GUERRA SEM FIM? NOVOS ATAQUES DE ISRAEL DEIXAM 11 MORTOS NO LÍBANO EM MEIO A NEGOCIAÇÕES DE PAZ
- Alexandre Costa

- há 8 horas
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POR REDAÇÃO | ESQUINA DEMOCRÁTICA
Bombardeios israelenses no sul do Líbano, neste sábado (15/8), mataram 11 pessoas, sendo três crianças e duas mulheres. Agência iraniana denuncia novo uso de fósforo branco, enquanto Israel e Hezbollah trocam acusações, segue o impasse sobre retirada de tropas e desarmamento, ameaçando o cessar-fogo.

Cessar-fogo, negociações, novos ataques e novamente mortes de civis. A sequência que há anos acompanha o conflito entre Israel e o Hezbollah voltou a se repetir neste sábado (15/8), no sul do Líbano, colocando outra vez em dúvida a capacidade dos acordos diplomáticos de interromper a violência.
Ataques israelenses contra as regiões de Ansar e Deir al-Zahrani mataram pelo menos 11 pessoas. Segundo autoridades libanesas, entre as sete vítimas de uma casa atingida em Ansar estavam três crianças e duas mulheres. Pelo menos 19 pessoas ficaram feridas nos ataques.[1]
As Forças Armadas israelenses afirmaram que a operação atingiu infraestrutura do Hezbollah e que matou Ali Samir Al-Haj Hassan, comandante da unidade de elite Força Radwan. Israel disse que familiares estavam no local, mas não eram alvos da operação. O governo israelense justificou os bombardeios como resposta a um ataque do Hezbollah que deixou três soldados feridos.[1]
O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, contestou a justificativa israelense e afirmou que mulheres e crianças mortas em Ansar não eram “infraestrutura militar”. O presidente Joseph Aoun avaliou que a ofensiva envia uma mensagem negativa justamente quando estão em andamento esforços diplomáticos para implementar os acordos.[1]
O Hezbollah prometeu responder e voltou a rejeitar seu desarmamento enquanto tropas israelenses permanecerem em território libanês.
NOVA DENÚNCIA DE USO DE FÓSFORO BRANCO
A agência iraniana Fars informou neste sábado que forças israelenses também utilizaram projéteis contendo fósforo branco no sul do Líbano. Até a publicação desta reportagem, o Esquina Democrática não encontrou confirmação independente que permita estabelecer que fósforo branco tenha sido empregado especificamente nos ataques deste sábado.
A denúncia, entretanto, ocorre em um contexto no qual o uso desse tipo de munição por Israel no Líbano já foi documentado anteriormente por organizações internacionais. Em março deste ano, a Human Rights Watch verificou e geolocalizou oito imagens que mostravam munições de fósforo branco disparadas pela artilharia israelense sobre uma área residencial de Yohmor, no sul libanês. A organização classificou aquele emprego da substância sobre residências como ilegal segundo o direito internacional humanitário.[2]
Não era a primeira ocorrência.
A mesma organização já havia documentado o uso de fósforo branco por Israel em pelo menos 17 municípios do sul do Líbano entre outubro de 2023 e junho de 2024, incluindo cinco localidades povoadas onde munições explodiram no ar.[3]
O fósforo branco entra em combustão quando exposto ao oxigênio e pode provocar queimaduras profundas, incêndios e graves danos respiratórios. Seu uso não é proibido em todas as circunstâncias pelo direito internacional, podendo ser empregado, por exemplo, para produzir cortinas de fumaça. Mas seu emprego por explosão aérea em áreas povoadas pode configurar ataque indiscriminado e violar as obrigações de proteção aos civis.[3]
Essa distinção é importante para não afirmar simplesmente que “fósforo branco é uma arma proibida”, o que seria juridicamente impreciso.
DESCUMPRIMENTO DO CESSAR-FOGO
O ataque deste sábado expõe o principal problema das sucessivas tentativas de interromper o conflito: Israel e Hezbollah discordam justamente sobre a ordem em que as principais obrigações devem ser cumpridas.
Israel condiciona sua retirada do território libanês ao desarmamento do Hezbollah.
O Hezbollah sustenta o contrário: rejeita discutir o desarmamento enquanto forças israelenses permanecerem no Líbano.
