BIG TECHS, ALGORITMOS E O FOGO AMIGO: QUANDO A TECNOLOGIA SE SOBREPÕE À IDEOLOGIA
- Alexandre Costa

- há 12 horas
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Atualizado: há 7 horas

POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINADEMOCRATICA.COM.BR A ascensão das grandes plataformas digitais redesenhou o espaço público global. No Brasil e no mundo, o debate político deixou de ser organizado prioritariamente por ideologias e passou a ser mediado por regras invisíveis — algoritmos, métricas de engajamento e arquiteturas de visibilidade controladas por empresas privadas. Nesse novo cenário, não são apenas as Big Techs que concentram poder: suas lógicas passaram a ser reproduzidas, inclusive, por setores que historicamente se colocaram como críticos desse sistema.
Estamos diante de um fenômeno silencioso e crescente — o “fogo amigo” produzido por um saber técnico superficial que reforça, em vez de confrontar, a estrutura que organiza o debate público contemporâneo.
Nos últimos anos, reportagens de veículos como Agência Pública, Brasil de Fato e análises internacionais de Reuters e The Washington Post vêm mostrando como plataformas como Meta e Google operam diretamente na definição do que ganha visibilidade.
Documentos internos e investigações jornalísticas indicam que sistemas algorítmicos priorizam conteúdos que geram maior engajamento — frequentemente os mais polarizadores, emocionais ou simplificados.
Nesse ambiente, a lógica é clara: alcance substitui densidade, visibilidade supera complexidade e o debate público se reorganiza em torno da performance.
O problema se aprofunda quando essa lógica deixa de ser apenas externa e passa a ser incorporada internamente.
SEDUZIDO PELAS MÉTRICAS
Ao disputar espaço nas redes, parte da esquerda passou a operar dentro das mesmas regras impostas pelas plataformas. Surge então uma nova figura política: o “especialista em redes”, o estrategista digital, o gestor de engajamento.
Muitos desses profissionais que estão nas estruturas dos partidos, em gabinetes de parlamentares, em sindicatos, ONGs, entre outros, acabam sendo peça fundamental para o sistema.
O novo campo de atuação frequentemente se baseia em um conhecimento instrumental — focado em métricas, formatos e alcance — sem uma crítica estrutural ao funcionamento das próprias plataformas.
Não é raro observar lideranças políticas seduzidas pelas curtidas, visualizações e engajamentos que movimentam as redes sociais. O debate acaba reduzindo a comunicação a uma esfera performática, tal qual a lógica que move as redes e suas bolhas.
Jornalistas e ativistas de esquerda, frequentemente posicionados como especialistas em tecnologia, reproduzem as narrativas do sistema. Sem autocrítica, os novos "gurus" influenciam as corporações e se tornam legitimadores de mecanismos que priorizam lucro, dados e engajamento — e não o debate plural, a transparência e a democracia.
CENSURA SELETIVA
As plataformas enfrentam acusações recorrentes de censura coordenada com governos e parte da grande mídia.
Em audiência do Comitê de Supervisão da Câmara dos EUA, em 2023, parlamentares apontaram ações de big techs contra determinadas visões conservadoras, revelando uma atuação articulada na filtragem do debate público.[1]
A Electronic Frontier Foundation (EFF) alerta que esse modelo de moderação deve preocupar tanto a esquerda quanto a direita, pois cria precedentes perigosos para a liberdade de expressão, ao permitir que empresas privadas atuem como árbitras do que pode ou não circular online.[2]
Estudos acadêmicos reforçam esse alerta. Pesquisa da Universidade de Michigan, publicada em 2024, mostra que o viés na moderação de conteúdo alimenta câmaras de eco e reforça polarizações, independentemente da orientação política dos usuários.[6]
Na Meta, mudanças anunciadas em 2025 reduziram a fiscalização de conteúdo em nome da “liberdade de expressão”. A decisão gerou críticas por sua inconsistência e pelo risco de ampliar a circulação de desinformação, mostrando que o pêndulo pode oscilar entre censura e permissividade sem qualquer controle democrático robusto.[3]
A ESQUERDA E A FALTA DE AUTOCRÍTICA
A revista Jacobin sustenta que a esquerda deve se opor à censura das big techs mesmo quando, em um primeiro momento, ela parece favorecer causas progressistas. Aceitar esse tipo de controle, argumenta a publicação, é fortalecer o monopólio corporativo sobre a esfera pública e abrir mão de uma defesa consistente da liberdade de expressão.[7]
No The Guardian, análises recentes apontam para a perda de audácia tecnológica da esquerda, que teria abandonado a construção de alternativas e inovações próprias para se limitar, quase exclusivamente, ao debate sobre regulação das plataformas. Em vez de disputar arquitetura e infraestrutura, passa a negociar limites dentro do terreno controlado pelas big techs.[5]
Estudos do Brookings Institution reforçam esse quadro ao argumentar que tentar regular diretamente a “liberdade de expressão” nas redes é, ao mesmo tempo, perigoso e ineficaz.
