A DÍVIDA DO BRASIL COM OS DESAPARECIDOS DA DITADURA - 3ª PARTE - DOUTOR ARAGUAIA E OS CORPOS QUE O ESTADO AINDA NÃO DEVOLVEU
- Alexandre Costa

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POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINA DEMOCRÁTICA Para compreender o que significa desaparecer por mais de meio século, é preciso retirar os números dos relatórios e devolver-lhes nomes, famílias e histórias. No Rio Grande do Sul, uma dessas histórias começa em São Leopoldo, passa pela Faculdade de Medicina da UFRGS, atravessa o país e termina — pelo menos até onde foi possível reconstruí-la — na região do Araguaia.
João Carlos Haas Sobrinho nasceu em 25 de junho de 1941. Médico e militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), participou do movimento estudantil e presidiu o Centro Acadêmico Sarmento Leite, da Faculdade de Medicina da UFRGS. Perseguido depois do golpe de 1964, deixou o Rio Grande do Sul e posteriormente se estabeleceu no Norte do país, onde exerceu a medicina entre populações que tinham pouco ou nenhum acesso à assistência médica. [18]
Na região, ficou conhecido como Doutor Juca. Sua atuação política acabaria levando-o à Guerrilha do Araguaia. João Carlos integrou a Comissão Militar da organização guerrilheira e morreu em 30 de setembro de 1972, durante a primeira campanha das Forças Armadas contra os militantes instalados na região. Seu corpo desapareceu. [18] Mais de meio século depois, a pergunta permanece: Onde está João Carlos Haas Sobrinho?
UMA FAMÍLIA QUE PRECISOU INVESTIGAR O PRÓPRIO ESTADO
A resposta deveria ter sido dada pelas instituições responsáveis por sua morte. Em vez disso, coube à família reconstruir uma história fragmentada por documentos incompletos, testemunhos, viagens, investigações e informações obtidas ao longo de décadas.
A irmã Sônia Haas transformou essa procura em parte de sua vida.
Ela era adolescente quando João Carlos desapareceu. Durante anos, a família recebeu informações fragmentadas sobre seus caminhos e sobre o que teria acontecido no Araguaia. Sônia percorreu lugares onde o irmão havia vivido, encontrou pessoas que o conheceram e reuniu lembranças capazes de reconstruir uma trajetória que a repressão tentou apagar. [1][18]
Ao descrever esse processo, utiliza uma imagem que ajuda a compreender a dimensão da procura: “reconstruir essa história é como tecer uma colcha de retalhos infinita”. [19]
A frase traduz um dos efeitos mais perversos do desaparecimento forçado. Além de perder uma pessoa, a família é obrigada a assumir funções que deveriam caber ao Estado: investigar, procurar testemunhas, confrontar versões, localizar documentos e tentar descobrir onde estão os restos mortais.
Sônia também definiu de outra forma essa experiência: “o luto do desaparecido não fecha nunca”. Sem o corpo, explicou, não existe a materialidade da morte, o caixão, o sepultamento ou o lugar onde a família possa realizar a despedida. [1] A busca continua porque o reconhecimento oficial da morte não responde à pergunta essencial. João Carlos ainda não voltou para casa.
UMA CERTIDÃO PODE CORRIGIR UMA MENTIRA, MAS NÃO DEVOLVE UM CORPO
Nas últimas décadas, o Estado brasileiro passou a reconhecer formalmente responsabilidades que durante muito tempo negou. Um passo importante ocorreu com a Resolução nº 601, de 13 de dezembro de 2024, do Conselho Nacional de Justiça, que determinou regras para a emissão e retificação dos registros de óbito de mortos e desaparecidos políticos reconhecidos pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. [20]
A mudança tem forte significado histórico. Os registros devem consignar que a morte foi “não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro no contexto da perseguição sistemática à população identificada como dissidente política”. O procedimento pode ser realizado administrativamente e sem cobrança às famílias, dispensando uma nova batalha judicial para que documentos públicos deixem de reproduzir versões falsas ou omissas construídas durante a ditadura. [20]
A família Haas recebeu a nova certidão de João Carlos em dezembro de 2025, com o reconhecimento expresso da responsabilidade do Estado brasileiro. [21]
O documento corrige uma parte da história. Mas não localiza o corpo.
