A AUSÊNCIA DE EDUARDO GALEANO FAZ LEMBRAR DE "ESPELHOS": UMA HISTÓRIA QUASE UNIVERSAL
- Alexandre Costa

- 17 de out. de 2021
- 2 min de leitura
Atualizado: 22 de out. de 2021
“Espelhos” é um livro que volta e meia retiro da prateleira para ler novamente. Se trata de uma história universal, como bem enunciado na sua capa. Nas primeiras páginas, Galeano descreve a Fundação Religiosa do Racismo. Vou reproduzir aqui.

Noé embebedou-se celebrando a chegada da arca ao monte Ararat.
Despertou incompleto. Segundo uma das diversas versões da Bíblia, seu filho Cam o havia castrado enquanto ele dormia. E essa versão diz que Deus amaldiçoou Cam e seus filhos e os filhos de seus filhos, condenando-os à escravidão pelos séculos dos séculos.
Mas nenhuma das diversas versões da Bíblia disse que Cam era negro. A África não vendia escravos quando a Bíblia nasceu, e Cam escureceu sua pele muito tempo depois. Talvez sua negritude tenha começado a aparecer lá pelos séculos XI ou XII, quando os árabes iniciaram o tráfico de escravos do sul do deserto, mas certamente Cam passou a ser totalmente negro lá pelos séculos XVI ou XVII, quando a escravidão se transformou no grande negócio europeu.
A partir de então, outorgou-se prestígio divino e vida eterna ao tráfico negreiro. A razão a serviço da religião, a religião a serviço da opressão: como os escravos eram negros, Cam devia ser negro. E seus filhos, também negros, nasciam para ser escravos, porque Deus não se enganava nunca.
E Cam e seus filhos e os filhos de seus filhos teriam cabelo crespo, olhos vermelhos e lábios inchados, andariam nus exibindo seus pênis escandalosos, seriam praticantes do roubo, odiariam seus amos, jamais diriam a verdade e dedicariam às coisas sujas seu tempo de dormir.
Em tempos sombrios, sentimos falta das palavras escritas, das frases ditas, dos pensamentos encorajadores de Eduardo Galeano.
Lembro como se fosse hoje. Estava me deslocamento para Brasília, por conta de um compromisso profissional, quando li a notícia no monitor junto à poltrona da aeronave. Os primeiros raios de sol riscaram a linha do horizonte, naquele dia triste de 13 de abril de 2015, em que as lágrimas involuntárias eram salgadas e amargas como são as despedidas. O autor de As Veias Abertas da América Latina, publicado em 1971, nos deixou aos 74 anos, vítima de um câncer de pulmão.
"Espelhos - Uma História Quase Universal" foi lançado no final de 2007.
Este livro foi escrito para que não partam.
Nestas páginas unem-se o passado e o presente.
Renascem os mortos, os anônimos têm nome:
os homens que ergueram os palácios e os templos de seus amos;
as mulheres, ignoradas por aqueles que ignoram o que temem;
o sul e o oriente do mundo, desprezados por aqueles que
desprezam o que ignoram;
os muitos mundos que o mundo contém e esconde;
os pensadores e os que sentem;
os curiosos, condenados por perguntar, e os rebeldes e
os perdedores e os lindos loucos que foram e são o
sal da terra.
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