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ELEIÇÕES DE 2026: O BRASIL CORRE O RISCO DE REVIVER A ESCALADA DE VIOLÊNCIA CONTRA JORNALISTAS?

POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINA DEMOCRÁTICA

Depois da explosão de ataques registrada durante o governo Jair Bolsonaro e da forte redução dos indicadores a partir de 2023, a eleição presidencial recoloca em debate uma questão essencial à democracia: jornalistas terão liberdade e segurança para fiscalizar aqueles que disputam o poder?


A campanha eleitoral brasileira entra em sua fase decisiva carregando uma pergunta que ultrapassa partidos, candidatos e o próprio jornalismo: o Brasil corre o risco de reviver o ambiente de hostilidade contra a imprensa observado nas últimas eleições presidenciais?

A pergunta não parte de uma previsão. Parte da história recente.

Em 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro e também ano de eleição presidencial, a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) contabilizou 376 episódios de violência contra jornalistas e ataques à liberdade de imprensa. As ameaças, hostilizações e intimidações cresceram 133,33% em relação ao ano anterior; as agressões físicas, 88,46%.[1]

Outro levantamento, realizado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) com metodologia própria, chegou a 557 episódios em 2022. Destes, 31,6% estavam relacionados à cobertura eleitoral e 41,6% tiveram envolvimento de pelo menos um integrante da família Bolsonaro.[2]

Os números das duas instituições não podem ser comparados diretamente porque adotam metodologias diferentes. Mas chegam a uma conclusão convergente: política, eleições, redes sociais e ataques à imprensa formaram uma combinação particularmente perigosa naquele período.

2018: QUANDO A ELEIÇÃO ACENDEU O ALERTA

Os sinais apareceram antes mesmo de Jair Bolsonaro chegar à Presidência. A Repórteres Sem Fronteiras (RSF) registrou agressões, intimidações e ameaças durante a campanha presidencial de 2018. Jornalistas brasileiros e correspondentes estrangeiros foram hostilizados por apoiadores do então candidato, inclusive no dia de sua vitória eleitoral.[3]

Naquele processo eleitoral, profissionais responsáveis pela verificação de informações também foram alvo de campanhas de assédio. Uma jornalista do portal NE10 chegou a ser agredida e ameaçada de estupro por apoiadores de Bolsonaro no primeiro turno, segundo documentação da RSF. Em Porto Alegre, outra profissional sofreu ameaças depois de relatar violência cometida por partidários do candidato e acabou suspendendo sua conta no Facebook.[3]

A campanha terminaria, mas o confronto com a imprensa não.


QUANDO O ATAQUE PASSOU A PARTIR TAMBÉM DA PRESIDÊNCIA

A série histórica da FENAJ mostra uma ruptura depois de 2018. Foram 135 casos em 2018; 208 em 2019; 428 em 2020; 430 em 2021 e 376 em 2022. Segundo a Federação, durante os quatro anos em que Jair Bolsonaro ocupou a Presidência, ele foi diretamente responsável por 570 ataques contra jornalistas e veículos de comunicação — média de 142,5 por ano, aproximadamente um ataque a cada dois dias e meio.[1]

A FENAJ utilizou uma expressão particularmente grave para caracterizar o período: “institucionalização da violência contra jornalistas”. Segundo a entidade, houve uma prática governamental sistemática de descredibilização da imprensa, acompanhada pelo crescimento das agressões praticadas por aliados e apoiadores do então presidente.[1]

O chamado “cercadinho” do Palácio da Alvorada tornou-se um dos símbolos daquela relação.

Ali, Bolsonaro falava simultaneamente com jornalistas e apoiadores. Perguntas eram frequentemente respondidas com ataques aos profissionais, enquanto declarações presidenciais ganhavam imediatamente repercussão entre simpatizantes e, posteriormente, nas redes sociais.

A hostilidade deixou de ser apenas uma relação conflituosa entre governante e imprensa. Passou a integrar o próprio ambiente político.

QUANDO O ATAQUE POLÍTICO INCORPORA A MISOGINIA

As jornalistas mulheres enfrentaram uma camada adicional dessa violência. Um dos casos mais conhecidos ocorreu em fevereiro de 2020, quando Jair Bolsonaro fez uma insinuação sexual contra a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, depois de reportagens produzidas pela profissional.