Essa diferença resume a distância que ainda existe entre reparação documental e reparação integral. Uma certidão pode reconhecer oficialmente aquilo que o Estado negou durante décadas; não substitui a obrigação de procurar os restos mortais nem o direito da família de sepultá-los.
CILON CUNHA BRUM: UM TÚMULO À ESPERA DE UM CORPO
João Carlos não é o único gaúcho que permanece no Araguaia. Cilon Cunha Brum, nascido em São Sepé em 1946, militante do PCdoB conhecido pelos codinomes Simão e Comprido, também integrou a guerrilha. Documentos e investigações posteriores permitiram reconstruir que ele foi capturado pelas forças militares e morto em 1974, quando já se encontrava sob domínio dos agentes do Estado. Seu corpo nunca foi entregue à família. [22]
As revelações feitas décadas depois pelo major Sebastião Curió, um dos comandantes das operações militares no Araguaia, contribuíram para desmontar a versão de que todos os guerrilheiros haviam morrido em combate. Documentos de seu arquivo registraram militantes presos e posteriormente executados pelas forças repressivas. Entre eles estava Cilon. [22]
A ausência atravessou gerações da família Cunha Brum. Sua mãe, Eloah, esteve entre os familiares que procuraram os desaparecidos ainda durante a ditadura. Morreu sem poder enterrar o filho.
Posteriormente, a sobrinha Liniane Haag Brum retomou essa procura. No livro Antes do passado: o silêncio que vem do Araguaia, transformou a investigação familiar em uma narrativa sobre memória, silêncio e desaparecimento. Em uma passagem dirigida à avó, escreveu sobre Cilon: “Seu filho Cilon não foi enterrado. Foi semeado.” [22] Em São Sepé, a imagem é ainda mais concreta: existe um túmulo destinado a Cilon.
Falta o corpo.
JOSÉ HUBERTO BRONCA: OUTRO GAÚCHO DESAPARECIDO NO ARAGUAIA
Há ainda outros nomes ligados ao Rio Grande do Sul que precisam integrar essa memória.
Entre eles está José Huberto Bronca — grafia correta de seu nome, sem “m” em Huberto —, nascido em Porto Alegre. Antes da clandestinidade, teve uma trajetória muito diferente daquela que normalmente se imagina ao olhar apenas para seus últimos anos: praticou ciclismo, motociclismo, natação e remo, trabalhou como equilibrista de monociclo em circo, estudou mecânica de máquinas na Escola Técnica Parobé, formou-se em manutenção de aeronaves e trabalhou durante anos na Varig. [23]
Sua militância política antecedia o golpe de 1964. Integrado ao PCdoB, passou um período no exterior, retornou clandestinamente ao Brasil e chegou à região do Araguaia em 1969. Conhecido como Zequinha ou Fogoió, tornou-se vice-comandante do Destacamento B e depois integrou a Comissão Militar da guerrilha. [23]
As informações sobre seus últimos meses apresentam divergências entre documentos produzidos por diferentes fontes, razão pela qual precisam ser tratadas como parte de uma reconstrução histórica ainda incompleta. Registros militares indicaram sua morte em março de 1974, enquanto outros testemunhos e investigações reconstruíram episódios de captura de guerrilheiros já debilitados e posteriormente mortos. [23]
Essa cautela é importante porque boa parte do conhecimento disponível sobre os últimos momentos dos combatentes do Araguaia resulta do confronto entre documentação militar, arquivos posteriormente revelados, registros produzidos pelo PCdoB, depoimentos de moradores, familiares, pesquisadores e investigações oficiais. Não existe uma única fonte capaz de responder isoladamente por toda a reconstrução dos fatos. É justamente essa fragmentação que torna a busca tão difícil.
