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QUANDO INFORMAR SE TORNA PERIGOSO: NOVAS FACES DA VIOLÊNCIA SE SOMAM A VELHAS PRÁTICAS CONTRA JORNALISTAS

POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINA DEMOCRÁTICA


Relatório da Abraji registra 204 alertas de violações à liberdade de imprensa no Brasil em 2025; ataques digitais, misoginia, LGBTfobia e assédio judicial se somam às agressões físicas, ameaças, prisões e assassinatos que continuam atingindo jornalistas no Brasil e no mundo.


A violência contra jornalistas não abandonou suas formas mais antigas. Profissionais continuam sendo ameaçados, agredidos, presos e assassinados pelo trabalho que realizam.

O que se ampliou foi o repertório dos agressores. À violência física somaram-se campanhas de ataques nas redes sociais, exposição de dados pessoais, discursos destinados a desacreditar jornalistas e veículos, agressões misóginas e LGBTfóbicas e processos judiciais utilizados como instrumentos de intimidação.

As novas faces da violência não substituíram as antigas. Passaram a conviver com elas.

O mais recente relatório da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) registrou 204 alertas de violações à liberdade de imprensa no Brasil em 2025. A redução de apenas 2,9% em relação ao ano anterior é considerada pela própria entidade uma situação de aparente estabilidade, sem representar melhoria estrutural das condições para o exercício do jornalismo.[1]

Enquanto no Brasil a violência assume principalmente formas físicas, políticas, digitais e judiciais, no cenário internacional as guerras elevaram a mortalidade de profissionais da imprensa a níveis históricos.

Em 2025, 129 jornalistas e trabalhadores de mídia foram mortos em situações relacionadas ao trabalho, segundo o Committee to Protect Journalists (CPJ) — o maior número registrado pela organização desde o início de seu levantamento, em 1992. Pelo menos 104 das mortes ocorreram em contextos de conflitos armados.[2]

O jornalismo enfrenta, portanto, uma combinação de antigas e novas ameaças em um momento no qual a própria liberdade de expressão apresenta sinais mundiais de deterioração.

GUERRAS TRANSFORMAM JORNALISTAS EM VÍTIMAS

O impacto dos conflitos armados sobre quem tenta documentá-los é decisivo para compreender o recorde mundial de mortes. Segundo o CPJ, mais de três quartos dos jornalistas e trabalhadores de mídia mortos em 2025 morreram em situações de conflito. A organização atribui às forças israelenses dois terços das mortes registradas naquele ano, com predominância de jornalistas palestinos. Sudão e Ucrânia também registraram crescimento das mortes de profissionais da imprensa.[2]

A guerra tecnológica acrescentou outro risco. O número de profissionais da imprensa mortos por drones passou de dois em 2023 para 39 em 2025, segundo o levantamento.[2]

No Sudão, nove jornalistas e trabalhadores de mídia morreram em 2025. Na Ucrânia, quatro foram mortos por drones militares russos.[2]

Mas morrer não é a única forma extrema de silenciar quem informa. Em 1º de dezembro de 2025, 330 jornalistas estavam presos em diferentes países por razões relacionadas ao trabalho jornalístico, segundo o censo anual do CPJ. Mais de um terço cumpria penas superiores a cinco anos e quase metade dos encarcerados sequer havia recebido sentença.[3]

China, Myanmar e Rússia estavam entre os países com maior número de profissionais presos. O levantamento também mostra detenções relacionadas a conflitos, regimes autoritários e acusações como terrorismo, subversão e crimes contra o Estado.[3]

NO BRASIL, 204 ALERTAS EM UM ANO

O cenário brasileiro é diferente daquele encontrado nas zonas de guerra, mas permanece preocupante. Dos 204 alertas registrados pela Abraji em 2025, repórteres e analistas apareceram entre as vítimas em 68,6% dos casos.[1]

As agressões verbais, escritas e digitais foram a ocorrência mais frequente, presentes em 36,3% dos alertas. As agressões físicas apareceram em 27% e o discurso estigmatizante contra jornalistas e imprensa em 25%.[1]

Também não existe um único perfil de agressor. Atores não estatais estiveram presentes em 44,6% dos alertas e agentes estatais, em 43,6%. Entre os agressores cujo gênero foi identificado, 87,8% eram homens.[1]

Os números revelam uma violência que circula entre espaços institucionais, autoridades, figuras públicas, cidadãos, grupos organizados e ambientes digitais.