A RSF identificou naquele período ataques sexistas e misóginos como um forte marcador das agressões relacionadas ao bolsonarismo. Patrícia já vinha sofrendo uma campanha de insultos e ameaças depois de suas investigações sobre estratégias digitais utilizadas durante a eleição de 2018.[4] Dois anos depois, o padrão reapareceu em plena campanha presidencial. Durante debate televisionado em agosto de 2022, Bolsonaro atacou a jornalista Vera Magalhães depois de uma pergunta. A frase presidencial foi imediatamente apropriada pelas redes sociais. A hashtag criada para desqualificar a jornalista apareceu 10.273 vezes em poucas horas, enquanto uma expressão baseada em informação falsa sobre sua remuneração foi mencionada outras 10.816 vezes. Segundo a RSF, as publicações circularam quase 70 milhões de vezes nos feeds dos usuários.[5]

Não foi um episódio isolado. No primeiro mês da campanha de 2022, a RSF identificou mais de 2,8 milhões de postagens com conteúdo ofensivo ou agressivo contra jornalistas. Entre os dez profissionais mais atacados naquele período, 88% das mensagens agressivas eram dirigidas a mulheres.[5] O mecanismo tornou-se visível: uma declaração de uma autoridade ou personalidade com milhões de seguidores podia funcionar como ponto de partida para milhares de agressões posteriores.

A PERGUNTA INCÔMODA E A REAÇÃO EM REDE

Outro episódio ajuda a compreender essa dinâmica. Em setembro de 2022, a jornalista Amanda Klein questionou Bolsonaro sobre reportagem referente à compra de imóveis em dinheiro vivo por integrantes de sua família.

O então presidente respondeu mencionando o marido da jornalista e classificou a pergunta como uma acusação leviana. Depois do episódio, Amanda passou a figurar entre as jornalistas mais atacadas daquela semana. A RSF encontrou agressões misóginas e violentas e uma hashtag reproduzindo justamente a expressão utilizada pelo presidente.[6]

Reportagens investigativas também produziam reações semelhantes. Depois da publicação de uma investigação de Juliana Dal Piva e Thiago Herdy sobre o patrimônio da família Bolsonaro, a RSF registrou pelo menos 95 postagens agressivas direcionadas a Dal Piva em uma semana.[7] A sequência importa porque revela algo maior do que conflitos pessoais entre políticos e jornalistas.

A pergunta jornalística passava a funcionar como gatilho para ataques em massa.

2022: MAIS DE UM ATAQUE POR SEGUNDO NAS REDES

O monitoramento da RSF durante a campanha presidencial de 2022 permite dimensionar a escala desse fenômeno. Somente no primeiro mês da campanha, foram identificadas 2.865.845 postagens contendo conteúdo ofensivo ou agressivo contra jornalistas, além de 264 hashtags diferentes utilizadas nos ataques — média superior a uma publicação agressiva por segundo.[5]

Os momentos de maior exposição jornalística produziram picos. Entrevistas dos presidenciáveis no Jornal Nacional, debates televisionados e grandes acontecimentos políticos provocaram crescimento abrupto das agressões. Na semana das entrevistas dos candidatos na Globo e do primeiro debate presidencial, a hashtag destinada a atacar a emissora saltou de aproximadamente 5,4 mil para mais de 377 mil menções.[5]

No final da campanha, os debates e a própria cobertura da votação voltaram a ampliar as agressões.[8] Não se tratava, portanto, apenas de violência política ocorrendo simultaneamente às eleições.

A própria cobertura eleitoral tornava-se fator de exposição dos jornalistas.

DEPOIS DE 2022, A CURVA CAIU

A mudança ocorrida depois das eleições também precisa fazer parte da análise.

Pela série da FENAJ, os episódios caíram de 376 em 2022 para 181 em 2023, redução de 51,86%.[9] A Federação relacionou parte importante dessa queda ao fim dos ataques sistemáticos provenientes da Presidência da República. Mas fez uma ressalva importante: os 181 casos de 2023 ainda estavam 34,07% acima dos 135 registrados em 2018, antes do ciclo Bolsonaro.[9]

Portanto, a mudança de governo reduziu fortemente um componente da violência, mas não devolveu o país a uma situação de normalidade.

