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SEIS MESES DEPOIS: O QUE DEU ERRADO NA GUERRA DE TRUMP CONTRA O IRÃ?

POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINA DEMOCRÁTICA


Conflito iniciado em 28 de fevereiro não produziu a solução rápida esperada em Washington. Quase seis meses depois, os Estados Unidos enfrentam desgaste militar, pressão sobre estoques de armas, alta dos combustíveis e impasse no Estreito de Ormuz, enquanto precisam deslocar outro porta-aviões para sustentar a operação.


Quando o porta-aviões nuclear USS Abraham Lincoln deixou San Diego, na Califórnia, em novembro de 2025, sua missão estava voltada ao Indo-Pacífico, e não a uma guerra contra o Irã. O cenário mudou em janeiro, quando o crescimento das tensões entre Washington e Teerã levou ao redirecionamento da embarcação para o Oriente Médio. Com o início dos ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel, em 28 de fevereiro, o navio passou a desempenhar papel central na ofensiva americana.[1][2]


Quase seis meses depois, o Abraham Lincoln tornou-se símbolo de uma guerra que se prolongou muito além de uma campanha militar de curta duração. O porta-aviões ultrapassou 260 dias de missão, aproximadamente três meses além do período originalmente previsto, e passou mais de 200 dias sem escala em porto. Sua substituição pelo USS George Washington, deslocado do Pacífico para o Oriente Médio, aparenta ser apenas uma decisão operacional, mas ajuda a revelar um problema estratégico mais amplo: embora os Estados Unidos tenham demonstrado enorme capacidade de provocar danos ao Irã, essa superioridade militar não se converteu, até agora, numa solução política para o conflito.[2][3]


UMA GUERRA QUE NÃO TERMINOU RAPIDAMENTE

Estados Unidos e Israel iniciaram a ofensiva contra o Irã em 28 de fevereiro, atingindo instalações militares e estruturas governamentais. O aiatolá Ali Khamenei, então líder supremo iraniano, foi morto na primeira onda de ataques, assim como integrantes do alto comando militar do país.[1]


O impacto militar foi enorme, mas desde o início havia uma questão que os bombardeios, por si só, não poderiam responder: o que aconteceria depois?


Ao longo dos meses seguintes, Donald Trump apresentou diferentes objetivos para a guerra. Em março, a Associated Press identificava cinco metas declaradas pela Casa Branca e registrava que algumas permaneciam indefinidas ou não cumpridas, apesar de Trump já sugerir que a operação poderia começar a ser encerrada.[4]


Entre as metas estavam destruir a capacidade iraniana de lançar mísseis, atingir sua indústria de defesa, eliminar capacidades navais e aéreas e impedir o desenvolvimento de uma arma nuclear. Meses depois, algumas dessas metas continuavam sem conclusão definitiva.[5]

A mudança de regime ocupou uma posição mais ambígua. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, chegou a afirmar que aquela não era uma guerra para derrubar o governo iraniano, mas Trump, logo após os primeiros ataques, conclamou a população do país a assumir o controle de seu destino. A AP registrou naquele momento que o presidente americano demonstrava esperar uma mudança política em Teerã.[6]


Ela não ocorreu. Mesmo depois da morte de Khamenei e de outros dirigentes, as estruturas centrais do Estado iraniano permaneceram funcionando, e o país escolheu um novo líder supremo. A guerra demonstrava, assim, uma antiga limitação do poder militar: destruir instalações e eliminar dirigentes pode alterar profundamente a correlação de forças, mas não produz automaticamente uma nova ordem política.


QUANDO A SUPERIORIDADE MILITAR ENCONTRA O PROBLEMA DOS ESTOQUES

O prolongamento do conflito começou a produzir consequências também sobre os arsenais norte-americanos. Uma apuração da Reuters publicada em 4 de agosto revelou que os Estados Unidos haviam consumido praticamente todos os estoques disponíveis de determinadas categorias de mísseis de precisão de longo alcance, entre eles ATACMS e PrSM, utilizados para atingir alvos a grandes distâncias.[7]


A pressão alcança igualmente os sistemas defensivos. Estimativas citadas pela Reuters indicam que aproximadamente 65% dos interceptadores Patriot e 38% dos THAAD disponíveis teriam sido utilizados desde o início da guerra, enquanto quase metade do estoque de mísseis de cruzeiro Tomahawk também teria sido empregada.[7]


Os números expõem uma característica central das guerras contemporâneas: a superioridade tecnológica não elimina o problema da reposição. Uma potência pode possuir armamentos extremamente sofisticados, mas precisa ser capaz de fabricá-los numa velocidade compatível com aquela em que um conflito prolongado os consome.


