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FIOCRUZ HOMENAGEIA CIENTISTAS CASSADOS PELA DITADURA E REABRE FERIDA DO “MASSACRE DE MANGUINHOS”

por ALEXANDRE COSTA | JORNALISTA Nas mesmas escadarias onde pesquisadores perseguidos pelo regime militar foram reintegrados há 40 anos, instituição concede títulos póstumos e transforma homenagem em ato de memória, verdade e reparação.


Quarenta anos separam duas cerimônias realizadas nas escadarias do Castelo de Manguinhos, no Rio de Janeiro. Em 1986, cientistas afastados da instituição pela ditadura militar retornaram oficialmente à Fundação Oswaldo Cruz. Em 5 de agosto de 2026, o mesmo cenário recebeu familiares, pesquisadores e representantes da comunidade científica para um novo capítulo daquela história: a concessão póstuma do título de pesquisador emérito aos cientistas atingidos pelo episódio conhecido como Massacre de Manguinhos.[1]

Mais do que uma homenagem institucional, a cerimônia recolocou uma pergunta que atravessa mais de meio século da história científica brasileira: o que um país perde quando o Estado decide perseguir seus próprios cientistas?

No caso de Manguinhos, parte da resposta pode ser medida. Em 1º de abril de 1970, com base no Ato Institucional nº 5, oito pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz tiveram seus direitos políticos cassados pela ditadura militar. Em 6 de abril, o decreto que determinou a aposentadoria compulsória dos cientistas acrescentou outros dois nomes, elevando para dez o número de pesquisadores atingidos.[2]

Eles representavam 14% de todo o quadro de pesquisadores do IOC, que contava então com 70 profissionais. Não eram cientistas em início de carreira: acumulavam mais de duas ou três décadas de atuação, tinham intensa produção científica e lideravam grupos de pesquisa, laboratórios, seções e divisões.[2]

As consequências não se limitaram às carreiras interrompidas. A documentação histórica do próprio Instituto Oswaldo Cruz registra desaparecimento de arquivos, documentos e dados científicos, desmonte de laboratórios e coleções biológicas e perda de recursos. Linhas de pesquisa foram extintas e a formação de novos pesquisadores também foi atingida.[2]

Foi esse processo de desestruturação que Herman Lent, um dos cientistas cassados, denominou posteriormente “Massacre de Manguinhos”, expressão que deu título ao livro publicado por ele em 1978.[2]

DEZ CIENTISTAS RETIRADOS DA CIÊNCIA BRASILEIRA

Foram atingidos Augusto Cid de Mello Perissé, Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, Haity Moussatché, Fernando Braga Ubatuba, Moacyr Vaz de Andrade, Hugo de Souza Lopes, Masao Goto, Sebastião José de Oliveira, Domingos Arthur Machado Filho e Herman Lent.[2]

Os nomes ajudam a dimensionar o que a repressão significou para a produção científica brasileira.

Haity Moussatché havia chefiado a Seção de Fisiologia e desenvolvia pesquisas sobre reações anafiláticas, componentes de venenos de cobras e produtos naturais. Após a perseguição, viveu cerca de 15 anos fora do Brasil antes de retornar da Venezuela na década de 1980.[2][3]

Herman Lent chefiava a Divisão de Zoologia e era reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre insetos triatomíneos, os barbeiros transmissores da doença de Chagas.[2]

Hugo de Souza Lopes liderava um dos poucos grupos brasileiros dedicados ao estudo de moscas sarcofagídeas. Sebastião José de Oliveira, primeiro pesquisador negro do Instituto Oswaldo Cruz, também era um entomologista de destaque e se tornou pioneiro nos estudos de Chironomidae.[2]

Não se tratava, portanto, apenas de retirar dez pessoas de seus locais de trabalho. Ao afastar pesquisadores que comandavam equipes e acumulavam décadas de conhecimento, a repressão atingiu estruturas inteiras de produção e transmissão científica.

QUANDO O ESTADO PASSOU A TRATAR O PENSAMENTO CIENTÍFICO COMO AMEAÇA

O Massacre de Manguinhos não ocorreu isoladamente. As cassações aconteceram em um contexto mais amplo de ataques da ditadura militar à ciência brasileira, com prisões, exílios e desestruturação de universidades e instituições científicas.[2] No Instituto Oswaldo Cruz, o impacto foi particularmente profundo porque atingiu simultaneamente pesquisadores experientes, grupos consolidados e estruturas de pesquisa.