E outras modalidades ganharam importância, entre elas o assédio judicial e os ataques digitais.

2024 MOSTROU QUE O PROBLEMA SOBREVIVEU

As eleições municipais seguintes forneceram outra advertência. A Coalizão em Defesa do Jornalismo monitorou as redes sociais entre 15 de agosto e 27 de outubro de 2024 e encontrou 35.876 ataques no X, 10.889 comentários ofensivos no Instagram e 10.239 ataques no TikTok.[10]

Novamente, as mulheres foram particularmente atingidas. Elas receberam 50,8% dos ataques, apesar de representarem 45,9% dos profissionais atacados. No Instagram, concentraram 68,3% das agressões.[10]

E há um dado especialmente próximo dos leitores gaúchos. São Paulo, Fortaleza, Cuiabá e Porto Alegre apareceram como os principais focos de ataques durante as eleições municipais, segundo o relatório final da Coalizão.[10]

As palavras também se repetem. “Lixo”, “militante” e “fake news” apareceram entre as expressões utilizadas para desqualificar jornalistas e veículos.[10]

O personagem atacado muda. A plataforma muda. A eleição muda.

A tentativa de transformar o jornalista em adversário político permanece.

2026: FLÁVIO BOLSONARO PROMETE MUDAR A RELAÇÃO COM A IMPRENSA

É nesse contexto que a eleição presidencial de 2026 apresenta uma aparente mudança.

Em junho, Flávio Bolsonaro reconheceu publicamente que o relacionamento com a imprensa foi um dos problemas do governo do pai. “Foi um dos problemas que eu identifico no governo do presidente Bolsonaro”, afirmou o senador, acrescentando que pretende mudar essa relação caso seja eleito.[11]

Flávio também reconheceu a importância da imprensa e afirmou que pretende respeitá-la.

A declaração é relevante justamente porque parte de alguém que integrou politicamente o núcleo do governo Bolsonaro e agora disputa a Presidência. Mas declarações de campanha precisam ser confrontadas com trajetórias e comportamentos. E esse confronto será um dos testes da eleição de 2026.

UMA ELEIÇÃO DEMOCRÁTICA PRECISA DE PERGUNTAS INCÔMODAS

A função do jornalismo numa eleição não é tornar a campanha confortável para candidatos.

É exatamente o contrário. Cabe ao jornalista confrontar promessas com resultados, verificar declarações, investigar patrimônio, relações econômicas, financiamento eleitoral, alianças, conflitos de interesse, antecedentes e contradições.

Perguntas são legítimas. O candidato pode discordar da pergunta, contestar a reportagem, apresentar documentos que demonstrem que uma informação está errada. Pode recorrer à Justiça quando seus direitos forem violados.

O que uma democracia não pode naturalizar é a transformação do jornalista em inimigo por ter perguntado.


O RISCO DE 2026 NÃO É UMA PREVISÃO

Não existem elementos que permitam afirmar antecipadamente que a eleição de 2026 repetirá 2018 ou 2022. Mas existem elementos suficientes para justificar preocupação.

Existe uma década de dados, o histórico das duas últimas eleições presidenciais e milhões de mensagens ofensivas documentadas.

Existe a experiência de jornalistas que foram ameaçados, agredidos e perseguidos depois de perguntas e reportagens. Estamos diante de uma nova eleição presidencial marcada por forte polarização.

A lição deixada pelos últimos anos: quando autoridades transformam jornalistas em adversários, seus ataques raramente permanecem restritos às palavras de quem ocupa o microfone. A relação entre candidatos e imprensa em 2026 não é uma questão corporativa dos jornalistas. É uma questão eleitoral.

QUEM PERDE QUANDO O JORNALISTA DEIXA DE PERGUNTAR?

Flávio Bolsonaro reconheceu que a relação do governo de seu pai com a imprensa foi equivocada. A afirmação poderá ser confrontada, durante a própria campanha, com a prática.

