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PARTE 1 — QUANDO A GUERRA ENRIQUECE: COMO O COLAPSO DO ORIENTE MÉDIO BENEFICIA A ECONOMIA DOS EUA

POR ALEXANDRE COSTA


Em março de 2026, com a escalada da tensão no Estreito de Ormuz e a alta abrupta do preço internacional do petróleo, o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, anunciou a liberação de 172 milhões de barris da Reserva Estratégica de Petróleo (SPR) [1]. Na superfície, uma resposta emergencial ao risco de desabastecimento global. Na prática, mais um movimento dentro de uma engrenagem consolidada há décadas: a relação entre petróleo, dólar, sistema financeiro e indústria bélica.

A lógica não é automática nem funciona da mesma forma em todos os conflitos. A crise do petróleo de 1973, por exemplo, atingiu duramente a própria economia norte-americana. Foi justamente a partir desse choque e dos rearranjos diplomáticos posteriores — especialmente os acordos entre Washington e a Arábia Saudita — que o sistema do petrodólar se consolidou como peça central da hegemonia econômica dos EUA [2][3].

Hoje, esse mecanismo opera em condições específicas: quando guerras ou instabilidades elevam o preço da energia, cresce também a demanda internacional por dólar, aumenta a busca por ativos considerados seguros e se fortalece a centralidade financeira norte-americana.

A CRISE ECONÔMICA DOS EUA — NÚMEROS REAIS

Os Estados Unidos seguem sendo a maior economia do planeta, mas enfrentam pressões estruturais relevantes.

A dívida pública norte-americana ultrapassou US$ 34 trilhões em 2025, alcançando cerca de 123% do PIB [4]. A inflação, embora distante do pico de 9,1% registrado em 2022, permaneceu acima da meta oficial de 2% do Federal Reserve, encerrando 2025 em torno de 3,2% [5].

O crescimento econômico também desacelerou. O PIB avançou cerca de 1,8% em 2025, abaixo da média histórica de aproximadamente 2,5% [6][7].

Ao mesmo tempo, os gastos militares seguem em patamar extraordinário. Segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), os EUA mantêm o maior orçamento militar do mundo, superior a US$ 800 bilhões anuais [8].

Não se trata de colapso econômico, mas de um cenário de declínio relativo de hegemonia, especialmente diante da competição tecnológica e industrial com a China e da reorganização geopolítica global.

O SISTEMA DÓLAR-PETRÓLEO-ARMAS

Desde Bretton Woods, em 1944, o dólar ocupa posição central no sistema financeiro internacional [9]. Após a crise do petróleo de 1973 e os acordos posteriores com a Arábia Saudita, o comércio internacional de petróleo passou a ser amplamente denominado em dólar, fortalecendo o chamado sistema do petrodólar [2][3].

Isso não significa um mecanismo automático e linear, mas cria uma estrutura poderosa: quando o petróleo sobe e a insegurança global aumenta, cresce a procura por dólares e por títulos do Tesouro americano.

Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), a participação do dólar nas reservas cambiais globais caiu de 71% em 2000 para cerca de 59% em 2025 — ainda assim, permanece dominante [10].

Em março de 2022, após a invasão da Ucrânia, o barril do petróleo saltou e o índice do dólar também se fortaleceu, refletindo esse movimento de busca por segurança financeira [11][12].

Quando isso acontece, os EUA conseguem financiar sua dívida com maior estabilidade e reforçam sua posição como centro do sistema financeiro global.

VENDAS DE ARMAS — O SEGUNDO PILAR

Conflitos prolongados também impulsionam o segundo eixo desse sistema: a indústria bélica.

Segundo o SIPRI, os maiores fabricantes de armas do mundo continuam concentrados nos Estados Unidos [13]. Empresas como Lockheed Martin, RTX (Raytheon), Boeing Defense, General Dynamics e Northrop Grumman ampliaram receitas e lucros após a intensificação dos conflitos internacionais recentes [14].

As exportações globais de armamentos norte-americanos também cresceram. Entre 2015–2019 e 2020–2024, houve expansão relevante nas vendas internacionais de armas produzidas pelos EUA, reforçando sua posição dominante no mercado global de defesa [15].

