CHINA REGISTRA SUPERÁVIT COMERCIAL ACIMA DE US$ 1 TRILHÃO ENQUANTO DÓLAR TEVE A MAIOR QUEDA DESDE 2008
- Alexandre Costa

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POR ALEXANDRE COSTA | JORNALISTA
A turbulência no cenário político internacional não é consequência apenas da invasão dos EUA à Venezuela, no início de janeiro de 2026, e das recentes advertências e menções a países como Colômbia, Cuba, México e Groenlândia (território autônomo da Dinamarca).
Ainda que o combate ao narcotráfico tenha sido a justificativa dos EUA para atacar a Venezuela, o objetivo norte-americano está relacionado a muitos outros fatores. As ameaças de Trump, na verdade, podem ser explicadas por dois indicadores: de um lado o registrado de superávit comercial da China, que atingiu mais de US$ 1 trilhão (de janeiro a novembro de 2025); de outro, a maior queda do dólar desde 2008.
A transição geoeconômica de 2025 revela uma reorganização estrutural da ordem internacional, marcada pela contenção norte‑americana, pela projeção global da China e pelo avanço de alternativas financeiras e tecnológicas fora da órbita de Washington.
A expressão “desespero dos EUA” aparece em análises políticas para descrever a mudança de postura de Washington diante da ascensão chinesa. Embora não seja um termo técnico, ela captura um fenômeno observável: a superpotência norte‑americana intensificou tarifas, sanções, controles tecnológicos e pressão diplomática para preservar vantagens históricas construídas no pós‑Segunda Guerra. Ao mesmo tempo, enfrenta custos domésticos, tensões com aliados e fragilidades estruturais de médio prazo.
A China, por sua vez, alcançou em 2025 um marco expressivo – superávit comercial acima de US$ 1 trilhão entre janeiro e novembro – impulsionado por exportações de alta tecnologia e pela capacidade de redirecionar mercados diante das restrições norte‑americanas (Reuters, AP News, Al Jazeera). Também avançou em processos de desdolarização, ampliou o uso do renminbi e estabeleceu instrumentos financeiros alternativos, como o acordo de swap Brasil‑China assinado em maio de 2025. A intensificação dos controles de exportação dos EUA sobre semicondutores, IA e cadeias de fabricação (BIS, CRS) evidencia que a disputa não é apenas comercial: é uma corrida pela arquitetura tecnológica do futuro.
O dólar permanece dominante, mas sua centralidade é cada vez mais questionada por mecanismos de diversificação e integração Sul‑Sul.
DISPUTA PELA HEGEMONIA
A disputa ultrapassa comércio e diplomacia; envolve a capacidade de definir padrões globais em tecnologia, propriedade intelectual, fluxos financeiros e sanções. A China expandiu sua presença em infraestrutura, inovação industrial e financiamentos internacionais, especialmente via Belt‑and‑Road Initiative. Para Washington, isso representa a possibilidade de um mundo onde suas regras não são mais universais.
A OMC registrou, em 2025, aumento de incertezas geoeconômicas, revisando previsões de crescimento global devido à escalada tarifária e à fragmentação do comércio (WTO, 2025). Esse cenário indica que a disputa já provoca impactos sistêmicos.
O SUPERÁVIT CHINÊS DE US$ 1 TRILHÃO
Entre janeiro e novembro de 2025, a China atingiu um super‑ávit comercial superior a US$ 1 trilhão – marco histórico associado a três fatores:
Redirecionamento de exportações após tarifas dos EUA.
Crescente competitividade em setores estratégicos (carros elétricos, baterias, eletrônicos).
Importações mais fracas, sugerindo demanda doméstica contida.
Esse desempenho desafia a narrativa de que tarifas e sanções poderiam desacelerar a máquina exportadora chinesa.
Ao contrário, a China diversificou mercados, ampliou presença no Sul Global e pressionou indústrias na Europa e na Ásia, que agora reagem com políticas protecionistas.
SEMICONDUTORES, IA E CONTROLES DE EXPORTAÇÃO
Semicondutores são o núcleo da disputa. Em janeiro de 2025, o Bureau of Industry and Security (BIS) intensificou controles sobre chips avançados, restringindo acesso da China a tecnologias críticas. Para o Congresso norte‑americano, semicondutores, softwares de design e máquinas de litografia são ativos de segurança nacional e instrumentos de política geoestratégica (CRS, 2025).
EFEITOS COLATERAIS
Incentivo à substituição tecnológica doméstica chinesa.
Reorganização de cadeias globais e desestímulo a investimentos em países aliados.
Aceleração da formação de ecossistemas paralelos de inovação.