O acordo mediado pelos Estados Unidos prevê uma retirada israelense em etapas, vinculada ao desarmamento dos grupos armados não estatais e à transferência do controle territorial para o Exército libanês. As negociações continuam, inclusive sobre um mecanismo internacional destinado a verificar esse processo.[4]
Nesta semana, o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, afirmou que Israel não deixará as áreas que controla no sul libanês até que o Hezbollah seja desarmado. Os Estados Unidos responderam que uma presença militar israelense permanente seria incompatível com os compromissos assumidos no acordo.[5]
Forma-se, assim, um impasse circular: Israel afirma que não se retira enquanto o Hezbollah mantiver suas armas. O Hezbollah afirma que não entrega suas armas enquanto Israel não se retirar. No meio desse impasse estão as populações civis.
DISTANTE DA PAZ
A própria Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL), responsável por monitorar a cessação das hostilidades e apoiar a implementação da Resolução 1701 do Conselho de Segurança, continuou registrando violações mesmo durante períodos de redução da violência.[6]
A Resolução 1701 estabelece, entre outros pontos, a cessação das hostilidades, o respeito à chamada Linha Azul e o fortalecimento da autoridade do Estado libanês no sul do país. A ONU também já pediu a retirada das forças israelenses das posições mantidas em território libanês e que não existam armas ou autoridade no país além daquelas submetidas ao governo do Líbano.[7]
É justamente aí que está parte da dificuldade. Um cessar-fogo interrompe ou reduz os combates, mas não resolve automaticamente as causas políticas e militares que produziram a guerra. Sem acordo sobre retirada territorial, desarmamento, segurança da fronteira, autoridade do Estado libanês e mecanismos capazes de verificar e fazer cumprir os compromissos assumidos, cada novo ataque pode produzir uma retaliação — e cada retaliação pode servir de justificativa para a seguinte.
O resultado é uma paz permanentemente adiada. Neste sábado, ela foi novamente substituída por bombardeios, mortos e feridos. E enquanto as partes discutem quem deve cumprir primeiro sua parcela do acordo, são os civis que continuam pagando primeiro o preço de seu descumprimento.
FONTES PARA CHECAGEM
[1] ASSOCIATED PRESS — ATAQUES DE 15 DE AGOSTO DE 2026O que comprova: 11 mortos; três crianças e duas mulheres entre as vítimas; ataques a Ansar e Deir al-Zahrani; justificativa israelense; reação das autoridades libanesas e do Hezbollah.
AP — Israeli airstrikes on southern Lebanon kill 11 people in another test to truce
[2] HUMAN RIGHTS WATCH — FÓSFORO BRANCO NO LÍBANO EM MARÇO DE 2026O que comprova: verificação e geolocalização do uso de fósforo branco israelense sobre área residencial de Yohmor em 3 de março de 2026 e avaliação jurídica da organização. Human Rights Watch — Lebanon: Israel Unlawfully Using White Phosphorus
[3] HUMAN RIGHTS WATCH — DOCUMENTAÇÃO DO USO DE FÓSFORO BRANCO O que comprova: uso documentado em 17 municípios do sul libanês; riscos para civis; características do fósforo branco e limites impostos pelo direito humanitário. Human Rights Watch — Israel’s White Phosphorus Use Risks Civilian Harm
[4] REUTERS — NEGOCIAÇÕES SOBRE RETIRADA E DESARMAMENTO O que comprova: estrutura das negociações mediadas pelos EUA, retirada gradual israelense, desarmamento do Hezbollah e discussão sobre mecanismo internacional de verificação. Reuters — negociações sobre verificação do desarmamento
[5] REUTERS — IMPASSE ENTRE RETIRADA E DESARMAMENTOO que comprova: posição israelense de condicionar a retirada ao desarmamento do Hezbollah e posição americana sobre a permanência de tropas israelenses.
Reuters — Israel ties Lebanon withdrawal to Hezbollah disarmament
[6] UNIFIL — SITUAÇÃO NO SUL DO LÍBANO O que comprova: continuidade das violações mesmo após redução da violência e papel da missão na monitoração do cessar das hostilidades. UNIFIL — As violence declines, peacekeepers step up support
[7] CONSELHO DE SEGURANÇA/UNIFIL — RESOLUÇÃO 1701 E RETIRADA ISRAELENSE
O que comprova: exigência de cessação das hostilidades, retirada israelense, autoridade do Estado libanês e ausência de forças armadas fora do controle estatal.
UNIFIL — Security Council Resolution 2790
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