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CAPITULO 1 - QUANDO UMA MULHER É TRANSFORMADA EM ALVO, TODAS RECEBEM O RECADO

POR ALEXANDRE COSTA | JORNALISTA



Há um aspecto que costuma escapar das coberturas jornalísticas centradas apenas no fato do dia. Quando uma mulher que exerce mandato, disputa eleições ou ocupa espaço de liderança passa a ser alvo de campanhas de intimidação, o impacto raramente se restringe à sua experiência individual.


A violência produz um efeito coletivo. Ela comunica às demais mulheres que ingressar na política pode significar enfrentar um ambiente marcado por humilhações públicas, ataques à aparência física, à maternidade, à vida privada, à sexualidade e até mesmo à segurança de seus familiares.


Esse diagnóstico aparece repetidamente nas entrevistas realizadas pela revista Cult com mulheres de diferentes trajetórias políticas e institucionais. Ex-prefeita de São Paulo e uma das pioneiras da participação feminina em cargos majoritários, Luiza Erundina recorda que, ainda na década de 1980, frequentemente ouvia perguntas como: "Quem é o homem que governa por você?" A frase sintetizava uma cultura política incapaz de reconhecer plenamente a autoridade exercida por uma mulher.


Décadas depois, apesar da eleição da primeira presidenta da República, da criação das cotas de candidaturas femininas e do avanço da legislação, os números mostram que a desigualdade permanece. Hoje, as mulheres ocupam aproximadamente 18% das cadeiras da Câmara dos Deputados, representam cerca de 19,7% do Senado Federal, administram pouco mais de 13% das prefeituras brasileiras e comandam apenas dois governos estaduais.



Para a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, esse cenário não decorre de falta de interesse feminino pela política. "O ambiente de ódio expõe a vida da mulher de tal forma que é preciso uma força emocional muito grande", afirma.


A deputada federal Sâmia Bomfim relata conviver há mais de uma década com ataques misóginos permanentes. A codeputada estadual Carolina Iara descreve a política como um "território hostil" e lembra que, em 2025, todas as deputadas da Assembleia Legislativa de São Paulo receberam ameaças de morte e de estupro.


Já a pesquisadora Ana Claudia Oliveira, coordenadora-geral de pesquisas do Observatório Nacional da Mulher na Política, afirma que existe um gargalo entre a denúncia e a responsabilização dos agressores, dificultando a efetividade da legislação criada para combater esse tipo de violência.


Esses depoimentos ajudam a compreender por que o episódio envolvendo Manuela D'Ávila provocou reação muito além das fronteiras do Rio Grande do Sul.  Para inúmeras mulheres, o adesivo exibido por Zucco não representa apenas uma provocação eleitoral. Remete a  uma experiência compartilhada.


À percepção de que, quando uma mulher é simbolicamente transformada em alvo, todas passam a perceber que também podem ocupar esse lugar.

UMA HISTÓRIA QUE NÃO COMEÇOU COM MANUELA

Seria um erro histórico imaginar que a violência política contra mulheres nasceu com o bolsonarismo. É muito anterior. O machismo sempre esteve presente nas estruturas partidárias, nas disputas eleitorais e nos espaços institucionais brasileiros.


A própria Luiza Erundina afirma que, mesmo nos partidos considerados progressistas, a igualdade entre homens e mulheres ainda está longe de ser alcançada. A pesquisadora Ana Claudia Oliveira reforça que mulheres da esquerda, da direita e do centro relatam dificuldades semelhantes relacionadas ao acesso a recursos partidários, ao protagonismo nas decisões internas e à violência intrapartidária.


Entretanto, reconhecer que o problema é estrutural não significa ignorar as mudanças ocorridas na última década. Há momentos históricos que aceleram processos e acontecimentos que alteram os limites do aceitável. A partir de 2014, a hostilidade contra as mulheres ficou ainda mais evidente. LEIA O CAPÍTULO 2 - UMA DÉCADA QUE MUDOU A POLÍTICA BRASILEIRA 📲 curta, compartilhe e contribua

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