Não porque jornalistas devam receber tratamento privilegiado. Mas porque precisam ter liberdade para fazer exatamente aquilo que pode incomodar quem disputa o poder: perguntar. Uma eleição democrática não exige que candidatos gostem da imprensa. Exige que aceitem ser fiscalizados por ela. Jornalistas não precisam da aprovação daqueles que disputam o poder para fazer perguntas. Precisam de liberdade e segurança para fazê-las. Porque, quando a intimidação consegue impedir uma pergunta, a primeira pessoa silenciada pode ser o jornalista.


Mas quem deixa de receber a resposta é o eleitor.


FONTES PARA CHECAGEM

[1] FENAJ — RELATÓRIO DA VIOLÊNCIA CONTRA JORNALISTAS E LIBERDADE DE IMPRENSA NO BRASIL — 2022

O que comprova: 376 ataques em 2022; 104 atribuídos a Jair Bolsonaro; crescimento de 133,33% das ameaças/hostilizações/intimidações e de 88,46% das agressões físicas; 570 ataques de Bolsonaro durante seus quatro anos na Presidência; avaliação da FENAJ sobre a “institucionalização da violência contra jornalistas”.

[2] ABRAJI — MONITORAMENTO DE ATAQUES A JORNALISTAS — 2022

O que comprova: 557 episódios; crescimento de 23%; 31,6% relacionados à cobertura eleitoral; 41,6% com envolvimento de ao menos um integrante da família Bolsonaro; 63,4% com origem ou repercussão na internet.

[3] REPÓRTERES SEM FRONTEIRAS — ELEIÇÕES DE 2018

O que comprova: agressões, intimidações e ameaças contra jornalistas durante a eleição de 2018; ataques praticados por apoiadores de Bolsonaro; casos envolvendo profissionais brasileiros e correspondentes estrangeiros.

[4] REPÓRTERES SEM FRONTEIRAS — VIOLÊNCIA CONTRA A IMPRENSA EM 2020

O que comprova: ataques misóginos e sexistas; caso Patrícia Campos Mello; campanhas de ameaças e insultos; caracterização da misoginia como um marcador dos ataques daquele período.

[5] REPÓRTERES SEM FRONTEIRAS — MONITORAMENTO DAS ELEIÇÕES DE 2022

O que comprova: mais de 2,8 milhões de postagens agressivas no primeiro mês da campanha; ataques contra Vera Magalhães; 88% das agressões dirigidas aos dez jornalistas mais atacados atingindo mulheres; relação entre debates, entrevistas e picos de hostilidade.

[6] REPÓRTERES SEM FRONTEIRAS — ATAQUES APÓS O 7 DE SETEMBRO DE 2022

O que comprova: ataques contra Amanda Klein após questionamento a Bolsonaro; reprodução nas redes de expressão utilizada pelo presidente; misoginia nos ataques.

[7] REPÓRTERES SEM FRONTEIRAS — JORNALISMO INVESTIGATIVO NAS ELEIÇÕES DE 2022

O que comprova: ataques contra Juliana Dal Piva depois de reportagem investigativa sobre o patrimônio da família Bolsonaro.

[8] REPÓRTERES SEM FRONTEIRAS — RETA FINAL DAS ELEIÇÕES DE 2022

O que comprova: crescimento dos ataques durante debates e cobertura do segundo turno.

[9] FENAJ — RELATÓRIO 2023

O que comprova: queda de 376 para 181 episódios; redução de 51,86%; permanência de patamar superior a 2018; análise da entidade sobre a mudança após o fim do governo Bolsonaro.

[10] COALIZÃO EM DEFESA DO JORNALISMO — ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 2024

O que comprova: 35.876 ataques no X; 10.889 comentários ofensivos no Instagram; 10.239 ataques no TikTok; maior exposição das mulheres; São Paulo, Fortaleza, Cuiabá e Porto Alegre entre os principais focos de ataques.


[11] FLÁVIO BOLSONARO — DECLARAÇÃO SOBRE A RELAÇÃO COM A IMPRENSA — 15/06/2026

O que comprova: Flávio Bolsonaro reconheceu que a relação com a imprensa foi um dos problemas do governo Jair Bolsonaro e declarou intenção de adotar postura diferente caso seja eleito.


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