TRUMP, MILEI E FLÁVIO BOLSONARO E A ESTRATÉGIA INTERNACIONAL DE QUESTIONAR AS ELEIÇÕES E ATACAR A SOBERANIA DO BRASIL
- Alexandre Costa

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POR ALEXANDRE COSTA | JORNALISTA Em mais um gesto de pressão política, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump anunciou que prorrogará por um ano as medidas contra o Brasil. A decisão foi publicada nesta terça-feira (28/7) e será oficialmente divulgada no Federal Register, amanhã (29). Embora não imponha novas sanções nem produza efeitos práticos adicionais, a renovação faz parte do cerco montado com objetivo de desestabilizar o governo Lula e tentar interferir no processo eleitoral brasileiro. A medida mantém em vigor a ordem executiva assinada em julho de 2025, que classifica o Brasil como uma ameaça "incomum e extraordinária" à segurança nacional, à política externa e à economia norte-americana. A iniciativa de Trump não apenas preserva a base jurídica utilizada para justificar medidas econômicas, como o aumento de tarifas sobre produtos brasileiros, mas volta a associar o governo Lula, o Supremo Tribunal Federal e o tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro a supostas violações da liberdade de expressão e dos direitos humanos. Os ataques de Flávio Bolsonaro às urnas eletrônicas, as pressões econômicas dos Estados Unidos e a participação do presidente argentino na campanha do filho do ex-presidente revelam uma ofensiva que ultrapassa as fronteiras nacionais. O conluio liderado pelo governo Trump já estabeleceu a narrativa para justificar a derrota de Flávio Bolsonaro nas eleições de outubro próximo.
REPORTAGEM MOSTRA OS RASTROS DEIXADOS PELA EMBAIXADA DOS EUA
A presença do presidente argentino Javier Milei no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, em São Paulo, não pode ser tratada apenas como uma manifestação de afinidade ideológica. Somada às iniciativas do governo de Donald Trump, aos novos ataques contra as urnas eletrônicas e à atuação de aliados do bolsonarismo nos Estados Unidos, ela revela uma tentativa de interferência internacional no processo eleitoral brasileiro.
Reportagem de Dyepeson Martins, publicada pela Agência Pública, revelou que a Embaixada dos Estados Unidos procurou o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcanti, para que ele recebesse dois funcionários do Departamento de Estado norte-americano. Riley Bernes e Samuel Samson pretendiam vir ao Brasil para realizar contatos políticos e discutir, segundo a justificativa diplomática apresentada, eleições e liberdade de expressão. Os vistos foram negados pelo governo brasileiro.
De acordo com informações reunidas pela Pública, os enviados pretendiam conversar com lideranças políticas e produzir avaliações que poderiam colocar em dúvida a integridade do processo eleitoral brasileiro. Sóstenes confirmou o contato da Embaixada, embora tenha afirmado que não fora informado previamente sobre o conteúdo da reunião.
No mesmo dia, a jornalista Natalia Viana, colunista da Pública, apontou que a ofensiva contra as urnas estaria sendo articulada pelo governo Trump em conexão com Flávio e Eduardo Bolsonaro e o influenciador Paulo Figueiredo, radicado nos Estados Unidos. O objetivo seria semear previamente a desconfiança sobre o resultado das eleições e construir uma justificativa política para uma eventual recusa norte-americana em reconhecer uma vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.
As informações não significam que esse desfecho esteja definido. Demonstram, porém, que a contestação eleitoral já começou antes da votação.
O GOLPISMO COMO ESTRATÉGIA PREVENTIVA
O método não é novo. Em 2022, Jair Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para atacar, sem provas, o sistema eletrônico de votação. A conduta contribuiu para sua condenação por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.
Agora, Flávio Bolsonaro retoma o mesmo roteiro. Ao questionar as urnas diante de diplomatas e pedir observadores estrangeiros, o candidato do PL não apresenta evidências de fraude. Esse mecanismo segue uma lógica conhecida: quando a extrema direita vence, o resultado seria a expressão da vontade popular; quando perde, a eleição passa a ser apresentada como fraudulenta. O voto deixa de ser reconhecido como instrumento soberano da população e só é considerado legítimo quando confirma o projeto político de determinado grupo.
A participação de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo nessa articulação amplia sua dimensão internacional. Instalada principalmente nos Estados Unidos, essa rede procura transformar disputas judiciais brasileiras em supostas perseguições políticas, ataques à democracia em defesa da “liberdade” e investigações de crimes em exemplos de lawfare.
O discurso serve tanto para mobilizar a base bolsonarista no Brasil quanto para conquistar apoio político dentro do trumpismo.
MILEI ENTRA NA CAMPANHA BRASILEIRA
A presença de Javier Milei na convenção do PL acrescentou um novo componente à ofensiva. Durante o evento, o presidente argentino atacou Lula, o ministro Alexandre de Moraes e instituições brasileiras. O Itamaraty convocou o embaixador argentino e manifestou repúdio às declarações. O PT também pediu que a Justiça Eleitoral investigue as circunstâncias e o financiamento da viagem, argumentando que a participação de um chefe de Estado estrangeiro em um ato eleitoral pode caracterizar ingerência indevida. Milei não compareceu apenas como amigo da família Bolsonaro. Sua participação ajudou a apresentar Flávio como integrante de uma corrente internacional liderada por Trump e associada a governos, partidos, organizações e comunicadores da extrema direita.
Há, entretanto, uma contradição. Enquanto Milei tenta ocupar o papel de liderança continental, enfrenta crescente desgaste político na Argentina. Da mesma forma, as pressões de Trump sobre o Brasil podem produzir o efeito inverso ao pretendido, fortalecendo a defesa da soberania nacional e expondo Flávio Bolsonaro como candidato apoiado por interesses externos.
CONTEXTO DA NOTÍCIA
Trump, Milei e o bolsonarismo compartilham mais do que afinidades ideológicas. Eles integram uma rede internacional que troca estratégias, discursos, apoio político e que tem uma gigantesca capacidade de mobilização digital. O objetivo dessa articulação é restringir a democracia e atacar a soberania de países que não se curvam ao projeto político liderado por Washington.
Para o Esquina Democrática, defender a democracia brasileira não significa ignorar seus problemas ou impedir críticas ao sistema eleitoral. Porém, acusações devem ser sustentadas por fatos e provas e o de pressões econômicas, campanhas de desinformação ou alianças transnacionais não podem jamais substituir a decisão livre do povo brasileiro.
O QUE OBSERVAR DAQUI PARA FRENTE
A atuação da Justiça Eleitoral, a resposta diplomática do Brasil e os próximos movimentos do governo Trump indicarão se a ofensiva permanecerá no campo da pressão política ou avançará para uma estratégia aberta de contestação do resultado das urnas.
Alexandre Costa é Jornalista e responsável pelo Esquina Democrática.
FONTES PARA CHECAGEM
Agência Pública — reportagem de Dyepeson Martins sobre o contato da Embaixada dos Estados Unidos com o líder do PL.
Agência Pública — análise de Natalia Viana sobre a articulação envolvendo o governo Trump, Flávio e Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo.
Material de pesquisa e textos encaminhados ao Esquina Democrática.






