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A DÍVIDA DO BRASIL COM OS DESAPARECIDOS DA DITADURA - NOTA EDITORIAL - A PORTA DA FRENTE DA HISTÓRIA

POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINA DEMOCRÁTICA


Mais de meio século depois dos anos mais violentos da ditadura, o Brasil conseguiu reconstruir parte importante do funcionamento da repressão, identificar vítimas e agentes envolvidos, recuperar documentos e reconhecer oficialmente a responsabilidade do Estado por graves violações de direitos humanos. Não conseguiu, porém, devolver todos os corpos às famílias nem completar seu processo de justiça de transição. Essa é a contradição que atravessa as histórias desta reportagem.


A Comissão Nacional da Verdade reconheceu 434 mortos e desaparecidos políticos e identificou 377 agentes relacionados às graves violações investigadas. A localização de Luiz Eurico Tejera Lisbôa, a abertura da Vala de Perus, a criação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, as investigações do Ministério Público Federal, a própria CNV, a condenação internacional do Brasil pelo caso do Araguaia e a recente retificação das certidões de óbito representam avanços concretos. [2][11]


Mas reconhecer uma morte não significa encontrar um corpo, assim como reconstruir um crime não significa necessariamente fazer justiça. O Brasil avançou principalmente no direito à memória e à verdade, enquanto a responsabilização pelas graves violações encontrou obstáculos jurídicos, políticos e institucionais muito maiores.


A trajetória da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) demonstra também que esse caminho não foi contínuo. O colegiado foi encerrado no final de 2022, durante o governo Jair Bolsonaro, e restabelecido em julho de 2024, no terceiro governo Lula. [16] Localizar desaparecidos, preservar arquivos e investigar crimes de Estado, entretanto, não pode depender da orientação política de cada governo. Memória, verdade, justiça e reparação precisam constituir compromissos permanentes da democracia.


O TEMPO TAMBÉM NÃO VOLTA MAIS

Nem o tempo e nem os desaparecidos retornarão. Existe uma medida dessa demora que nenhum relatório consegue expressar adequadamente. Pais e mães morreram sem saber onde estavam seus filhos. Irmãos envelheceram procurando irmãos. Filhos, sobrinhos e netos receberam como herança uma busca que deveria ter sido responsabilidade do Estado. Eloah Cunha Brum morreu sem poder enterrar Cilon. Sônia Haas atravessou décadas reconstruindo os caminhos de João Carlos. Suzana Lisbôa procurou Ico até descobrir que havia sido enterrado sob outro nome. Liniane Haag Brum transformou a ausência do tio em investigação, literatura e memória.


Quando uma família precisa procurar durante meio século o corpo de alguém morto pelo Estado, o desaparecimento deixa de pertencer exclusivamente ao passado. A exposição “Fazer falar os ossos” torna essa permanência quase literal. A ciência pode extrair informações de restos humanos, confrontar DNA, documentos e registros e devolver identidade a quem foi enterrado sem nome. Mas os ossos precisam ser encontrados, preservados e investigados. Precisam de instituições que considerem essa tarefa uma obrigação democrática.


PELA PORTA DA FRENTE DA HISTÓRIA

Rubens Paiva, Vladimir Herzog e Manoel Raymundo Soares tornaram-se símbolos nacionais ou regionais da violência da ditadura. Seus casos ajudaram a romper o silêncio. Mas centenas de outras histórias permaneceram durante décadas restritas às famílias, aos companheiros de militância, aos pesquisadores e aos movimentos de direitos humanos.

Recuperar João Carlos Haas Sobrinho, Cilon Cunha Brum, José Huberto Bronca, Luiz Eurico Tejera Lisbôa, Joaquim Pires Cerveira, Luiz Renato Pires de Almeida e tantos outros significa também disputar aquilo que o país escolhe lembrar.


Em setembro, quando Doutor Araguaia voltar à tela em Porto Alegre, João Carlos reaparecerá diante do público como estudante, médico, militante e guerrilheiro. Depois, as luzes do cinema voltarão a se acender — e a ausência permanecerá. O Estado brasileiro reconhece sua morte, mas ainda não conseguiu dizer à família onde estão seus restos mortais. Diorge Konrad escreveu que esses homens precisavam entrar nos livros “pela porta da frente da História”.


Mais de cinquenta anos depois, é por essa porta que João Carlos, Cilon e tantos outros precisam retornar. Não apenas como números de uma ditadura, mas como parte da história de uma democracia que ainda deve às suas famílias uma resposta elementar: onde estão os nossos desaparecidos? 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA

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