A ciência brasileira perdeu profissionais, mas perdeu também continuidade. Quando um laboratório é desmontado ou uma linha de investigação é interrompida, não desaparece apenas aquilo que já havia sido produzido. Perdem-se pesquisas futuras, formação de estudantes, conhecimento acumulado, redes científicas e oportunidades que dificilmente podem ser reconstruídas posteriormente.

Essa dimensão ajuda a explicar por que a expressão “Massacre de Manguinhos” permaneceu na memória científica brasileira. Não houve massacre no sentido de assassinato físico dos pesquisadores. O termo, cunhado por Herman Lent, passou a representar a dimensão da destruição institucional provocada pelas cassações e pela repressão sobre aquela comunidade científica.[2]

1986: A VOLTA ÀS ESCADARIAS DE MANGUINHOS

A ditadura terminou, mas a reparação demorou. O retorno dos cassados aos quadros do IOC/Fiocruz ocorreu somente em 1986, cinco anos depois da Lei da Anistia. Dos dez pesquisadores perseguidos, Herman Lent optou por não retornar ao Instituto e permaneceu na Universidade Santa Úrsula, que o havia acolhido.[2]

A cerimônia de reintegração foi realizada em 15 de agosto daquele ano, durante a gestão do sanitarista Sergio Arouca na presidência da Fiocruz, e ocorreu nas escadarias do Castelo de Manguinhos.[2]

Quatro décadas depois, o mesmo lugar voltou a reunir cientistas e familiares. A escolha do espaço carregava, portanto, significado que ultrapassava a solenidade. Era o cenário onde a instituição havia reconhecido, durante o processo de redemocratização do país, que aqueles pesquisadores jamais deveriam ter sido expulsos de suas atividades científicas.

Em 2026, a Fiocruz retornou às mesmas escadarias para acrescentar outro capítulo à reparação.

UMA REPARAÇÃO QUE CONTINUA INCOMPLETA

A concessão dos títulos foi aprovada pelo Conselho Deliberativo da Fiocruz em maio e realizada em 5 de agosto, Dia Nacional da Saúde e data de nascimento de Oswaldo Cruz.[1]

Nove integrantes do grupo de cientistas cassados receberam postumamente o título de pesquisador emérito.

Herman Lent, o décimo pesquisador atingido em 1970, já era pesquisador emérito da Fiocruz desde 2004 e, por isso, recebeu uma entrega simbólica durante a cerimônia. Walter Oswaldo Cruz, filho do patrono da Fundação e um dos membros fundadores da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, também recebeu homenagem simbólica.[1]

A distinção esclarece uma aparente contradição na contagem dos homenageados: dez pesquisadores foram atingidos pelas cassações de 1970; nove receberam agora a outorga póstuma; Herman Lent, o décimo, já possuía o título de pesquisador emérito. Walter Oswaldo Cruz foi homenageado na cerimônia, mas não integra a relação dos dez cassados no Massacre de Manguinhos.[1][2]


A Fiocruz apresentou a cerimônia como um “manifesto pela liberdade”, estabelecendo uma ponte entre 1986 e 2026 sob a premissa de que “ciência se faz com democracia”.[1]

Durante o ato, o historiador Gilberto Hochman, da Casa de Oswaldo Cruz, definiu a homenagem como um ato de memória, verdade e justiça e chamou atenção para um aspecto fundamental: trata-se de uma reparação tardia e ainda incompleta.[1]

A afirmação ajuda a compreender o significado da cerimônia. Reintegrar os cientistas em 1986 corrigiu institucionalmente parte da violência praticada pelo Estado. Reconhecer suas trajetórias quatro décadas depois acrescenta outra dimensão à reparação. Nenhuma dessas medidas, entretanto, pode devolver os anos de pesquisa interrompidos, reconstruir integralmente as estruturas científicas desfeitas ou recuperar todas as oportunidades perdidas depois das cassações.

FAMILIARES HERDARAM TAMBÉM A MEMÓRIA DA PERSEGUIÇÃO

A cerimônia mostrou que os efeitos da repressão ultrapassaram os próprios pesquisadores.

Masao Goto Filho contou que o pai evitava falar em casa sobre o período de perseguição como forma de proteger os filhos. Décadas depois, afirmou, as homenagens e a preservação da memória da Fiocruz permitiram que conhecesse outras dimensões da trajetória paterna.[1]

Márcia Adler, neta de Haity Moussatché, havia presenciado a cerimônia de reintegração em 1986. Quarenta anos depois, retornou ao mesmo lugar para representar o avô na entrega do título.[1]

Paulo Silva representou Sebastião José de Oliveira e ressaltou a importância de preservar a história do pai e dos demais pesquisadores. Roberto Lent, filho de Herman Lent, afirmou esperar que a homenagem também inspire novas gerações de cientistas.[1]

São relatos que revelam outra consequência da violência política: além das instituições e das carreiras, ela produz silêncios familiares capazes de atravessar décadas.