OS NOMES CONHECIDOS E OS QUE QUASE DESAPARECERAM DA HISTÓRIA
A violência da ditadura produziu casos que se tornaram símbolos nacionais. O assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, e o desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva, preso por agentes da repressão em 1971, romperam parcialmente o bloqueio de silêncio imposto pelo regime. As circunstâncias de suas mortes foram investigadas durante décadas, mobilizaram familiares e organizações de direitos humanos e se tornaram referências da luta brasileira por memória, verdade e justiça.
No Rio Grande do Sul, o Caso das Mãos Amarradas, envolvendo o sargento Manoel Raymundo Soares, expôs muito antes a brutalidade da repressão. Preso em Porto Alegre em 1966, torturado e morto, teve o corpo encontrado no Rio Jacuí com as mãos amarradas às costas. A repercussão foi tamanha que a Assembleia Legislativa instaurou uma CPI para investigar o caso. [17]
Mas a dimensão da violência estatal não pode ser medida apenas pelas histórias que alcançaram projeção nacional. Há vítimas cujos nomes permaneceram conhecidos quase exclusivamente pelas famílias, companheiros de militância, pesquisadores e movimentos de direitos humanos. Entre os gaúchos ou militantes com trajetória vinculada ao Estado aparecem ainda Luiz Renato Pires de Almeida, Joaquim Pires Cerveira e outros homens e mulheres cujas histórias sobreviveram porque alguém decidiu continuar procurando documentos, fazendo perguntas ou recusando o esquecimento. [24]
É nesse sentido que a observação do historiador Diorge Konrad adquire força especial. Ao recuperar as histórias de Cilon, Cerveira, Luiz Eurico e outros perseguidos ligados a Santa Maria e ao Rio Grande do Sul, defendeu que esses personagens precisam entrar nos livros “pela porta da frente da História”. [24]
DOUTOR ARAGUAIA: QUANDO A PROCURA CHEGA AO CINEMA
A busca de Sônia Haas também encontrou outra maneira de atravessar gerações.
O documentário “Doutor Araguaia — A história do médico João Carlos Haas Sobrinho” recupera a trajetória do médico gaúcho desde sua formação e militância estudantil até a atuação profissional junto às comunidades do Norte do país e sua participação na Guerrilha do Araguaia. A produção nasceu diretamente do esforço de Sônia para preservar a memória do irmão. [25]
O filme cumpre uma função que ultrapassa a biografia. Ao devolver rosto, voz, profissão, escolhas e relações humanas a João Carlos, confronta um dos mecanismos centrais do desaparecimento político: reduzir uma pessoa à condição abstrata de “desaparecido”.
Em 28 de setembro, o documentário voltará à tela em Porto Alegre, no CineBancários. A sessão aproxima uma história ocorrida há mais de meio século de uma geração para a qual a ditadura pode parecer um acontecimento distante. [26] Mas a ausência do protagonista impede que essa história seja apenas passado. João Carlos Haas Sobrinho continua desaparecido.
MAIS DE MEIO SÉCULO DEPOIS, A PERGUNTA CONTINUA
A democracia brasileira construiu instrumentos que não existiam quando as famílias começaram essas buscas. Criou a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, instituiu a Comissão Nacional da Verdade, abriu arquivos, reconheceu oficialmente vítimas, corrigiu registros de óbito e desenvolveu projetos científicos para identificação de restos mortais.
Nada disso é irrelevante. São conquistas produzidas por décadas de mobilização de familiares, sobreviventes, pesquisadores, jornalistas, organizações de direitos humanos e instituições públicas comprometidas com a recuperação da verdade.
