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PARTE 2 — COMO OS EUA CONTROLAM O PETRÓLEO GLOBAL: QUANDO TEM ALIADO, USA. QUANDO NÃO TEM, INVENTA

Atualizado: há 2 dias


POR ALEXANDRE COSTA A engrenagem dólar-petróleo-armas não opera sozinha. Ela depende de alianças estratégicas, presença militar, controle diplomático e, em muitos casos, da construção de justificativas políticas para intervenções econômicas ou bélicas.


Quando há aliados regionais fortes, eles funcionam como peças centrais dessa arquitetura. Quando não há, surgem sanções, bloqueios, isolamento diplomático e, em alguns casos, pretextos que mais tarde se revelam frágeis ou inconsistentes.


Não se trata de uma regra automática nem de uma explicação única para toda política externa norte-americana. Mas há um padrão histórico suficientemente documentado para justificar a investigação: petróleo, rotas energéticas e hegemonia financeira aparecem repetidamente no centro das grandes disputas internacionais [1][2].


ISRAEL COMO ALIADO ESTRATÉGICO

Contexto Histórico

Israel é o principal aliado militar dos Estados Unidos no Oriente Médio. Segundo o Congressional Research Service (CRS), o país recebe aproximadamente US$ 3,8 bilhões anuais em ajuda militar norte-americana, consolidando-se como o maior destinatário histórico desse tipo de apoio [3].


Desde a Guerra do Yom Kippur, em 1973, essa relação se aprofundou. O apoio militar e diplomático consolidou uma aliança de longo prazo baseada em interesses convergentes: segurança regional para Israel e presença estratégica para Washington [4].


Em 2016, os dois países assinaram um Memorando de Entendimento que garantiu US$ 38 bilhões em assistência militar para o período de 2019 a 2028 [5].

Função Estratégica

Israel cumpre, ao menos, três funções geopolíticas relevantes para os EUA.

A primeira é regional. O Oriente Médio concentra uma das maiores reservas de petróleo do planeta. Segundo a OPEP, a região responde por parcela decisiva das reservas provadas globais [6]. Manter influência política e militar nesse espaço significa preservar capacidade de interferência sobre o mercado energético mundial.

A segunda é militar. A instabilidade regional justifica a manutenção de tropas e bases norte-americanas no Golfo. Segundo dados do Departamento de Defesa dos EUA, dezenas de milhares de militares permanecem distribuídos em bases da região [7].

A terceira é industrial. Israel é também um grande comprador de armamentos norte-americanos. Sistemas como F-35, defesa antimísseis e pacotes de rearmamento movimentam contratos bilionários com empresas como Lockheed Martin e RTX [8].

Março de 2026 — A Aplicação Prática

Com a escalada militar entre Israel e Irã em 2026, o impacto sobre o petróleo foi imediato.

O temor de bloqueios no Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo [9] — elevou fortemente o preço internacional do barril [10]. Ao mesmo tempo, aumentou a demanda por segurança militar, reforçando contratos de defesa e pressionando Washington a atuar como estabilizador do mercado por meio da liberação da Reserva Estratégica de Petróleo [11].

Israel não é um "fantoche", mas um aliado com interesses próprios. Segurança frente ao Irã, hegemonia regional e autonomia militar fazem parte de sua própria agenda [12].

A relação é de dependência mútua: os interesses nem sempre são idênticos, mas frequentemente convergem.

VENEZUELA — QUANDO NÃO HÁ ALIADO, SURGEM SANÇÕES

Contexto

A Venezuela possui a maior reserva provada de petróleo do mundo. Segundo dados da OPEP, são mais de 300 bilhões de barris — acima da Arábia Saudita e do Irã [13].

Mas, diferentemente de países aliados do Golfo, Caracas construiu nas últimas décadas uma política externa de enfrentamento à influência norte-americana, com aproximação de Rússia, China e Irã [14].

Isso alterou profundamente sua relação com Washington. Em vez da lógica da cooperação estratégica, consolidou-se a política de sanções econômicas e isolamento financeiro.

O Pretexto e o Debate Sobre Democracia

Em 2019, quando Juan Guaidó se autoproclamou presidente interino da Venezuela, os Estados Unidos reconheceram imediatamente sua legitimidade política [15].

A justificativa oficial foi a defesa da democracia e dos direitos humanos.

Mas a comparação com outros aliados estratégicos levanta questionamentos importantes. Países como Arábia Saudita e Egito — classificados como regimes autoritários pelo V-Dem Institute, referência internacional em métricas democráticas [16] — seguem recebendo apoio político e militar consistente dos EUA [17].

Isso não prova automaticamente que a motivação central seja o petróleo. Mas reforça uma pergunta legítima: por que certos regimes são tratados como parceiros e outros como ameaças?

