CAPÍTULO 2 - UMA DÉCADA QUE MUDOU A POLÍTICA BRASILEIRA
- Alexandre Costa

- 29 de jul.
- 4 min de leitura
POR ALEXANDRE COSTA | JORNALISTA

Há datas que permanecem registradas nos livros de História. Outras permanecem gravadas na memória coletiva porque alteram a forma como uma sociedade passa a compreender o que considera aceitável.
Ao reconstruir os principais episódios da violência política contra mulheres no Brasil, esta reportagem identifica uma sequência de acontecimentos que, somados, ajudam a explicar por que um adesivo utilizado durante uma campanha eleitoral foi interpretado por tantas pessoas como algo muito maior do que uma simples provocação.
Nenhum desses episódios, isoladamente, explicam o ambiente político atual. Porém, a sequência e o conjunto dos fatos nos mostram a dimensão da violência de gênero na política brasileira.
2014 — "EU NÃO A ESTUPRO PORQUE VOCÊ NÃO MERECE"
Em 9 de dezembro de 2014, durante uma discussão na Câmara dos Deputados, Jair Bolsonaro dirigiu-se à deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) afirmando:
"Eu não a estupro porque você não merece."
A frase provocou imediata repercussão nacional e internacional.
Mais do que uma ofensa pessoal, ela utilizava a violência sexual como instrumento de humilhação política.
O episódio resultou em ações judiciais que culminaram na condenação de Bolsonaro ao pagamento de indenização por danos morais, entre outros desdobramentos determinados pelo Judiciário. Naquele momento, entretanto, o episódio ainda era frequentemente tratado como um excesso verbal de um parlamentar conhecido por declarações polêmicas.
Poucos imaginavam que, anos depois, aquele discurso ocuparia o centro da política nacional.
2015 E 2016 — QUANDO O CORPO DA PRESIDENTA PASSOU A SER O CAMPO DE BATALHA
O processo que culminaria no impeachment da presidenta Dilma Rousseff aprofundou outro fenômeno. As críticas dirigidas ao governo passaram, em inúmeros momentos, a concentrar-se no corpo da primeira mulher eleita para a Presidência da República.
Durante manifestações de rua, multiplicaram-se adesivos vendidos para serem colocados nas tampas dos tanques de combustível dos automóveis.
Neles, Dilma aparecia representada de forma sexualizada e degradante. A divergência política deixava de ser dirigida às decisões do governo e passava a atingir o corpo da mulher.
Pesquisadoras que estudam violência política de gênero identificam esse período como um dos marcos da naturalização da misoginia no debate público brasileiro.
17 DE ABRIL DE 2016 — O DIA EM QUE O DISCURSO MUDOU DE LUGAR
A sessão da Câmara dos Deputados que autorizou a abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff tornou-se um dos momentos mais simbólicos da história política recente.
Ao declarar seu voto, Jair Bolsonaro prestou homenagem ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.
"Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff..."
Ustra comandou o DOI-Codi de São Paulo durante a ditadura militar e foi reconhecido pela Justiça brasileira como responsável por práticas de tortura. A homenagem, transmitida ao vivo para milhões de brasileiros, marcou uma ruptura importante.
Pela primeira vez desde a redemocratização, um parlamentar transformava um reconhecido torturador em referência política durante uma das votações mais importantes do Congresso Nacional.
Diversos cientistas políticos apontam aquela sessão como um momento de inflexão.
Discursos antes restritos às margens da política passavam a ocupar seu centro.
2018 — MARIELLE FRANCO E A PERCEPÇÃO DE QUE O RISCO ERA REAL
Na noite de 14 de março de 2018, a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) foi assassinada no centro do Rio de Janeiro. Mulher, negra. Bissexual, oriunda da periferi e defensora dos direitos humanos.
Seu assassinato provocou comoção internacional.
Embora as investigações sobre o crime possuam dinâmica própria, seu impacto sobre o debate da violência política foi imediato.
Na avaliação da codeputada estadual Carolina Iara, na entrevista citada anteriormente, na revista Cult, o assassinato representou uma mudança profunda na percepção das mulheres que atuam na política.
"A morte da Marielle Franco foi uma porteira que se abriu e que deu liberdade para esses grupos agirem de forma mais intensa."
A frase resume uma percepção compartilhada por diversas parlamentares.
O problema já existia, mas deixava de parecer excepcional, passando a partir de então a integrar o cotidiano da política brasileira.
Foi também nesse contexto que se fortaleceram movimentos em defesa da criação de instrumentos legais específicos para enfrentar a violência política de gênero.
MANUELA D'ÁVILA: QUANDO O ÓDIO DEIXA DE SER EPISÓDICO
Enquanto esses acontecimentos se sucediam, outra liderança política passava a viver uma experiência permanente de violência. Ao longo dos últimos anos, Manuela D'Ávila tornou-se uma das mulheres mais atacadas da política brasileira.
Não por um único episódio, mas pela repetição. Vieram campanhas de desinformação, montagens, ataques misóginos, insultos, ameaças, tentativas de destruir sua reputação, entre outros. Em diversos momentos, a violência ultrapassou sua própria figura pública.
Criminosos divulgaram informações relacionadas à sua filha ainda criança, numa tentativa explícita de produzir sofrimento psicológico e intimidá-la politicamente. Não se tratava mais de divergência eleitoral e sim uma estratégia para atingir uma mulher por meio daquilo que lhe era mais íntimo: sua família.
Esse aspecto diferencia a violência política de gênero de muitas outras formas de confronto político. Ela procura elevar o custo da participação feminina. Não apenas para quem está na política, mas também para todas aquelas que cogitam ingressar nela. É exatamente esse mecanismo que pesquisadoras do Observatório Nacional da Mulher na Política identificam ao analisar os efeitos da violência política.
Quando uma mulher é exposta, ameaçada ou humilhada publicamente, outras passam a perguntar se vale a pena disputar eleições. É uma violência que produz efeitos individuais e coletivos ao mesmo tempo.
QUANDO O ÓDIO CHEGA À FAMÍLIA
Existe uma fronteira e nenhuma democracia deveria aceitar que fosse ultrapassada.
Ela é cruzada quando filhos, companheiros, pais ou familiares passam a ser utilizados como instrumentos de intimidação política.
Ao relatar que precisou explicar à filha o significado do adesivo exibido por Luciano Zucco, Manuela D'Ávila não descrevia apenas um constrangimento pessoal. Ela revelava uma consequência frequentemente invisível da violência política.
Cada ameaça, campanha de ódio, tentativa de transformar uma mulher em inimiga pública, também repercute sobre aqueles que convivem com ela. Ou seja, a violência deixa de atingir apenas uma candidatura e alcança a vida privada. Neste momento, famílias inteiras se transformam em vítimas indiretas da radicalização política. CONTINUA COM O CAPÍTULO 3 - 📲 curta, compartilhe e contribua
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