O Pentágono já começou a reagir. No início de agosto, os Estados Unidos fecharam um acordo superior a US$ 3 bilhões com Lockheed Martin e Northrop Grumman para ampliar a produção de componentes destinados aos sistemas Patriot e THAAD.[8] Poucos dias antes, o Exército americano havia anunciado um contrato de até US$ 58,6 bilhões com a Lockheed Martin para produzir interceptadores Patriot PAC-3 MSE.[9]


A indústria de defesa americana possui capacidade para expandir a produção, mas esse processo exige tempo. É justamente o intervalo entre consumir armamentos em grande escala e conseguir repô-los que alimenta preocupações sobre a prontidão dos Estados Unidos diante de outros possíveis conflitos, inclusive envolvendo potências como China e Rússia.[7]


O ABRAHAM LINCOLN TRANSFORMA A ESTATÍSTICA EM GENTE

O desgaste da guerra não aparece apenas nos estoques de mísseis ou nos contratos bilionários da indústria de defesa. Ele também começa a ser percebido dentro dos navios e entre os milhares de militares mobilizados para sustentar a operação.


Reportagem exibida pelo Jornal Nacional e disponibilizada pelo G1 em 16 de agosto, cuja transcrição foi consultada pelo Esquina Democrática, apresentou relatos de familiares de integrantes da tripulação do Abraham Lincoln sobre problemas de encanamento, episódios de contaminação da água, escassez de alimentos e falta de itens básicos de higiene.


Segundo essas famílias, a permanência excepcionalmente longa no mar, associada à pressão da guerra, estaria provocando impactos sobre a saúde mental dos militares.[10]

O relato mais grave diz respeito a tripulantes que teriam tentado se jogar no mar. Segundo o Jornal Nacional/G1, familiares afirmaram ter conhecimento desses episódios.[10] A informação não aparece apenas nessa reportagem: Navy Times e Stars and Stripes também publicaram relatos de militares e familiares sobre tentativas de integrantes da tripulação de se jogar ao mar.[11]


A distinção é importante: os episódios são relatados por familiares e militares ouvidos pela imprensa, enquanto a Marinha dos Estados Unidos afirma não ter identificado aumento de pensamentos ou tentativas de suicídio a bordo do navio.[11]


As denúncias chegaram ao Congresso. O senador democrata Richard Blumenthal cobrou esclarecimentos do Pentágono sobre escassez de itens essenciais, contaminação da água, problemas de encanamento, deterioração da saúde mental e dificuldades no sistema de correspondência. A missão reúne aproximadamente 5 mil marinheiros e fuzileiros navais.[2]


Questionado sobre a situação, Trump minimizou as preocupações. Em 14 de agosto, afirmou que os mais de 260 dias de missão do Abraham Lincoln não eram tempo demais e confirmou que o porta-aviões seria substituído.[2]


Depois de meses de operações, portanto, o Abraham Lincoln deverá finalmente deixar a missão. Sua substituição, entretanto, permite o descanso da tripulação e a manutenção do navio, mas não representa a retirada dos Estados Unidos da guerra.


PARA SUSTENTAR A GUERRA NO IRÃ, UM PORTA-AVIÕES SAI DO PACÍFICO

A substituição produz ainda uma consequência geopolítica que ultrapassa o Oriente Médio. O USS George Washington, escolhido para assumir a função do Abraham Lincoln, estava no Pacífico Ocidental, região considerada estratégica pelos Estados Unidos diante do crescimento militar da China.[12]


Com o deslocamento, o Pacífico Ocidental ficará temporariamente sem um porta-aviões americano baseado à frente. A própria Associated Press destacou que a guerra contra o Irã está pressionando os limites da frota de porta-aviões dos Estados Unidos e afetando a presença militar americana numa região considerada central para a disputa estratégica com Pequim.[12]


A decisão expõe um dilema próprio de uma potência com compromissos militares globais. Embora os Estados Unidos mantenham forças distribuídas por diversas regiões, porta-aviões, tripulações, mísseis e sistemas de defesa continuam sendo recursos finitos. Quanto mais Washington precisa concentrá-los contra o Irã, maior se torna a pressão sobre sua capacidade de responder simultaneamente a crises em outras partes do planeta.


