VENEZUELA É MAIS UMA VÍTIMA DA DEPENDÊNCIA ECONÔMICA DOS EUA POR PETRÓLEO E GUERRAS
- Alexandre Costa

- 5 de jan.
- 5 min de leitura
POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINADEMOCRATICA.COM.BR

Ao atacar a Venezuela, os Estados Unidos não apenas disputam petróleo: reafirmam um sistema que transforma guerras em negócios, sofrimento em contratos e soberania em obstáculo. Um mundo em conflito permanente não é um acidente e sim um modelo.
A voracidade dos Estados Unidos por petróleo se expressa em um mercado interno gigantesco, capaz de absorver a maior parte de sua produção recorde, ao mesmo tempo em que dita a dinâmica do mercado global por meio de um complexo sistema de importações e exportações. Esse arranjo não responde apenas a critérios econômicos, mas a exigências do sistema de infraestrutura de refino e de interesses geopolíticos estratégicos.
Paralelamente, os EUA entram em 2026 consolidados como o epicentro da indústria bélica mundial. O setor registrou faturamento recorde em 2025, impulsionado diretamente pela continuidade da guerra na Ucrânia e pelo agravamento das tensões militares na Ásia e no Oriente Médio. A expansão dos conflitos não aparece como um efeito colateral, mas como um fator central para o crescimento da indústria armamentista.
EUA E O PETRÓLEO
Em 2026, a relação dos Estados Unidos com o petróleo estrangeiro revela uma contradição estrutural. Embora o país seja o maior produtor mundial de petróleo, mantém uma dependência significativa de importações para equilibrar sua infraestrutura de refino e atender a objetivos estratégicos. A produção interna, majoritariamente de petróleo leve proveniente do xisto, não supre plenamente as necessidades das refinarias norte-americanas, projetadas para processar petróleo pesado.
Mesmo alcançando picos de produção próximos a 13,8 milhões de barris por dia no final de 2025, os Estados Unidos continuam importando grandes volumes de petróleo. Isso ocorre porque refinarias localizadas principalmente na Costa do Golfo dependem de petróleo pesado, como o produzido pela Venezuela, Canadá e México, enquanto o petróleo de xisto doméstico possui características diferentes, limitando sua utilização plena.
MUDANÇA NO PERFIL
Nos últimos anos, houve uma redução expressiva da dependência externa. Se anteriormente cerca de 60% do petróleo consumido era importado, esse índice caiu para algo entre 30% e 35% em 2025. O Canadá consolidou-se como o principal fornecedor, respondendo por aproximadamente 60% das importações, seguido pelo México, com cerca de 7%.
O Brasil também passou a desempenhar papel relevante nesse arranjo. Em julho de 2025, aproximadamente 8% de todo o petróleo exportado pela Petrobras teve como destino os Estados Unidos, evidenciando a diversificação das fontes externas utilizadas para garantir estabilidade ao sistema energético norte-americano.
Essa dependência, contudo, assumiu um novo contorno político em 2026. O governo dos EUA passou a atuar de forma mais agressiva para retomar influência direta sobre a exploração petrolífera venezuelana, país que detém as maiores reservas provadas do mundo. Empresas como a Chevron já operam sob permissões especiais, com o objetivo explícito de assegurar o fornecimento de petróleo pesado essencial às refinarias norte-americanas e reduzir a volatilidade dos preços internos.
MERCADO DAS ARMAS
No campo militar, o padrão se repete em escala ainda maior. Os Estados Unidos controlam cerca de 43% do mercado global de exportação de armas. As três maiores fabricantes do setor — Lockheed Martin, RTX (Raytheon) e Northrop Grumman — são norte-americanas. Para 2026, a Câmara dos Representantes aprovou um orçamento de defesa estimado em 4,95 trilhões de dólares, valor que corresponde a mais de um terço de todos os gastos militares do planeta.
INTERESSE ESTRATÉGICO E CONFLITOS
A manutenção de tensões geopolíticas funciona como motor econômico central desse setor. O faturamento recorde de 2025 foi impulsionado diretamente pela guerra na Ucrânia e pelo aumento das tensões militares no Oriente Médio e na Ásia. Em 2026, os EUA iniciam a implantação de armamentos de longo alcance na Alemanha, reforçando a dependência militar europeia e garantindo novos contratos de fornecimento de longo prazo.