“PARA QUE NÃO SE REPITA”

Ao falar durante a solenidade, o presidente da Fiocruz, Mario Moreira, lembrou que houve um período em que governantes passaram a considerar a ciência livre e soberana uma ameaça. Segundo ele, recordar aquele episódio continua sendo necessário 56 anos depois das cassações, justamente para impedir sua repetição.[1]

O significado da homenagem pode ser percebido na distância entre três datas.

1970: a cassação.

1986: a reintegração.

2026: uma nova etapa da reparação.

Nas três, o que está em discussão não é apenas a trajetória de dez cientistas. É a relação entre conhecimento e poder. A história do Massacre de Manguinhos demonstra que a repressão política à ciência produz consequências que não desaparecem quando os pesquisadores recuperam seus direitos. Laboratórios podem ser reconstruídos. Direitos podem ser restabelecidos. Títulos podem ser concedidos.

O tempo científico perdido, entretanto, não pode ser devolvido. Por isso, a cerimônia realizada nas escadarias do Castelo de Manguinhos ultrapassa o caráter de homenagem. Ao reconhecer aqueles que o Estado brasileiro tentou retirar da ciência há 56 anos, a Fiocruz transforma memória em advertência.

Ciência depende de liberdade para investigar, questionar e produzir conhecimento. Quando o pensamento livre passa a ser tratado como ameaça pelo poder, não são apenas os cientistas perseguidos que perdem. Perde o país.

FONTES PARA CHECAGEM

[1] FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ) — Cerimônia de outorga dos títulos póstumos, 5 de agosto de 2026. O que comprova: realização da homenagem nas escadarias do Castelo; aprovação da honraria pelo Conselho Deliberativo; relação dos homenageados; situação específica de Herman Lent; homenagem a Walter Oswaldo Cruz; presença e depoimentos dos familiares; declarações de Mario Moreira e Gilberto Hochman; conceito da cerimônia como “manifesto pela liberdade”; relação entre os atos de 1986 e 2026. Link direto: Agência Fiocruz — No Dia Nacional da Saúde, Fiocruz concede título póstumo a pesquisadores cassados. https://agencia.fiocruz.br/no-dia-nacional-da-saude-fiocruz-concede-titulo-postumo-pesquisadores-cassados

[2] INSTITUTO OSWALDO CRUZ (IOC/FIOCRUZ) — História do Massacre de Manguinhos.O que comprova: cassação de oito pesquisadores em 1º de abril de 1970; inclusão de mais dois no decreto de 6 de abril; relação dos dez atingidos; perda de 14% do quadro de pesquisadores; experiência e liderança científica dos cassados; desaparecimento de arquivos, documentos e dados; desmonte de laboratórios e coleções; interrupção de pesquisas e formação científica; origem da expressão “Massacre de Manguinhos”; livro de Herman Lent de 1978; áreas de pesquisa dos cientistas; reintegração em 1986 e decisão de Herman Lent de permanecer na Universidade Santa Úrsula. Link direto: Instituto Oswaldo Cruz — Quando a ditadura militar distanciou cientistas de sua vocação. https://www.ioc.fiocruz.br/noticias/quando-ditadura-militar-distanciou-cientistas-de-sua-vocacao

Fonte complementar de confirmação [2]: Instituto Oswaldo Cruz — 1950 a 1975: erradicação da varíola, “massacre de Manguinhos” e criação da Fiocruz. Confirma os dez cassados, os 14% do quadro, a liderança dos pesquisadores e as consequências sobre linhas de pesquisa, formação e coleções biológicas. https://www.ioc.fiocruz.br/noticias/1950-1975-erradicacao-da-variola-massacre-de-manguinhos-e-criacao-da-fiocruz

[3] CASA DE OSWALDO CRUZ (COC/FIOCRUZ) — Acervo histórico sobre Haity Moussatché. O que comprova: documentação da trajetória de Moussatché antes e depois do Massacre de Manguinhos e seu retorno da Venezuela na década de 1980, após aproximadamente 15 anos de exílio. Link direto: Base Arch — Casa de Oswaldo Cruz, dossiê referente à trajetória de Haity Moussatché. https://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/informationobject/browse?collection=5101&genres=400241&languages=pt_BR&levels=628309&names=2198&places=&sort=startDate&sortDir=desc&subjects=37499&topLod=0&view=table 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA

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