ORMUZ: O PROBLEMA QUE AS BOMBAS NÃO RESOLVERAM

O Estreito de Ormuz talvez seja a demonstração mais clara dos limites encontrados pela estratégia militar. A passagem é uma das principais rotas energéticas do planeta e, antes da guerra, concentrava aproximadamente um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito transportados mundialmente.[13]


Quase seis meses depois do início do conflito, o tráfego permanece prejudicado e as tentativas de alcançar um entendimento entre Washington e Teerã voltaram a um impasse. Em 12 de agosto, a Reuters informou que não havia progresso para reviver o acordo provisório de paz entre os dois países.[14] Dias depois, o Irã sustentava que manteria o controle sobre o estreito, enquanto Trump afirmava que os Estados Unidos estavam próximos de controlá-lo.[15]


Washington possui capacidade militar muito superior à iraniana, mas restabelecer permanentemente a normalidade de uma passagem marítima dessa importância exige mais do que destruir alvos. Depende também de uma solução diplomática capaz de produzir compromissos que as partes aceitem cumprir — e ela ainda não apareceu.


A GUERRA CHEGOU AO POSTO DE GASOLINA

As consequências do conflito também ultrapassaram o campo militar e chegaram ao cotidiano dos consumidores americanos. Em 14 de agosto, Trump reconheceu publicamente que os preços dos combustíveis permaneciam elevados e pediu aos americanos que aceitassem esse custo como consequência do enfrentamento com o Irã.

Segundo a Reuters, a gasolina nos Estados Unidos estava 29% mais cara do que um ano antes.[15] No mesmo dia, o petróleo Brent fechou a US$ 88,52 por barril, pressionado pelos ataques contra navios e pela falta de avanço nas negociações de paz.[16]


Uma guerra destinada a impor custos ao Irã passou, portanto, a cobrar também um preço econômico dos Estados Unidos. O alcance político dessa pressão dependerá da duração do conflito, da trajetória da inflação e da avaliação dos americanos sobre os resultados obtidos, mas a situação já expõe uma contradição importante para um presidente que construiu parte de seu discurso político criticando o envolvimento do país em guerras prolongadas.


O IRÃ TAMBÉM PAGA UM PREÇO ENORME

Reconhecer as dificuldades americanas não significa concluir que o Irã esteja vencendo. Teerã sofreu destruição de infraestrutura, perdeu dirigentes políticos e militares de primeiro escalão e teve sua capacidade militar atingida. Estados Unidos e Israel estabeleceram superioridade aérea sobre grande parte do território iraniano, e avaliações posteriores apontaram redução significativa de diferentes capacidades militares do país.[5]


Declarar uma vitória iraniana seria, portanto, tão precipitado quanto apresentar a ofensiva americana como bem-sucedida apenas pela magnitude dos danos produzidos.

A questão central está justamente na diferença entre capacidade militar de destruição e capacidade política de alcançar os objetivos de uma guerra. Os Estados Unidos demonstraram que conseguem atingir instalações e estruturas fundamentais do adversário, enquanto o Irã preservou meios de resistência, capacidade de pressionar a navegação regional e condições políticas para manter o Estado em funcionamento. Cada lado conseguiu impor custos ao outro, mas nenhum deles transformou essa capacidade numa solução duradoura para o conflito.


AFINAL, O QUE DEU ERRADO?

A resposta parece estar menos na capacidade militar demonstrada pelos Estados Unidos do que na expectativa de que essa superioridade seria suficiente para produzir, rapidamente, os resultados políticos pretendidos. Desde o primeiro dia da ofensiva, Washington mostrou poder para atingir instalações estratégicas, destruir estruturas militares e eliminar dirigentes do mais alto escalão iraniano. Quase seis meses depois, porém, a distância entre capacidade de destruição e êxito político tornou-se uma das principais contradições da guerra.


O Estado iraniano não entrou em colapso e preservou capacidade suficiente para prolongar sua resistência e continuar impondo custos aos adversários. Ao mesmo tempo, o Estreito de Ormuz permanece como foco de instabilidade, os estoques americanos de determinados armamentos foram fortemente pressionados pelo ritmo das operações, os combustíveis ficaram mais caros nos Estados Unidos e as negociações diplomáticas ainda não conseguiram estabelecer uma saída para o conflito. A necessidade de deslocar outro porta-aviões através de oceanos para manter a operação acrescenta uma dimensão concreta ao desgaste provocado por uma guerra que se prolongou muito além de uma campanha militar de curta duração.


Quando deixou San Diego, em novembro de 2025, o Abraham Lincoln seguia para uma missão no Pacífico. O redirecionamento para o Oriente Médio alterou não apenas seu destino, mas também a duração da missão e as condições enfrentadas por milhares de militares a bordo. A guerra concebida para demonstrar a superioridade militar americana acabou evidenciando também uma limitação comum a qualquer potência: homens, máquinas, munições, recursos financeiros e tempo não são infinitos, e a capacidade de prolongar um conflito não significa necessariamente possuir uma estratégia capaz de encerrá-lo.


