REPÓRTERES PRECISAM DETALHAR A HISTÓRIA DO “RISCO ELEITORAL BRASILEIRO”, POR CARLOS WAGNER*
- Alexandre Costa

- há 17 horas
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Não me lembro quem foi que disse a frase. Mas me lembro onde foi dita e o contexto político da época. Foi falada em um boteco, numa mesa de jornalistas cheia de garrafas vazias, nas primeiras semanas após a publicação da atual Constituição, em 5 de outubro de 1988, numa agradável noite de primavera em Porto Alegre, a capital dos gaúchos. E o contexto político era complicado. A Constituição oficializou a retirada do poder dos militares que haviam dado o golpe de estado em 1964 e durante 21 anos investiram de maneira violenta contra os políticos gaúchos porque o Rio Grande do Sul era terra do inimigo número um dos golpistas: Leonel de Moura Brizola (1922 – 2004), do antigo PTB, ex-governador do estado e articulador da Legalidade – matérias na internet. Os militares e seus aliados deixaram o poder. Mas por não terem sido julgados e presos pelos crimes que cometeram eles continuaram articulando nas sombras a retomada do poder. Como explicar o emaranhado desse contexto para o leitor? A frase que ouvi mostrou o caminho para dar a explicação: “Temos que explicar a situação para o leitor como se ele fosse um ET que desceu na Terra e foi na banca comprar um jornal para saber dos acontecimentos”.
Lembrei-me da história do ET no amanhecer de sábado (15), dia que começou a campanha eleitoral. Vamos conversar sobre o assunto. A imprensa resumiu o atual contexto político e econômico das eleições de 2026 numa expressão: “O risco eleitoral brasileiro”. A história precisa ser melhor explicada. Assim como está sendo contada faz parecer que o Brasil é uma república de bananas, expressão que se usa para descrever um país fraco e instável. Os resquícios de instabilidade política que existiam no Brasil foram liquidados com a Constituição de 1988, que deu instrumentos para a Justiça lidar com alguém que tente repetir o golpe de 1964. Em 6 de janeiro de 2021 aconteceu um episódio nos Estados Unidos que jamais se pensou que pudesse acontecer em uma democracia de mais de 200 anos. No fim do seu primeiro mandato, o presidente Donald Trump (republicano), 80 anos, que havia concorrido à reeleição e sido derrotado por Joe Biden (democrata), 83 anos, incentivou seus seguidores a invadir o Capitólio (o prédio do Congresso), em Washington, D.C., com o objetivo de impedir a oficialização da vitória de Biden. Houve muitos feridos e cinco mortes. Mais de mil pessoas foram presas. Todas foram anistiadas por Trump dias depois dele assumir o seu segundo mandato, em 20 de janeiro de 2025. No Brasil, em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro (PL), 71 anos, concorreu à reeleição e foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos. Bolsonaro e seus seguidores organizaram um golpe de estado que consistia em vários atos públicos que tinham como objetivo impedir a posse de Lula. O maior e mais visível aconteceu em 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas que estavam acampados na frente de quartéis invadiram e quebraram tudo que encontram no Palácio do Planalto, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Congresso, em Brasília (DF). Bolsonaro e mais de mil dos seus seguidores foram julgados e presos. O ex-presidente está cumprindo pena de 27 anos de cadeia. Na ocasião, especialistas comentaram que a Justiça brasileira estava mais capacitada para lidar com o episódio de 8 de janeiro do que a americana com o 6 de janeiro. O motivo é que a Constituição brasileira foi elaborada de maneira a impedir que se repetisse um golpe de estado como o de 1964. Há reportagens e muitos documentários sobre o 6 de janeiro americano e o 8 de janeiro brasileiro. Lula assumiu o governo. E qualquer pessoa que for eleita em outubro assumirá a Presidência da República em 1° de janeiro de 2027.
O “risco eleitoral brasileiro” não inclui a possibilidade de quem for eleito não assumir. Há 13 candidatos disputando a eleição para presidente da República, que segundo as pesquisas está polarizada entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o filho mais velho do ex-presidente Bolsonaro. Aqui é o seguinte. Os planos econômicos e políticos dos 13 candidatos são diferentes. O risco, ou benefício, que o plano do candidato vencedor trará para o país é um risco que se repete a cada eleição. Faz parte do jogo no Brasil e em qualquer país democrático do mundo. Bem como os agentes econômicos e políticos reclamarem ou aprovarem o plano. Não estou sugerindo que em cada matéria sobre os candidatos à Presidência se anexe um tratado político. Mas que se explique melhor a situação. Lembro que para o Brasil se perfilar entre os países democráticos do mundo muitos foram mortos, torturados e humilhados durante a ditadura militar. A liberdade de imprensa que temos hoje é reafirmada a cada linha que escrevemos em nossas reportagens. A imprensa brasileira está fazendo a cobertura online da disputa eleitoral. São publicadas variadas e bem consolidadas reportagens. Comparada com as democracias europeias, incluindo a americana, a nossa é uma jovem de 38 anos, contados desde a data da publicação da Constituição. Mas tem mostrado musculatura suficiente para resistir aos ataques. Não é segredo para ninguém que o governo Trump vai tentar influenciar na disputa presidencial brasileira. Como fará? Até agora, tem se limitado à divulgação de ameaças. Será preciso esperar para saber o que vai acontecer.
Finalizando a nossa conversa. A arte do jornalismo é contar uma história. E a maneira como é contada vai sofrendo mudanças diariamente com a chegada de novas tecnologias. A disputa eleitoral no Brasil é uma grande história. LINK PARA PUBLICAÇÃO ORIGINAL * Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP. 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA www.esquinademocratica.com.br
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