"A política externa americana para a América Latina tem sido historicamente moldada por interesses econômicos e estratégicos, não apenas por valores democráticos", observa o Council on Foreign Relations em análise sobre as relações hemisféricas dos EUA [18].

O Método — Sanções Econômicas

Entre 2017 e 2025, Washington ampliou sucessivas rodadas de sanções sobre a Venezuela, atingindo indivíduos, setor financeiro, exportações de ouro e principalmente a indústria petrolífera [19].

Como o petróleo representa a principal fonte de receita externa venezuelana, o impacto foi severo. Segundo dados da OPEP, a capacidade produtiva venezuelana caiu de cerca de 2,5 milhões de barris/dia em 2015 para menos de 800 mil barris/dia em 2020 [20].

A queda da produção venezuelana não pode ser explicada apenas pelas sanções — há também problemas internos de gestão, corrupção e deterioração institucional. Ignorar isso enfraqueceria a análise.

Mas as sanções aprofundaram de forma decisiva esse colapso.

IRAQUE — O CASO EMBLEMÁTICO

Se o subtítulo desta reportagem afirma que, quando não há aliado, "inventa-se", o caso do Iraque é o exemplo mais forte dessa acusação — porque existe documentação.


Em 2003, a invasão foi justificada pela alegação de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa [21].


Anos depois, o Iraq War Inquiry britânico — conduzido pelo diplomata John Chilcot e publicado em 2016 após sete anos de investigação — concluiu que essas armas não existiam, que a inteligência foi distorcida para sustentar uma decisão política já tomada, e que a base legal da guerra era profundamente questionável [22].


O Iraque possuía, à época, uma das maiores reservas de petróleo do planeta — estimadas em mais de 112 bilhões de barris [23].


A guerra produziu destruição em larga escala, ocupação prolongada e reorganização profunda do controle sobre o setor energético iraquiano, com contratos concedidos a empresas ocidentais após o conflito [24].


Esse é um caso concreto — e não apenas retórico — de como um pretexto oficial pode entrar em colapso diante da documentação histórica posterior.


LÍBIA E O PADRÃO RECORRENTE

Na Líbia, em 2011, a justificativa oficial foi a proteção de civis durante a guerra civil, respaldada pela Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU [25].


O país possuía as maiores reservas de petróleo da África — cerca de 48 bilhões de barris comprovados, segundo a OPEP [26].


Após a queda de Muammar Gaddafi, a Líbia mergulhou em fragmentação institucional, conflito permanente e disputa internacional por influência energética. Relatórios da ONU e do Human Rights Watch documentaram violações graves cometidas por múltiplos atores no período pós-intervenção [27].


Os contextos são distintos e não podem ser tratados como cópias exatas. Mas o padrão de associação entre crise política, intervenção externa e centralidade do petróleo permanece recorrente.

O PONTO QUE MUDA — E NÃO INVALIDA A TESE

Um argumento frequente contra essa análise é que, após a revolução do shale oil, os Estados Unidos se tornaram um dos maiores produtores de petróleo do mundo — o maior, segundo dados da EIA de 2023 [28] — e reduziram sua dependência direta do petróleo do Golfo.

Isso é verdadeiro.

Mas a hegemonia energética não depende apenas de consumo interno. O controle das rotas, dos preços internacionais e da moeda de liquidação do petróleo continua sendo um instrumento estratégico global [29].

"Mesmo produtores autossuficientes têm interesse no controle das rotas e dos preços internacionais, porque isso determina o poder relativo de todos os atores no sistema global", analisa o economista Michael Klare, professor do Hampshire College e especialista em geopolítica energética [30].

Mesmo com maior autossuficiência produtiva, Washington mantém interesse direto na arquitetura internacional do petróleo.

QUEM LUCRA

Fabricantes de armas, grandes petroleiras e bancos de investimento operam no centro desse sistema.


A Lockheed Martin registrou receita de US$ 67,6 bilhões em 2023, com crescimento impulsionado pela demanda gerada pelos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio [31]. A RTX (Raytheon) registrou US$ 68,9 bilhões no mesmo período [32]. General Dynamics e Northrop Grumman também ampliaram receitas em ciclos de conflito internacional [33].


Petroleiras como ExxonMobil, Chevron e ConocoPhillips registraram crescimento expressivo em períodos de alta volatilidade e valorização do barril. A ExxonMobil, por exemplo, registrou lucro líquido de US$ 55,7 bilhões em 2022 — o maior da história da empresa — em meio à crise energética gerada pela guerra na Ucrânia [34].


Bancos também lucram com operações ligadas a derivativos e mercados de commodities energéticas. O Goldman Sachs e o JPMorgan Chase ampliaram suas divisões de commodities em períodos de alta volatilidade [35].


Isso não significa que guerras sejam produzidas exclusivamente para gerar lucro.

Mas significa que existe uma estrutura econômica que se beneficia delas.


