RESGATE DA MEMÓRIA E DEFESA DA DEMOCRACIA MARCAM SEGUNDA EDIÇÃO DO PRÊMIO RUBENS PAIVA DA AEPPP-RS
- Alexandre Costa

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Atualizado: há 24 horas
AEPPP-RS reúne diferentes gerações de resistência e homenageia trajetórias ligadas à luta contra as ditaduras, aos direitos humanos, ao jornalismo, à educação e à preservação da memória

POR ALEXANDRE COSTA | JORNALISTA A segunda edição do Prêmio Rubens Paiva – Memória, Verdade e Justiça foi um encontro entre passado, presente e futuro. Realizada na noite de quinta-feira, 3 de setembro, na sala Adão Pretto da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e promovida pela Associação dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Rio Grande do Sul (AEPPP-RS), a entrega das estátuas criadas pelo artista plástico, Mário Padreira, reuniu diferentes gerações e algumas das trajetórias que ajudam a contar mais de meio século de resistência às ditaduras e de luta pela democracia no Brasil e na América Latina.
Ao recuperar essas memórias, a premiação também trouxe para o presente questões que permanecem atuais, como a defesa dos direitos humanos e o papel do jornalismo, da arte e da educação na preservação da memória e na compreensão do momento político vivido pelo país. Mais do que recordar o passado, a noite mostrou que conhecer essa história é também uma forma de pensar o presente e construir o futuro.
O prêmio reconheceu Flávio Tavares e Flávio Koutzii, na categoria Ex-Presos e Perseguidos Políticos; Tarso Genro, em Defensores dos Direitos Humanos; a Comissão da Memória e da Verdade Enrique Serra Padrós, da UFRGS, em Entidades de Direitos Humanos; o Esquina Democrática, em Meios de Comunicação e Comunicadores; e a atriz e educadora Marta Haas, integrante da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, na categoria Juventude.
A premiação leva o nome do ex-deputado federal Rubens Paiva, cassado, preso e assassinado pela ditadura militar. Seu desaparecimento e a luta da família para conhecer a verdade sobre o crime transformaram sua trajetória em um dos símbolos da violência praticada pelo Estado durante o regime e da luta por memória, verdade e justiça.
NOITE DE HOMENAGENS
Na abertura, o presidente da AEPPP-RS, jornalista Sérgio Bitencourt, lembrou a importância histórica da Assembleia Legislativa para os movimentos de resistência e agradeceu a acolhida da instituição. “Foi nessa casa que nós organizamos toda a resistência”, afirmou.
A cerimônia também prestou tributo a dois nomes que morreram recentemente: o ex-preso político Adão Soares e o jornalista Carlos Henrique Esquivel Bastos. Bitencourt recordou a prisão e as torturas sofridas por Soares e sua participação na organização dos ex-presos e perseguidos políticos. Ao lembrar Bastos, definiu o jornalista como um “trabalhista histórico”, presente nos momentos em que foi necessário organizar a resistência à ditadura.
“SÓ OS QUE NÃO SABEM O QUE FOI UMA DITADURA DEFENDEM A DITADURA”

Um dos momentos de maior impacto da noite ocorreu com Flávio Tavares. Jornalista, escritor e ex-preso político, ele iniciou agradecendo o reconhecimento, mas relativizou o próprio protagonismo: “Eu apenas cumpri o meu dever de cidadão brasileiro.” Tavares recordou sua participação na resistência à ditadura e fez uma autocrítica sobre a opção pela luta armada. Segundo ele, as organizações que enfrentaram o regime não conseguiram obter o apoio popular necessário por suas próprias limitações. “O erro foi nosso, não do povo brasileiro”, afirmou.
O jornalista também relatou as prisões e torturas sofridas no Brasil e seu sequestro no Uruguai, em 1977. Durante o período em que esteve nas mãos da repressão uruguaia, permaneceu algemado e vendado e foi submetido a três fuzilamentos simulados. Ao recordar uma dessas experiências, resumiu a dimensão da violência sofrida: “Naquele momento eu morri.”
Ao falar sobre Rubens Paiva, Tavares revelou que o então deputado federal havia sido seu “principal informante” quando trabalhava como comentarista político do jornal Última Hora, em Brasília. Recordou que Paiva tinha acesso a informações do governo João Goulart e lamentou que, depois de preso e assassinado pela ditadura, nem mesmo seu corpo tenha sido entregue à família.
No encerramento, Tavares mencionou a existência, ainda hoje, de políticos que defendem o regime militar e fez uma advertência: “Só os que não sabem o que foi uma ditadura, ou o que é uma ditadura, defendem a ditadura.”
KOUTZII: DA RESISTÊNCIA AO NAZISMO AO ALERTA CONTRA A ULTRADIREITA