A VIOLÊNCIA MIGROU TAMBÉM PARA AS TELAS

Mais da metade dos episódios monitorados pela Abraji — 55,4% — teve origem ou repercussão no ambiente online.[1] Essa mudança altera a própria dimensão do ataque. Uma agressão que antes poderia ficar restrita ao espaço físico passa a alcançar milhares de pessoas em poucos minutos. Comentários ofensivos podem ser replicados, dados pessoais divulgados e campanhas de intimidação prolongadas por dias ou semanas.

A identificação dos responsáveis também se torna mais difícil. O problema ganha outra dimensão diante das novas possibilidades oferecidas pela inteligência artificial. Pesquisa mundial divulgada pela UNESCO em agosto deste ano mostra que, entre mulheres jornalistas e profissionais de mídia consultadas, 5% relataram ter sido alvo de deepfakes ou imagens e vídeos manipulados, enquanto 9% sofreram divulgação não consentida de imagens pessoais ou íntimas.[4]

Quase uma em cada quatro relatou ainda ter recebido avanços sexuais indesejados ou conteúdo sexual por mensagens privadas.[4] A tecnologia não criou a violência de gênero. Mas forneceu novas ferramentas para praticá-la.

QUANDO O ATAQUE É TAMBÉM CONTRA A MULHER OU A PESSOA LGBTQIA+

O relatório da Abraji chama atenção para uma característica fundamental: a violência contra a imprensa não atinge todos os jornalistas da mesma maneira. A violência relacionada a gênero esteve presente em 15,2% dos alertas brasileiros de 2025.[1]

Entre os episódios em que esse componente apareceu explicitamente, 77,4% envolveram manifestações machistas, misóginas ou LGBTfóbicas, enquanto 16,1% corresponderam a atos discriminatórios diretos.[1] Mulheres representaram 30,2% das vítimas cujo gênero pôde ser identificado.[1] A Abraji alerta, entretanto, que o número pode esconder uma realidade maior: medo da exposição, receio de novos ataques e sensação de revitimização podem levar mulheres e pessoas LGBTQIA+ a não denunciar determinados episódios.[1]

Os efeitos chegam ao próprio exercício profissional. No levantamento mundial da UNESCO, 45% das mulheres jornalistas entrevistadas afirmaram praticar algum tipo de autocensura nas redes sociais em consequência da violência online. Outras 22% disseram ter se autocensurado no trabalho.[4]


Quando uma agressão altera aquilo que um profissional está disposto a investigar, publicar ou dizer, o efeito da violência já ultrapassou sua vítima.


UMA DÉCADA QUE MOSTRA UMA RUPTURA

A série histórica da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), cuja metodologia é diferente da utilizada pela Abraji e por isso não deve ter seus números diretamente comparados, permite observar a evolução brasileira ao longo de dez anos. Em 2015 foram contabilizados 137 casos. Em 2016, 161. O número caiu para 99 em 2017 e voltou a subir para 135 em 2018.[5][6][7]

A curva muda radicalmente a partir de 2019:

2019 — 208 casos2020 — 428 casos2021 — 430 casos2022 — 376 casos2023 — 181 casos2024 — 144 casos.[8][9]

Entre 2018 e 2021, portanto, o número de ocorrências registrado pela FENAJ mais que triplicou. A entidade atribui parte importante dessa explosão à política de descredibilização da imprensa promovida durante o governo Jair Bolsonaro. Segundo a própria Federação, Bolsonaro foi diretamente responsável por 570 ataques a jornalistas e veículos de comunicação entre 2019 e 2022.[8]