CONCLUSÃO

O padrão observado não é uma teoria conspiratória simples.

É uma lógica de incentivos estruturais.


Com aliados, há cooperação estratégica, presença militar e controle regional.


Sem aliados, aparecem sanções, isolamento econômico e, em alguns casos, justificativas políticas que não resistem ao tempo.


Nem toda guerra é sobre petróleo.


Mas, quando se observam as grandes intervenções das últimas décadas, o petróleo quase nunca está ausente.


E onde ele aparece, o dólar, a indústria bélica e a hegemonia global dos Estados Unidos costumam aparecer junto. FONTES — CAPÍTULO 2

[1] Council on Foreign Relations (CFR) — U.S. Foreign Policy and Energy Security https://www.cfr.org/backgrounder/us-foreign-policy-and-energy-security

[3] Congressional Research Service — U.S. Foreign Aid to Israel https://fas.org/sgp/crs/mideast/RL33222.pdf

[4] Council on Foreign Relations (CFR) — U.S.-Israel Relations https://www.cfr.org/backgrounder/us-israel-relations

[5] U.S. Department of State — U.S.-Israel Memorandum of Understanding, 2016 https://www.state.gov/u-s-security-cooperation-with-israel/

[6] OPEC — World Oil Reserves by Region https://www.opec.org/opec_web/en/data_graphs/330.htm

[7] U.S. Department of Defense — Military Presence in the Middle East https://www.defense.gov/News/Releases/

[8] Defense News — U.S. Military Sales to Israel https://www.defensenews.com/

[9] U.S. Energy Information Administration (EIA) — Strait of Hormuz https://www.eia.gov/international/analysis/special-topics/World_Oil_Transit_Chokepoints

[10] EIA — Weekly Petroleum Status Report, March 2026 https://www.eia.gov/petroleum/supply/weekly/

[12] Council on Foreign Relations (CFR) — Israel-Iran Relations https://www.cfr.org/backgrounder/iran-nuclear-agreement

[13] OPEC — Venezuela: Proved Oil Reserves https://www.opec.org/opec_web/en/data_graphs/330.htm

[14] Council on Foreign Relations (CFR) — Venezuela's Foreign Relations https://www.cfr.org/backgrounder/venezuela-crisis

[15] U.S. Department of State — Recognition of Juan Guaidó, January 2019 https://www.state.gov/the-united-states-recognizes-juan-guaido-as-venezuelas-interim-president/

[16] V-Dem Institute — Democracy Indices 2024 https://www.v-dem.net/data/the-v-dem-dataset/

[17] Human Rights Watch — Saudi Arabia: Country Reports https://www.hrw.org/middle-east/n-africa/saudi-arabia

[18] Council on Foreign Relations — U.S. Relations with Latin America https://www.cfr.org/backgrounder/us-latin-america-relations

[19] U.S. Department of State — Venezuela Sanctions https://www.state.gov/sanctions/venezuela/

[20] OPEC — Venezuela: Annual Statistical Bulletin — Oil Production Data https://www.opec.org/opec_web/en/publications/202.htm

[21] U.S. Department of State — Iraq WMD Justification, 2003 https://2001-2009.state.gov/secretary/former/powell/remarks/2003/17300.htm

[22] Iraq Inquiry — The Chilcot Report: Executive Summary, 2016 https://www.iraqinquiry.org.uk/the-report/

[23] EIA — Iraq: Proved Oil Reserves https://www.eia.gov/international/analysis/country/IRQ

[24] Global Policy Forum — Oil in Iraq: The Heart of the Crisis https://www.globalpolicy.org/component/content/article/185/40564.html

[25] UN Security Council — Resolution 1973 (2011) — Libya https://www.un.org/securitycouncil/

[26] OPEC — Libya: Proved Oil Reserves https://www.opec.org/opec_web/en/data_graphs/330.htm

[27] Human Rights Watch — Libya: World Report 2012–2023 https://www.hrw.org/middle-east/n-africa/libya

[28] EIA — U.S. Crude Oil Production, 2023 https://www.eia.gov/petroleum/production/

[29] Council on Foreign Relations — Oil Dependence and U.S. Foreign Policy https://www.cfr.org/report/oil-dependence-and-us-foreign-policy

[30] Klare, Michael T. — The Race for What's Left: The Global Scramble for the World's Last Resources. Metropolitan Books, 2012.

[32] RTX Corporation — Annual Report 2023 (Form 10-K) https://investors.rtx.com/financial-information/annual-reports

[33] SIPRI — Arms Industry Database: Top 100 Companies https://www.sipri.org/databases/armsindustry

[35] Financial Times — Goldman Sachs and JPMorgan expand commodities divisions https://www.ft.com/ 📲 CURTA, COMPARTILHE, COLABORE E CONTRIBUA

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