A HISTÓRIA DAS PRIVATIZAÇÕES E O RISCO DE REPETIR O MESMO ERRO COM A TRENSURB (PARTE I)
- Alexandre Costa

- há 5 horas
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Por quatro décadas, o Brasil tem sido palco de um dos maiores e mais controversos experimentos de desestatização do mundo. Desde o início tímido dos anos 1980 até o radicalismo privatista consolidado entre 1995 e 2002, passando pelas concessões reguladas nos governos Lula e Dilma e retomando força no ultraliberalismo de Temer e Bolsonaro, a entrega de empresas públicas ao setor privado moldou profundamente a economia, o Estado e a vida cotidiana da população brasileira.
Hoje, no centro da polêmica, está a Trensurb — uma empresa pública com mais de 40 anos de funcionamento contínuo e considerada um dos equipamentos de mobilidade mais importantes do Rio Grande do Sul. A simples manutenção da empresa no Plano Nacional de Desestatizações reacendeu o alerta entre metroviários, usuários, especialistas em transporte e defensores do serviço público.
E a preocupação não é retórica. O Brasil já assistiu ao mesmo filme, inúmeras vezes, em diferentes setores — e sabe como termina: tarifas mais altas, serviços piores, abandono de regiões menos lucrativas, demissões, terceirização em massa e perda completa de soberania sobre setores estratégicos.
Esta matéria reconstrói a história das privatizações no Brasil, expõe suas contradições e mostra por que a ameaça à Trensurb é mais do que um risco local: é a repetição de um erro nacional que tem custado bilhões aos cofres públicos e direitos essenciais ao povo.
1. O nascedouro das privatizações: década de 1980 e a imposição internacional
As privatizações no Brasil não surgiram de debate público, consulta popular ou planejamento interno. Elas nasceram em meio ao colapso econômico da década de 1980, marcada por:
• inflação que ultrapassava 200% ao ano;
• dívida externa impagável;
• recessão prolongada;
• forte pressão de organismos multilaterais como FMI e Banco Mundial.
A fórmula sugerida — e imposta politicamente — era a mesma aplicada a outros países da América Latina: reduzir o Estado, vender empresas, abrir mercados e atrair capital estrangeiro.
Era a cartilha pura do Consenso de Washington.
A promessa era tentadora: menos Estado significaria mais eficiência, modernização e competitividade. A realidade, décadas depois, mostrou o oposto.
2. Sarney abre a porta. Collor escancara
O governo Sarney iniciou o debate, mas quem realmente empurrou o Brasil para o programa de desestatizações foi Fernando Collor. Em 1990, Collor criou oficialmente o Programa Nacional de Desestatização (PND) — cujo objetivo central era explícito: vender patrimônio público.
A primeira grande operação simbólica foi a Usiminas, vendida sob o discurso da modernização industrial. Mas o efeito foi outro:
• desindustrialização acelerada
• formação de oligopólios privados
• aumento de tarifas
• perda de autonomia produtiva
A falta de transparência, a pressa e a influência do mercado financeiro marcaram o processo desde o início.
3. Itamar dá continuidade. FHC leva ao extremo
No governo Itamar Franco, a privatização da CSN (1993–1994) preparou o cenário para o maior ciclo de entregas de patrimônio público da história brasileira: o governo de Fernando Henrique Cardoso.
Entre 1995 e 2002, foram privatizadas 125 estatais — o maior programa de desestatizações da América Latina.
Alguns dos casos mais polêmicos:
Vale do Rio Doce (1997)
• Vendida por R$ 3,3 bilhões.
• Estudos do Ipea e do Dieese apontavam valor real 12 vezes maior.
• Apenas as reservas minerais valiam mais de R$ 100 bilhões.
• Após privatizada, tornou-se uma das mineradoras mais lucrativas do mundo.
• Entre 1997 e 2023, lucrou mais de R$ 350 bilhões, grande parte remetida ao exterior.
• Nos desastres de Mariana (2015) e Brumadinho (2019), foram 289 mortos — ambos sob gestão privada.
Sistema Telebras (1998)
• Fragmentado em 12 empresas e leiloado.• Promessa: universalização e democratização do acesso.• Resultado: tarifa de assinatura subiu 471% acima da inflação entre 1994 e 2002 (IBGE).• Setor tornou-se o campeão de reclamações no Brasil por mais de uma década.
Setor elétrico (1997–2002)
• Privatização de usinas, distribuidoras e linhas de transmissão.• Resultado: apagões históricos em 1999 e 2001, afetando 90% da população.• Tarifas aumentaram 95% acima da inflação entre 1995 e 2015.
Embraer (1994)
• Privatizada em modelo híbrido.
• Tornou-se gigante da aviação, mas com lucros privatizados e autonomia estratégica reduzida.
Todos esses processos foram alvo de críticas de:
• sindicatos
• movimentos sociais
• economistas desenvolvimentistas
• ex‑técnicos do BNDES
• pesquisadores como Bresser‑Pereira, Belluzzo e Maria da Conceição Tavares
A alegação principal: os ativos foram subavaliados, vendidos às pressas e sem auditoria social.
O argumento de que as privatizações diminuiriam a dívida pública também não se sustentou: a dívida aumentou, mesmo com a venda de empresas lucrativas.
4. Temer e Bolsonaro: a retomada agressiva da privatização
O golpe parlamentar de 2016, que derrubou Dilma Rousseff, abriu a porta para a retomada agressiva da agenda privatista. Michel Temer iniciou uma corrida para enfraquecer estatais e preparar sua venda.
Jair Bolsonaro, orientado por Paulo Guedes, elevou a privatização à condição de dogma, tentando vender:
• Petrobras (parcialmente através de subsidiárias)
• Eletrobras (privatizada via diluição de capital)
• Correios• setores do saneamento
• refinarias estratégicas
A perda da Eletrobras é vista por especialistas como um dos maiores retrocessos energéticos desde os anos 1950.
5. O balanço real das privatizações
O que funcionou:
• expansão da telefonia móvel
• alguns investimentos em setores específicos
Mas o que deu errado — e raramente é dito:
• tarifas mais caras em praticamente todos os setores
• acidentes e falhas sistêmicas (apagões, colapsos ferroviários etc.)
• precarização do trabalho e terceirização em massa
• remessa de lucros ao exterior
• abandono de áreas não lucrativas
• perda de controle sobre setores estratégicos
• dependência de corporações internacionais
Para completar:
• consultorias privadas lucraram milhões desenhando as privatizações
• o BNDES sofreu interferência política
• grupos privados participaram da formulação das regras que os beneficiariam
O resultado geral é inequívoco: o Brasil entregou muito, ganhou pouco e perdeu muito mais do que imaginou.
6. Lula e Dilma: concessões, não privatizações
Entre 2003 e 2016, os governos Lula e Dilma não deram sequência à venda de ativos estratégicos.
Em vez disso, adotaram:
• concessões reguladas
• PPPs
• fortalecimento do BNDES como indutor econômico
Houve críticas, claro — mas o patrimônio público permaneceu sob controle estatal.
O debate, porém, nunca desapareceu. E voltou com força total depois de 2016.
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