Pressão sobre Europa e Ásia para escolher entre mercado chinês e alinhamento ao bloco norte‑americano.
A disputa tecnológica, portanto, funciona como termômetro do futuro digital e como palco central da rivalidade.
DESDOLARIZAÇÃO
Há sinais crescentes de uso do renminbi (RMB) em transações internacionais vinculadas à China, expansão de swaps bilaterais e criação de mecanismos financeiros alternativos. Não se trata de substituição imediata do dólar, mas de redução gradual da dependência global de uma única moeda dominante.
ACORDO DE SWAP
Em 12 maio 2025, os bancos centrais de Brasil e China assinaram um acordo de swap que facilita comércio e finanças sem depender exclusivamente do dólar em momentos de estresse (BCB, Agência Brasil, 2025). O arranjo amplia autonomia financeira, reduz custos de transação e fortalece vínculos estratégicos.
Estudos sobre os BRICS apontam que a desdolarização avança por vias práticas — pagamentos em moedas locais, sistemas paralelos, interoperabilidade financeira —, mas enfrenta barreiras institucionais para se tornar uma ruptura abrupta (Ipea, 2025).
DÓLAR SEGUE EM QUEDA
O dólar teve em 2025 seu pior ano desde a década de 1970, e tudo indica que continuará fraco em 2026. Desde o pós‑2008, há queda contínua da participação estrangeira na dívida pública norte‑americana. Em 2024, investidores estrangeiros detinham cerca de 30 % dos títulos públicos em circulação, segundo o Congressional Research Service — redução significativa perante décadas anteriores.
Consequências:
Maior financiamento doméstico da dívida.
Sinais de diversificação de reservas globais.
Redução da dependência externa.
Menor “automágico” do dólar como ativo de reserva.
Isso não representa colapso do dólar — que segue dominante —, mas confirma a tendência de um sistema financeiro mais distribuído e menos hierárquico.
PODER, COERÇÃO E DISPUTA DE NARRATIVAS
No videocast Em Detalhes #564 (9 jan 2026), o jornalista José Arbex Júnior interpreta a política externa dos EUA como cada vez mais dependente da coerção — tarifas, sanções, controle tecnológico — em detrimento do poder brando. Embora seja análise opinativa, ilumina um fenômeno observável: a diplomacia norte‑americana enfrenta resistência crescente do Sul Global, ao mesmo tempo em que a China amplia influência por meio de comércio, infraestrutura e financiamento.
Essa disputa de narrativas se expressa em:
Tensões crescentes na Ásia.
Reindustrialização defensiva na Europa.
Dilemas estratégicos na América Latina.
Polarização em organismos multilaterais.
A transição para uma ordem multipolar tende a ser instável, marcada por competição prolongada. Em síntese, o “desespero” é menos um diagnóstico de queda imediata dos EUA e mais um arrastado sintoma de disputa por hegemonia, tecnologias críticas, regras do jogo e influência regional, com efeitos diretos sobre América Latina, Europa e Ásia.
FONTES CONSULTADAS (VERIFICADAS)
✓ AGÊNCIA BRASIL (EBC). Bancos centrais do Brasil e da China assinam acordo de troca de moedas. 12 maio 2025. ✓ ARARIPE, T.; PERUFFO, L.; CUNHA, A. M. O BRICS e a agenda de desdolarização. Ipea, 2025. ✓ BANCO CENTRAL DO BRASIL (BCB). Nota sobre acordo/swap Brasil–China. 12 maio 2025. ✓ BIPARTISAN POLICY CENTER. Foreign Investors Hold a Shrinking Share of U.S. Debt. 4 jun 2025. ✓ BUREAU OF INDUSTRY AND SECURITY (BIS). Commerce Strengthens Restrictions on Advanced Computing Semiconductors. 15 jan 2025. ✓ CAPITAL ECONOMICS. The renminbi’s rise in China’s global transactions. 3 nov 2023. ✓ CONGRESSIONAL RESEARCH SERVICE (CRS). Foreign Holdings of Federal Debt. 2024. ✓ REUTERS. China’s trade surplus tops $1 trillion for first time on non‑US shipments. 8 dez 2025. ✓ AP NEWS. China’s trade surplus tops $1 trillion as its exports surge. 2025. ✓ AL JAZEERA. How did China’s trade surplus hit $1 trillion? 9 dez 2025. ✓ WORLD TRADE ORGANIZATION (WTO). Global trade faces setback amid rising tariffs. 2025. ✓ VARELA, G.; ARBEX JÚNIOR, J. Em Detalhes #564 (videocast). 9 jan 2026.
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