Agora, o George Washington atravessa oceanos para substituir o Abraham Lincoln, permitindo que o navio e sua tripulação finalmente deixem uma missão que se estendeu muito além do inicialmente previsto. Washington consegue substituir o porta-aviões; o problema ainda sem resposta é como substituir uma estratégia que, quase seis meses depois do início da guerra, demonstrou enorme capacidade de destruição, mas não conseguiu converter essa superioridade militar em paz nem alcançar todos os objetivos anunciados.


FONTES PARA CHECAGEM

[1] AGÊNCIA PÚBLICA — 28 DE FEVEREIRO DE 2026O que comprova: início da ofensiva conjunta de Estados Unidos e Israel em 28 de fevereiro; ataques a instalações militares e estruturas governamentais; morte de Ali Khamenei e de integrantes do alto comando iraniano.


[2] REUTERS — 14 DE AGOSTO DE 2026O que comprova: mais de 260 dias de missão do Abraham Lincoln, aproximadamente três meses além do previsto; mais de 200 dias sem escala; cerca de 5 mil militares a bordo; denúncias de familiares e cobrança de parlamentares; reação de Trump.


[3] ASSOCIATED PRESS — 14 DE AGOSTO DE 2026O que comprova: deslocamento do USS George Washington para substituir o Abraham Lincoln e preocupações com saúde mental e condições da tripulação.


[4] ASSOCIATED PRESS — 30 DE MARÇO DE 2026O que comprova: cinco objetivos apresentados por Trump para a guerra e existência, naquele momento, de metas indefinidas ou ainda não alcançadas.


[5] ASSOCIATED PRESS — 12 DE JUNHO DE 2026O que comprova: avaliação das principais metas militares anunciadas pelos EUA e resultados obtidos ou ainda incompletos.


[6] ASSOCIATED PRESS — 1º/2 DE MARÇO DE 2026O que comprova: ambiguidade em torno da mudança de regime: Hegseth negou que esse fosse formalmente o objetivo da guerra, enquanto Trump conclamou iranianos a assumir o controle do país.


[7] REUTERS — 4 DE AGOSTO DE 2026O que comprova: forte redução dos estoques de mísseis de precisão de longo alcance; estimativas sobre Patriot, THAAD e Tomahawk; preocupação com a prontidão americana para outros conflitos.


[8] REUTERS — 3 DE AGOSTO DE 2026O que comprova: acordo superior a US$ 3 bilhões para ampliar a produção de componentes de interceptadores Patriot e THAAD.US signs deal to boost Patriot and THAAD missile parts production — Reuters

[9] REUTERS — 29 DE JULHO DE 2026O que comprova: contrato de até US$ 58,6 bilhões para produção de interceptadores Patriot PAC-3 MSE.US strikes $58.6 billion Patriot missile deal — Reuters


[10] JORNAL NACIONAL/G1 — 16 DE AGOSTO DE 2026O que comprova: problemas de encanamento, relatos de contaminação da água, escassez de alimentos e itens de higiene, impacto sobre a saúde mental e relatos de familiares de militares que teriam tentado se jogar no mar. Observação: fonte primária desta referência é a reportagem do Jornal Nacional/G1 cuja transcrição foi fornecida à Redação. https://www.facebook.com/reel/1336164005300627


[11] UOL — 13 DE AGOSTO DE 2026 / NAVY TIMES E STARS AND STRIPESO que comprova: relatos de tentativas de tripulantes de se jogar ao mar, condições da embarcação e posição oficial da Marinha de que não identificou aumento de pensamentos ou tentativas de suicídio.


[12] ASSOCIATED PRESS — 15 DE AGOSTO DE 2026O que comprova: saída do George Washington do Pacífico Ocidental para o Oriente Médio e repercussões para a presença naval americana diante da China.


[13] REUTERS — 7 DE AGOSTO DE 2026O que comprova: importância energética do Estreito de Ormuz, por onde passava aproximadamente um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito transportados mundialmente antes da guerra.


[14] REUTERS — 12 DE AGOSTO DE 2026O que comprova: ausência de avanço para reativar o acordo provisório entre Estados Unidos e Irã.


[15] REUTERS — 14/15 DE AGOSTO DE 2026O que comprova: impasse sobre Ormuz; ausência de progresso nas conversações; declarações de Trump sobre os preços dos combustíveis; gasolina 29% acima do valor de um ano antes.


[16] REUTERS — 14 DE AGOSTO DE 2026O que comprova: Brent a US$ 88,52 por barril, ataques a petroleiros e ausência de avanço nas negociações para encerrar a guerra.


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