A discussão, quando focada apenas no que pode ou não ser dito, desvia a atenção do problema central: o poder de mercado, a concentração e o controle estrutural que essas empresas exercem sobre o espaço público digital.[4]
CAMINHOS: REGULAÇÃO SOBERANA E EDUCAÇÃO DIGITAL CRÍTICA
Se o poder das big techs paira acima da ideologia, a resposta não pode ser nem a entrega voluntária ao arbítrio das plataformas, nem uma regulação simplista que apenas muda o idioma da censura.
As evidências reunidas por comitês parlamentares, organizações de direitos digitais e centros de pesquisa apontam para duas frentes complementares:
Regulação soberana, que enfrente a concentração econômica e o poder de mercado das empresas, em vez de delegar a elas o papel de juízas da verdade.[1][2][3][4]
Educação digital crítica, que permita à sociedade compreender como funcionam os algoritmos, as dinâmicas de moderação e os interesses envolvidos, fortalecendo a autonomia dos cidadãos frente ao poder das plataformas.[2][6][7]
Enquanto o tema é de domínio de poucos, a esquerda segue os "gurus" das redes. É preciso dizer que a busca indiscriminada por visualizações faz parte da lógica das falsas métricas. Esse caminho acaba contribuindo para a desestruturação do próprio campo democrático.
Ou seja: a ideologia deixou de ser o eixo estruturante. Esse papel, agora, é realizado pelos algoritmos.
FONTES
[1] House Committee on Oversight – “The Cover Up: Big Tech, the Swamp, and Mainstream Media Coordinated to Censor Americans’ Free Speech” – 02/10/2023 Link: https://oversight.house.gov/release/the-cover-up-big-tech-the-swamp-and-mainstream-media-coordinated-to-censor-americans-free-speech-%EF%BF%BC/
[2] EFF – “Right or Left, You Should Be Worried About Big Tech Censorship” – 16/07/2021 Link: https://www.eff.org/deeplinks/2021/07/right-or-left-you-should-be-worried-about-big-tech-censorship
[3] Alliance Magazine – “Big Tech's shift away from content moderation changes everything” – 27/02/2025 Link: https://www.alliancemagazine.org/blog/big-techs-shift-away-from-content-moderation-changes-everything/
[4] Brookings – “Regulating free speech on social media is dangerous and futile” – 27/06/2023 Link: https://www.brookings.edu/articles/regulating-free-speech-on-social-media-is-dangerous-and-futile/
[5] The Guardian – “Where has the left’s technological audacity gone?” – 11/03/2025 Link: https://www.theguardian.com/commentisfree/ng-interactive/2025/mar/11/democrats-liberal-technology-innovation
[6] U-M News – “U-M study explores how political bias in content moderation on social media feeds echo chambers” – 28/10/2024 Link: https://news.umich.edu/u-m-study-explores-how-political-bias-in-content-moderation-on-social-media-feeds-echo-chambers/
[7] Jacobin – “The Left Should Oppose Censorship by Big Tech Companies” – 28/01/2021 Link: https://jacobin.com/2021/01/censorship-big-tech-facebook-twitter
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