A queda após a mudança de governo também foi expressiva: de 376 ocorrências em 2022 para 181 em 2023, redução de 51,86%. Em 2024, o número caiu novamente, para 144.[8][9]

Os próprios dados, entretanto, impedem que se confunda redução com desaparecimento do problema. Em 2024 ainda ocorreram, em média, episódios de violência contra jornalistas a cada dois dias e meio no Brasil.[9]

O período de 2019 a 2022 e sua relação com as eleições brasileiras será analisado pelo Esquina Democrática em uma segunda reportagem desta série.


A GEOGRAFIA DOS ATAQUES

A violência também possui distribuição desigual pelo território brasileiro.

Em 2025, o Sudeste concentrou 35,3% dos alertas monitorados pela Abraji, seguido pelo Nordeste, com 19,6%; Centro-Oeste, 17,2%; Norte, 13,7%; e Sul, 11,8%.[1]

São Paulo liderou entre os estados, com 39 ocorrências, equivalentes a 19,1% do total nacional. O Rio de Janeiro apareceu com 26 casos, ou 12,7%. O Distrito Federal registrou outros 20 alertas.[1]

Os dados ajudam a desfazer a ideia de que os ataques à imprensa são fenômenos restritos a regiões periféricas, pequenas cidades ou áreas dominadas pelo crime organizado.

Eles estão presentes também nos maiores centros políticos e econômicos do país.


PROCESSAR TAMBÉM PODE SER UMA FORMA DE INTIMIDAR

Entre as novas faces da violência está uma modalidade que não deixa marcas físicas: o assédio judicial. O mecanismo consiste no uso abusivo ou reiterado de ações judiciais para intimidar jornalistas e veículos, impor custos de defesa e consumir tempo e recursos de profissionais e redações.

O Monitor de Assédio Judicial da Abraji já contabiliza 784 ações ao longo de 11 anos. A segunda edição acrescentou 130 novos casos registrados entre 2024 e setembro de 2025.[1]

O efeito intimidatório não depende necessariamente da vitória de quem processa. Uma ação pode obrigar o jornalista a contratar advogado, comparecer a audiências, deslocar-se para outras cidades e responder simultaneamente a diferentes processos.

Para profissionais independentes e pequenos veículos, o custo pode ser suficiente para inviabilizar novas investigações. A violência, nesse caso, troca a força física pelo desgaste econômico e psicológico.


A AUTOCENSURA É UMA VIOLÊNCIA INVISÍVEL

As consequências aparecem em escala mundial. O relatório global da UNESCO sobre liberdade de expressão e desenvolvimento da mídia aponta uma queda de 10% no índice mundial de liberdade de expressão desde 2012 e aumento aproximado de 63% da autocensura entre jornalistas no período.[10]

É talvez um dos indicadores mais difíceis de enxergar. Uma agressão física pode ser fotografada. Uma ameaça pode ser registrada. Um processo deixa documentos.

A reportagem que deixou de ser feita não deixa vestígios. Quando jornalistas evitam determinadas investigações por medo de represálias, ameaças, processos, campanhas digitais ou violência contra suas famílias, o silêncio passa a ser uma das consequências mais eficazes da intimidação.

QUANDO O JORNALISTA É ATACADO, A SOCIEDADE TAMBÉM PERDE

Existe um erro frequente quando se discute violência contra a imprensa: imaginar que liberdade de imprensa seja um direito corporativo dos jornalistas. Não é. O jornalista é o alvo imediato.

A informação é o alvo final. Quando um correspondente é morto numa guerra, quando uma repórter abandona uma investigação depois de sofrer ameaças sexuais, quando um profissional evita determinada pauta por medo, quando uma pequena redação é submetida a uma sucessão de processos ou quando uma campanha digital consegue silenciar quem investiga o poder, existe uma segunda vítima. Trata-se da própria sociedade, que corre risco de perder uma informação de interesse público que deixou de ser produzida e não será transformada em notícia.

