OS INTERESSES POR TRÁS DO MEU VOTO, POR LUIZ INÁCIO GAIGER*
- Alexandre Costa

- há 10 horas
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Atualizado: há 10 horas

Porto Alegre, 7 de setembro de 2026.
Prá lá de inspirado numa recente crônica de Martha Medeiros (Jornal ZH, 04.09.26), apresento o meu voto nessas eleições, guiado pelos meus interesses.
Sou um homem, branco e heterossexual como ela. Cresci cercado de livros e enciclopédias, com domingos de passeios pela natureza, viagens em campings e muitos churrascos. Colégios particulares e cursos de inglês pagos pela família; cursos de Engenharia e de História na UFRGS; depois, mais de seis anos na Europa, com bolsas de lá e de cá (graças ao CNPq) para cursar Especialização, Mestrado, Doutorado e, mais tarde, pós-doutorado em Sociologia.
Hoje, me comunico em quatro idiomas. Com 43 anos de contribuição, protegido pela CLT, deixei meu vínculo formal de trabalho sem nenhuma preocupação quanto à renda, à saúde etc. Trabalho por minha conta, quando quero, sem disputar vagas com quem precisa. Duas casas e um carro icônico, meu luxo ambulante há oito anos, que não quero vender. Viagens frequentes por vários recantos do mundo e por esse imenso Brasil. Na vida diária, uma faxineira diligente, nutricionista, professora de academia, professora de dança, médicas e médicos de alto nível, oficina mecânica e lavagem automotiva de ponta, uma verdadeira equipe de cuidadores!
Está bom assim? Mas tem mais: nenhuma mulher levantou a mão contra mim, salvo para arrumar o meu cabelo ou aproximar seus lábios. Dos namoros e casamentos, meus e dos meus irmãos, herdei afetos sem limite, sogros bondosos, cunhadas mega parceiras, sobrinhas sorridentes prontas para viver, afilhados cheios de ternura, pessoas a amar para sempre!
Muitas delas estão na batalha ou com a vida por fazer. Sem CLT, sem carreiras ascensionais seguras, sem um futuro radioso à frente, a menos que nós, que o tivemos ou temos nesse presente conturbado, façamos deles os nossos interesses. E quem dirá dos tantos mais brasileiros vítimas de toda sorte de discriminação e desamor, da fome e da violência, da opressão e do esquecimento.
No Brasil, campeão das desigualdades e atrocidades, não faltam deserdados da terra a clamarem por um gesto nosso, por um olhar, uma mão e... um voto! Sei por ser observador, por dever de ofício como sociólogo, por inúmeros estudos e pesquisas. Avião, ônibus, jipe, barco, mula e meus pés já me conduziram a lugares ermos inimagináveis, para encontrar pessoas azuis de tão pretas, sorridentes como o brilho da lua, a me tratarem como um rei e contarem suas histórias. Calando em mim a convicção de que, se escolher alguém para me proteger, será uma mulher pobre, negra e andada, pois nelas reside o mais alto grau de humanidade com o qual podemos contar.
Mas, para acertar, é preciso considerar nossa história e como funciona o sistema político no qual elegemos alguns candidatos. O que os dados dizem sobre fome, saúde, educação, segurança, emprego, preservação ambiental, infraestrutura, inclusão social e tantos outros, ao comparar governos? São os dados e as estatísticas, bem compreendidos, que devem nos guiar, e não apenas as opiniões; do contrário, não saberíamos nem quantos somos.
E qual coalizão de partidos obteve os melhores resultados? Nenhum presidente governa sozinho, nem nenhum partido. Quem está com quem? Conheço candidatos com desempenho e compromissos louváveis; o problema é estarem em partidos comprometidos com interesses opostos, em siglas (como o PL, caso mais notório e bem documentado) campeãs em processos, afastamentos e condenações de prefeitos, vereadores, deputados e por aí vai.
A resposta às duas questões existe: partidos considerados de esquerda mostram melhor desempenho, ao passo que os da direita (que governaram o país muito mais tempo e promoveram golpes de Estado várias vezes) penam, quando não destroem o que foi feito antes. Governam para si, para suas elites.
Nós que estamos bem, nada temos a temer da esquerda. Nenhuma das desgraças anunciadas caso ela estivesse no poder, no plano da democracia ou dos costumes, se realizou. E, no plano mais geral da geopolítica, o medo do comunismo, por exemplo, explica-se hoje apenas por uma grande desinformação. O comunismo foi a utopia de uma sociedade sem classes, que algumas revoluções tentaram implantar, sem sucesso, deixando esse nome em alguns partidos e em alguns regimes autoritários, em menor número do que os de direita. Dessa história, no presente resta a China (socialista, é outra coisa) mostrando-se muito superior aos demais países e operando não pela guerra, mas pela integração econômica.
Resta ainda o argumento de uma necessária renovação, contra alguém que se candidata ao seu quarto mandato. OK, mas isso não pode ser pela via do retrocesso ou da aventura, já tentada em 2018, pois atirar-se no precipício não salva ninguém, tanto menos de inimigos imaginários. Por escassa maioria, os norte-americanos fizeram essa bobagem duas vezes e estão duplamente arrependidos.
Deveria eu votar em quem defende os meus interesses particulares? Eles estão todos OK. Mesmo não sendo assim, educado que fui numa religião que prima pela caridade, não poderia jogá-los contra as necessidades básicas da maioria esmagadora das pessoas do nosso país. Com décadas de privilégios, preciso muito menos de atenção do governo do que elas.
Plagiando Martha Medeiros, votarei em quem possa “impedir a escalada do retrocesso, da ignorância e da irresponsabilidade de indivíduos que nunca conceberam um projeto social de inclusão e negam evidências científicas”. Que fazem do Estado uma máquina de drenar riqueza para si, que fazem pose de vítima ao mesmo tempo em que se beneficiam de incentivos fiscais, tributação diferenciada e tudo mais, em volumes sequer imaginados pelos nossos pobres do Bolsa Família. Que se aliam ao crime organizado e a governos de outros países que praticam invasões, guerras, desrespeito aos direitos humanos e genocídios.
Há poucos dias, o jogador dinamarquês que atua no Grêmio declarou que se sente profundamente chocado e triste com o que vê aqui. Países exemplares, como a Noruega e a Dinamarca, saíram da pobreza porque olharam para os pobres, sem simplesmente deixá-los virarem-se por conta própria. O Brasil vai decolar apenas se reconhecermos e darmos preferência às necessidades e aos interesses das pessoas mantidas à margem ou simplesmente fora do jogo. É com a emancipação delas que devemos nos comprometer nesse dia 7 de setembro. E confirmar, em 4 de outubro.
*Luiz Inácio Gaiger é Graduado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1981), mestre e doutor em Sociologia pela Université Catholique de Louvain (1986, 1991), com pós-doutorado na Bélgica e no Canadá; e pesquisador da economia solidária. 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA
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