A DÍVIDA DO BRASIL COM OS DESAPARECIDOS DA DITADURA
- Alexandre Costa

- há 1 dia
- 4 min de leitura
Mais de 50 anos depois dos crimes cometidos pela repressão, famílias ainda procuram os restos mortais de pessoas mortas e desaparecidas durante a ditadura. Das ossadas de Perus aos desaparecidos da Guerrilha do Araguaia, o Brasil avançou na reconstrução da verdade e no reconhecimento da responsabilidade do Estado, mas continua devendo respostas, responsabilização e o direito elementar de uma família enterrar seus mortos.

POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINA DEMOCRÁTICA Como uma democracia pode atravessar mais de quatro décadas sem conseguir dizer a uma família onde o Estado enterrou o corpo de uma pessoa morta por seus próprios agentes? Onde está João Carlos Haas Sobrinho? Onde está Cilon Cunha Brum?
As duas perguntas atravessam mais de meio século da história brasileira. João Carlos, médico nascido em São Leopoldo, e Cilon, militante nascido em São Sepé, chegaram por caminhos diferentes à Guerrilha do Araguaia e nunca retornaram ao Rio Grande do Sul. O Estado brasileiro reconheceu suas mortes e desaparecimentos, investigações reconstruíram parte do que aconteceu e documentos e testemunhos permitiram conhecer circunstâncias da repressão. Suas famílias, entretanto, continuam sem os restos mortais.
A ausência de um corpo prolonga os efeitos do crime para além da morte. Impede o sepultamento, mantém sem resposta perguntas sobre os últimos momentos da vítima e transfere aos familiares uma procura capaz de atravessar gerações. Pais morreram procurando filhos, irmãos assumiram buscas iniciadas décadas antes e filhos, netos e sobrinhos herdaram perguntas que deveriam ter sido respondidas pelo Estado.
Foi assim com Sônia Haas, irmã de João Carlos, que passou grande parte da vida procurando informações sobre o destino do médico e percorrendo os caminhos por onde ele viveu antes de desaparecer no Araguaia. Mesmo depois do reconhecimento oficial da responsabilidade do Estado por sua morte, os restos mortais de João Carlos não foram devolvidos à família. [1]
Também foi assim com a família de Cilon Cunha Brum. Sua mãe, Eloah Cunha Brum, participou da procura pelo filho desaparecido e, posteriormente, outros familiares mantiveram a busca. Décadas depois, sua sobrinha Liniane Haag Brum transformou essa ausência em investigação e literatura no livro Antes do passado: o silêncio que vem do Araguaia.
São histórias familiares que ajudam a dimensionar um problema nacional. A Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada em 2011 e instalada em maio de 2012, concluiu seus trabalhos em dezembro de 2014 reconhecendo 434 mortos e desaparecidos políticos e identificando 377 agentes do Estado relacionados às graves violações de direitos humanos investigadas. Entre as 434 vítimas reconhecidas estavam 191 mortos, 210 desaparecidos cujos corpos continuavam sem localização e 33 desaparecidos cujos restos mortais haviam sido posteriormente encontrados. [2]
As investigações da CNV também demonstraram que prisões ilegais, torturas, execuções, desaparecimentos forçados e ocultações de cadáveres não podem ser compreendidos apenas como atos isolados de agentes públicos. O relatório descreveu uma estrutura organizada de repressão e atribuiu diferentes níveis de responsabilidade político-institucional, de comando e de autoria direta aos agentes identificados. [2]
O trabalho da Comissão representou um dos maiores esforços institucionais já realizados pelo Brasil para reconstruir esse passado. Mais de uma década depois da apresentação de seu relatório final, porém, parte das recomendações continua sem implementação e a responsabilização criminal pelas graves violações praticadas durante a ditadura permanece profundamente limitada. O país avançou na construção da memória e no reconhecimento das vítimas, mas ainda procura muitos de seus desaparecidos.
A dimensão material dessa dívida pode caber em algo aparentemente pequeno: um fragmento de osso. Em agosto de 2026, o Centro MariAntonia da Universidade de São Paulo abriu a exposição “Fazer falar os ossos: engajamentos presentes com o passado”, dedicada ao trabalho realizado por especialistas envolvidos na identificação de restos mortais relacionados às violações de direitos humanos da ditadura. A mostra coloca diante do público aquilo que normalmente permanece restrito aos laboratórios: o esforço científico para fazer com que ossos retirados de valas, cemitérios e sepultamentos clandestinos possam recuperar identidade, história e pertencimento familiar.
Entre os pesquisadores ligados a esse trabalho está Edson Teles, professor da Universidade Federal de São Paulo. Filho de militantes perseguidos pela ditadura, Teles conheceu ainda criança a violência do regime ao ser levado, junto com a irmã, ao DOI-Codi de São Paulo, onde seus pais estavam presos. Décadas depois, sua trajetória passou a estar ligada ao trabalho de memória e à investigação dos desaparecimentos produzidos pela repressão.
Ao refletir sobre os restos mortais que reaparecem décadas depois, Teles relaciona a impossibilidade de uma sociedade se despedir de seus mortos à própria qualidade da democracia brasileira. Para ele, aquilo que emerge das valas revela uma “dívida histórica” com as vítimas da violência de Estado, uma dívida que considera “praticamente impagável”. [3]
É a partir desses ossos e das histórias que eles ainda podem revelar que começa esta reportagem. Antes de discutir a Comissão Nacional da Verdade, a Lei da Anistia, as decisões da Corte Interamericana, a impunidade ou os limites da Justiça brasileira, existe uma questão elementar que o tempo não resolveu: famílias continuam esperando, mais de meio século depois, pelo direito de saber onde estão e de enterrar seus mortos.
A DÍVIDA DO BRASIL COM OS DESAPARECIDOS DA DITADURA - LEIA ABAIXO A SÉIRE COMPLETA:
1ª PARTE - FAZER OS OSSOS FALAREM 2ª PARTE - A VERDADE, A JUSTIÇA E A IMPUNIDADE 3ª PARTE - DOUTOR ARAGUAIA E OS CORPOS QUE O ESTADO AINDA NÃO DEVOLVEU NOTA EDITORIAL - A PORTA DA FRENTE DA HISTÓRIA FONTES PARA CHECAGEM
[1] JOÃO CARLOS HAAS SOBRINHO — BUSCA DA FAMÍLIA E AUSÊNCIA DOS RESTOS MORTAIS O que comprova: João Carlos Haas Sobrinho permanece entre os desaparecidos políticos do Araguaia; Sônia Haas participou da busca pelo irmão; investigações localizaram possíveis áreas de sepultamento, sem que seus restos mortais fossem recuperados e devolvidos à família. Vala de Perus — publicação oficial do Arquivo Nacional/Memórias Reveladas
[2] COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE — NÚMEROS E RESPONSABILIDADES O que comprova: a CNV reconheceu 434 mortos e desaparecidos; 191 mortos, 210 desaparecidos e 33 desaparecidos cujos corpos foram posteriormente localizados; identificou 377 agentes estatais e estabeleceu diferentes níveis de responsabilidade pelas graves violações investigadas. Registro oficial do Senado sobre o relatório final da Comissão Nacional da Verdade
[3] EDSON TELES / “FAZER FALAR OS OSSOS”
O que comprova: reportagem da Agência Pública https://apublica.org/2026/08/fazer-falar-os-ossos-a-rotina-de-quem-procura-os-desaparecidos-da-ditadura/ 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA
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