É justamente por isso que as novas faces da violência contra jornalistas precisam ser compreendidas junto às antigas. O assassinato continua sendo a expressão extrema, a agressão física é sempre um risco e a prisão continua sendo utilizada por regimes autoritários. Se somam às tradicionais, formas de violência relacionadas às novas tecnologias de IA, as redes sociais, exposição de dados, misoginia, LGBTfobia, manipulação de imagens, deepfakes e assédio judicial.

Mudaram os instrumentos. Porém, os objetivos são os mesmos: intimidar, calar, ridicularizar e agredir quem transforma informação em notícia, quem traduz os fatos, cumprindo não apenas a jornada de trabalho, mas sua função social como jornalista.

FONTES PARA CHECAGEM

[1] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE JORNALISMO INVESTIGATIVO (ABRAJI) — “ATAQUES GERAIS E VIOLÊNCIA DE GÊNERO CONTRA JORNALISTAS NO BRASIL”

O que comprova: 204 alertas em 2025; redução de 2,9%; perfil das vítimas; agressões verbais, escritas e digitais; agressões físicas; discurso estigmatizante; 55,4% dos casos com origem ou repercussão online; perfil dos agressores; violência de gênero; misoginia e LGBTfobia; distribuição regional e estadual; Monitor de Assédio Judicial e 784 ações mapeadas.

[2] COMMITTEE TO PROTECT JOURNALISTS (CPJ) — RELATÓRIO SOBRE JORNALISTAS MORTOS EM 2025

O que comprova: recorde de 129 jornalistas e trabalhadores de mídia mortos em 2025; 104 mortes relacionadas a conflitos; peso da guerra em Gaza; mortes no Sudão e Ucrânia; crescimento das mortes provocadas por drones.

[3] COMMITTEE TO PROTECT JOURNALISTS (CPJ) — CENSO MUNDIAL DE JORNALISTAS PRESOS EM 2025

O que comprova: 330 jornalistas presos em 1º de dezembro de 2025; duração das penas; profissionais ainda sem sentença; distribuição internacional dos encarceramentos.

[4] UNESCO — VIOLÊNCIA ONLINE CONTRA MULHERES JORNALISTAS

O que comprova: autocensura provocada pela violência online; consequências profissionais; compartilhamento não consentido de imagens; deepfakes e imagens manipuladas; avanços sexuais e outras formas de assédio digital.

[5] FENAJ — RELATÓRIO DE VIOLÊNCIA CONTRA JORNALISTAS 2015

O que comprova: 137 casos registrados em 2015.

[6] FENAJ — RELATÓRIO DE VIOLÊNCIA CONTRA JORNALISTAS 2017

O que comprova: 161 ocorrências em 2016 e 99 em 2017.

[7] FENAJ — RELATÓRIO DE VIOLÊNCIA CONTRA JORNALISTAS 2018

O que comprova: 135 casos em 2018; crescimento de 36,36% sobre 2017; relação entre parte dos episódios e o ambiente eleitoral daquele ano.

[8] FENAJ — RELATÓRIO DE VIOLÊNCIA CONTRA JORNALISTAS 2023

O que comprova: série 2019–2023; 208 casos em 2019; 428 em 2020; 430 em 2021; 376 em 2022; 181 em 2023; redução de 51,86% após 2022; 570 ataques atribuídos diretamente a Jair Bolsonaro durante os quatro anos de seu governo.

[9] FENAJ — RELATÓRIO DE VIOLÊNCIA CONTRA JORNALISTAS 2024

O que comprova: 144 episódios registrados em 2024 e redução de 20,44% em relação aos 181 casos de 2023.

[10] UNESCO — WORLD TRENDS IN FREEDOM OF EXPRESSION AND MEDIA DEVELOPMENT

O que comprova: queda de 10% do índice global de liberdade de expressão desde 2012 e aumento aproximado de 63% da autocensura entre jornalistas.

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