A trajetória de Flávio Koutzii também foi marcada pela perseguição política. Militante estudantil, perseguido pela ditadura brasileira, deixou o país em 1970. Na Argentina, voltou a enfrentar a repressão e permaneceu preso entre 1975 e 1979. Libertado depois de uma campanha internacional, seguiu para a França e posteriormente retornou ao Brasil. A experiência dos cárceres argentinos seria registrada no livro Pedaços de Morte no Coração.
Ao receber o prêmio, Koutzii buscou na própria formação as referências que ajudaram a definir suas escolhas políticas. Contou que cresceu ouvindo do pai duas histórias que considerava suas “canções de ninar”: a resistência do Gueto de Varsóvia e a Batalha de Stalingrado contra o nazismo.
Também recordou as lutas anticoloniais que marcaram a geração dos anos 1960 e destacou a resistência do Vietnã diante dos Estados Unidos, descrevendo o país como “um país de bambu, mas com nervos de aço e moral de ferro”. Koutzii relacionou essas experiências históricas à formação de uma geração que enfrentaria as ditaduras latino-americanas. Mais tarde, já no Brasil, foi vereador de Porto Alegre, deputado estadual por quatro mandatos e chefe da Casa Civil no governo Olívio Dutra.
A parte final de seu discurso foi dedicada ao avanço contemporâneo da ultradireita. Para Koutzii, valores elementares vêm sendo sistematicamente atacados, num processo que classificou como “um assalto à razão” e “um convite permanente à irracionalidade, à brutalidade e à violência”.
Sem apresentar respostas prontas para os desafios atuais, apontou na experiência histórica uma referência: “A consciência do vivido, do lutado, do resistido e dos valores que permitiram isso são aquelas que vão permitir também enfrentar circunstâncias do presente para construir a possibilidade de um melhor futuro.”
TARSO GENRO: O ESTADO É QUEM DEVE PEDIR PERDÃO

Ao receber o prêmio na categoria Defensores dos Direitos Humanos, Tarso Genro recuperou outro capítulo da disputa brasileira pela memória: a política de anistia. O ex-governador e ex-ministro da Justiça recordou as mudanças realizadas na Comissão de Anistia e sintetizou a concepção que passou a orientar o processo de reparação aos perseguidos políticos: “A anistia era um pedido de perdão do Estado.”
A inversão é fundamental: não se tratava de o Estado perdoar aqueles que resistiram à ditadura, mas de reconhecer a responsabilidade estatal pelas perseguições e violações praticadas. Tarso também recordou as Caravanas da Anistia, realizadas em universidades e outros espaços públicos para levar essa discussão à sociedade.
MEMÓRIA PARA PERMANECER NA UNIVERSIDADE

A Comissão da Memória e da Verdade Enrique Serra Padrós, da UFRGS, recebeu o prêmio na categoria Entidades de Direitos Humanos. Ao falar em nome da Comissão, a professora Roberta Baggio destacou o trabalho de investigação desenvolvido na universidade, que já realizou duas audiências públicas e ouviu dezenas de testemunhas.
Mais do que concluir um relatório, entretanto, Baggio apontou o desafio de transformar a memória em compromisso permanente da instituição: “O grande desafio não é a entrega do relatório em si, mas enraizar dentro da universidade um espaço permanente de reflexão sobre o que aconteceu.”
Já a reitora da UFRGS, Márcia Barbosa afirmou que o momento representava o reconhecimento da coragem de quem compreendeu, “no tempo certo”, a necessidade de reagir ao autoritarismo.
JORNALISMO E DEMOCRACIA

Na categoria Meios de Comunicação e Comunicadores, o prêmio foi concedido ao Esquina Democrática, que completa 21 anos de jornalismo independente. Ao receber a homenagem, o jornalista Alexandre Costa ressaltou o trabalho dos veículos alternativos. "Somados, somos uma importante e potente engrenagem coletiva de comunicação. Além de gerar conteúdo, cumprimos o papel de fazer contraponto ao jornalismo e à imprensa tradicional".
Alexandre mencionou a trajetória do próprio pai, Bruno Mendonça Costa, preso e torturado durante a ditadura. Também relacionou a luta por memória às ameaças que continuam presentes na democracia brasileira. O discurso terminou com uma afirmação que recuperou uma palavra de ordem histórica da resistência: “Fascistas, golpistas, não passarão.”
ARTE, EDUCAÇÃO E AS NOVAS GERAÇÕES

A ligação entre memória e futuro ganhou outra dimensão com a homenagem à atriz e educadora Marta Haas, da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, na categoria Juventude.
A entrega foi feita por Sônia Haas, irmã de João Carlos Haas Sobrinho, médico desaparecido durante a Guerrilha do Araguaia. Ao entregar a homenagem, Sônia pediu que Marta “siga a caminhada em nome de João Carlos”.
Marta levou para a cerimônia a arte como forma de transmissão da memória. Ao ler o poema Não se escolhe, de Gioconda Belli, recuperou uma frase que sintetizou também o sentido de sua homenagem: “Todos temos um dever de amor a cumprir, uma história a fazer nascer.”
“O QUE A VIDA QUER DA GENTE É CORAGEM”

Ao final, depois de uma noite atravessada pelas histórias de quem enfrentou prisões, torturas, clandestinidade e exílio, mas também pela presença de uma geração que assume a responsabilidade de preservar essa memória, Sérgio Bitencourt falou da “densidade emocional e política” da cerimônia.
Para encerrar, recorreu a Guimarães Rosa:
“O real não está na saída nem na chegada. Ele se dispõe para a gente no meio da travessia. O que a vida quer da gente é coragem.” 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA
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