O problema é que a passagem do tempo torna cada atraso mais grave. Testemunhas morrem, lembranças se perdem, documentos desaparecem e locais de sepultamento são modificados. A busca científica pode avançar extraordinariamente, como demonstra Perus, mas não existe tecnologia capaz de recuperar aquilo que foi definitivamente destruído pela negligência ou pela decisão deliberada de ocultar provas. Por isso, a procura pelos desaparecidos não pertence somente às famílias.Ela pertence ao Estado que os fez desaparecer e à democracia que herdou a obrigação de encontrá-los.
Para Sônia Haas, essa dívida tem um nome: João Carlos. Para Liniane Brum e sua família, tem outro: Cilon. Para outras famílias gaúchas, chama-se José Huberto Bronca, Joaquim Pires Cerveira, Luiz Renato Pires de Almeida e tantos outros.
Os nomes são diferentes. A pergunta dirigida ao Estado brasileiro permanece essencialmente a mesma: Onde estão?
FONTES PARA CHECAGEM — CAPÍTULO 3
[18] COMISSÃO ESPECIAL SOBRE MORTOS E DESAPARECIDOS POLÍTICOS — JOÃO CARLOS HAAS SOBRINHO
O que comprova: nascimento, formação em Medicina, militância, participação na Guerrilha do Araguaia, atuação como médico e circunstâncias documentadas de sua morte e desaparecimento.
[19] SÔNIA HAAS — A BUSCA PELO IRMÃO
O que comprova: reconstrução realizada pela família; busca de Sônia por informações sobre João Carlos; dimensão pessoal do desaparecimento e depoimentos sobre a procura.
[20] CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA — RESOLUÇÃO Nº 601/2024
O que comprova: regras para emissão e retificação das certidões; procedimento administrativo e gratuito; redação determinada para registrar a responsabilidade do Estado brasileiro pelas mortes decorrentes da perseguição política.
[21] NOVA CERTIDÃO DE JOÃO CARLOS HAAS SOBRINHO
O que comprova: entrega à família, em dezembro de 2025, da certidão retificada e reconhecimento formal da responsabilidade estatal pela morte.
[22] CILON CUNHA BRUM — ARAGUAIA E A BUSCA DA FAMÍLIA O que comprova: origem gaúcha; participação na Guerrilha do Araguaia; prisão e execução registradas em investigações posteriores; desaparecimento dos restos mortais; busca da família e relato de Liniane Haag Brum.
[23] JOSÉ HUBERTO BRONCA O que comprova: grafia do nome; nascimento em Porto Alegre; trajetória profissional e esportiva; militância; participação no Araguaia; codinomes e registros sobre seu desaparecimento. Fonte principal para a versão final: Dossiê Ditadura: Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil (1964–1985) e documentação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. https://cemdp.mdh.gov.br/modules/desaparecidos/acervo/ficha/cid/35
[24] DIORGE KONRAD — VÍTIMAS GAÚCHAS E “PELA PORTA DA FRENTE DA HISTÓRIA”
O que comprova: histórias de Cilon Cunha Brum, Luiz Renato Pires de Almeida, Luiz Eurico Tejera Lisbôa e Joaquim Pires Cerveira; mobilização das famílias; documentação sobre o Araguaia; frase utilizada no encerramento do especial.
Fonte: Diorge Konrad, “Casos Gaúchos Para a Comissão da Verdade!”, publicado em 11 de junho de 2012. https://vermelho.org.br/coluna/casos-gauchos-para-a-comissao-da-verdade/
[25] DOCUMENTÁRIO “DOUTOR ARAGUAIA”
O que comprova: existência do documentário, trajetória abordada pela obra e participação de Sônia Haas no processo de preservação da memória do irmão.
[26] SESSÃO DE 28 DE SETEMBRO NO CINEBANCÁRIOS
O que comprova: exibição de Doutor Araguaia em Porto Alegre em 28 de setembro de 2026. 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA
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