mendonça Filho para atuar como figurante em Bacurau, em 2019. A resposta, porém, foi um “sim”, e desde então uma nova carreira começou.
Após a figuração, ela ganhou uma personagem escrita especialmente para si. Tânia conta que a pouca intimidade com o audiovisual não limitou sua curiosidade e afirma “nunca ter ido a uma sala de cinema nem assistido a um filme completo”. “Nunca imaginei ser atriz. Nunca. Eu só pensava em costura”, disse.
Arriscar tudo em um jogo de azar está para Tereza assim como o improviso de Tânia está para sua cena em Bacurau. “Que roupa é essa, menino!” foi sua curta e enérgica fala, suficiente para chamar a atenção da produtora de elenco Renata Roberta, que afirmou: “É da senhora que eu estava precisando, da sua voz!”. Bingo, ganhou a aposta.
Agora, integra o elenco de um filme indicado ao Oscar justamente no ano em que a Academia cria a categoria de Melhor Direção de Casting. Histórias como a dela ainda são raras no cinema. Os papéis costumam ter espaço reservado à juventude e, sobretudo no caso das mulheres, o envelhecimento muitas vezes significa ser descartada pela indústria.
A atriz chegou a parar de fumar para dar conta das horas de voo exigidas pelos trabalhos no audiovisual. Essa e tantas outras mudanças talvez não tivessem acontecido se ela aceitasse o estigma de que “velho não tem futuro”, frase dita em O Último Azul. Comprar a própria liberdade antes de ser presa, usar um caracol misterioso e fugir sem rumo é a ficção vivida por Tereza. Carregar toda essa simbologia é a realidade de Tânia Maria. publicado originalmente por: https://midianinja.org/opiniao/atuacao-de-tania-maria-abre-dialogo-sobre-etarismo-no-cinema-e-da-luz-ao-enredo-de-o-ultimo-azul/
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