A chamada “diplomacia das armas” também se manifesta em acordos bilionários, como os negociados com a Arábia Saudita — principal comprador individual, responsável por cerca de 12% das exportações de armas dos EUA. Esses acordos incluem caças F-35 e sistemas avançados de defesa, aprofundando relações de dependência estratégica.
O COMPLEXO INDUSTRIAL-MILITAR
Analistas apontam que o interesse permanente em conflitos está ligado ao funcionamento do chamado complexo industrial-militar, no qual o lobby das empresas de defesa exerce influência direta sobre a política externa para garantir que a demanda por armamentos jamais cesse. Em 2026, essa engrenagem se consolida como um dos principais obstáculos a investimentos globais em desenvolvimento sustentável.
Enquanto o mundo gasta cerca de US$ 2,7 trilhões por ano em armamentos, uma fração desse valor seria suficiente para enfrentar crises humanitárias globais, combater a fome e responder à emergência climática. A opção pela guerra, portanto, não é inevitável — é uma escolha política e econômica.
INTEGRAÇÃO HISTÓRICA — VENEZUELA, PETRÓLEO E SOBERANIA
O ataque dos Estados Unidos à Venezuela, em 2026, não inaugura um conflito. Ele explicita, de forma aberta, uma disputa que atravessa décadas e tem como eixo central o controle do petróleo. A Venezuela abriga as maiores reservas provadas do mundo, concentradas principalmente na Faixa do Orinoco, o que a coloca em posição estratégica no sistema energético global.
Esse conflito ganhou novo patamar a partir da chegada de Hugo Chávez ao poder, no final dos anos 1990. Em 2001, a aprovação da Lei dos Hidrocarbonetos Orgânicos restabeleceu o controle estatal sobre as reservas de petróleo e gás, revertendo o processo de privatização impulsionado nos anos 1990 sob influência do Fundo Monetário Internacional e das grandes companhias petrolíferas estrangeiras.
A resposta foi imediata. Empresas como ExxonMobil e Chevron passaram a pressionar Washington, culminando na tentativa de golpe de 2002 contra Chávez, apoiada pelo governo de George W. Bush. O fracasso do golpe e a vitória de Chávez no referendo de 2004 levaram os EUA a adotar uma estratégia mais sofisticada: a guerra híbrida.
DA GUERRA HÍBRIDA À FORÇA DIRETA
Sanções econômicas, bloqueio financeiro, isolamento diplomático, sabotagens, lawfare e guerra informacional passaram a ser utilizados para asfixiar o Estado venezuelano sem necessidade de invasão direta. Após a morte de Chávez, em 2013, e a queda abrupta dos preços do petróleo, essa estratégia foi intensificada, atingindo diretamente o padrão de vida da população e alimentando narrativas de “colapso interno”.
A narrativa do narcotráfico surge nesse contexto como justificativa moral. Indiciamentos unilaterais e acusações criminais passaram a ser apresentados como base para medidas cada vez mais agressivas, culminando no ataque militar de 2026. Trata-se da passagem da coerção indireta para o uso explícito da força, quando os mecanismos anteriores deixaram de produzir o efeito desejado.
IMPERIALISMO CONTEMPORÂNEO
A Venezuela não é alvo por acaso. O país simboliza o direito de um povo controlar suas riquezas naturais e direcioná-las para políticas sociais — exatamente o oposto do modelo defendido pelo imperialismo contemporâneo. A questão central não é narcotráfico, nem democracia. É quem decide sobre o petróleo, sobre o destino de uma nação e sobre até onde vai o poder de uma economia que precisa da guerra para continuar funcionando.
LINKS E FONTES (SUGESTÃO)
SIPRI — Relatórios anuais sobre comércio internacional de armas
ANP — Anuário Estatístico do Petróleo (reservas globais)
Reuters — Cobertura factual sobre Venezuela, sanções e política externa dos EUA
The Guardian — Análises sobre indústria bélica e guerras permanentes
Agência Brasil — Contextualização para o público brasileiro
Relatórios do Congresso dos EUA — Orçamento de Defesa 2026
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