A guerra, portanto, não representa apenas disputa geopolítica. Ela movimenta contratos bilionários, fortalece cadeias industriais e amplia o peso político do complexo militar-industrial.

MARÇO DE 2026 — A APLICAÇÃO PRÁTICA

Com a escalada militar envolvendo Irã, Israel e a presença norte-americana no Golfo, o Estreito de Ormuz voltou ao centro da disputa global.

Por essa rota passam cerca de 20% do petróleo consumido no mundo [16]. Qualquer ameaça à navegação impacta imediatamente os preços internacionais.

Entre o fim de fevereiro e março de 2026, o barril do petróleo registrou forte valorização, acompanhando o temor de bloqueios e ataques na região [17][18].

Foi nesse contexto que Washington anunciou a liberação emergencial da SPR [1], em coordenação com parceiros internacionais e com a Agência Internacional de Energia (AIE) [19].

Ao liberar petróleo, os EUA atuam como estabilizadores do mercado, reduzem pressões inflacionárias internas e reforçam sua credibilidade geopolítica. Ao mesmo tempo, a permanência da tensão sustenta a valorização do dólar e amplia a demanda por segurança militar.

Não se trata apenas de “resolver” uma crise, mas de administrar seus efeitos dentro de uma estrutura que favorece a centralidade norte-americana.

O CONTRADITÓRIO NECESSÁRIO

Essa interpretação não é consenso absoluto.

Há economistas que apontam que guerras prolongadas também impõem custos severos aos próprios Estados Unidos — inflação, desgaste diplomático, aumento do endividamento e instabilidade interna.

A Guerra do Iraque, por exemplo, produziu custos trilionários para Washington [20]. A crise do petróleo de 1973 também foi inicialmente devastadora para a economia americana.

Ou seja: guerra não gera dividendos automáticos.

O que esta série investiga não é uma fórmula mecânica, mas a forma como, dentro de determinadas condições estruturais, crises energéticas e conflitos internacionais podem reforçar a posição econômica dos EUA no sistema global.

PADRÃO HISTÓRICO

Da Guerra do Golfo (1991) à invasão do Iraque (2003), passando pela intervenção na Líbia (2011), o petróleo aparece de forma recorrente no centro das grandes disputas estratégicas.

No Iraque, a justificativa oficial das armas de destruição em massa foi posteriormente desmontada por investigações internacionais [21]. Na Líbia, a derrubada de Muammar Gaddafi ocorreu em um país que possuía uma das maiores reservas de petróleo da África [22][23].

Os contextos variam, os pretextos mudam, mas o controle sobre rotas energéticas, reservas estratégicas e influência regional permanece como elemento constante.

CONCLUSÃO

A relação entre guerra, petróleo, dólar e indústria bélica não depende de teorias conspiratórias.


Ela opera por incentivos estruturais.

Em determinadas condições, conflitos elevam o preço da energia, fortalecem a demanda por dólar, ampliam o peso do sistema financeiro americano e impulsionam a indústria de defesa.

Não é um mecanismo automático. Nem uma explicação única para todas as guerras.

Mas é uma engrenagem real — e fundamental para compreender como crises internacionais também podem produzir riqueza e poder.

FONTES — PARTE 1

[1] CNN Brasil — EUA vão liberar 172 milhões de barris de petróleo da reserva estratégicahttps://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/eua-vao-liberar-172-milhoes-de-barris-de-petroleo-da-reserva-estrategica/

[2] Council on Foreign Relations (CFR) — OPEC, oil prices and the global economyhttps://www.cfr.org/backgrounder/opec-oil-prices-and-global-economy

[4] U.S. Department of the Treasury — Historical Debt Outstandinghttps://home.treasury.gov/

[5] Federal Reserve — Inflation Datahttps://www.federalreserve.gov/

[6] U.S. Bureau of Economic Analysis — Real GDP Growthhttps://www.bea.gov/

[7] Federal Reserve Economic Data (FRED)https://fred.stlouisfed.org/

[8] SIPRI — Military Expenditure Databasehttps://www.sipri.org/

[9] Bretton Woods Committee — History of Bretton Woods Systemhttps://www.brettonwoodscommittee.org/

[10] IMF — COFERhttps://data.imf.org/

[11] Federal Reserve — Trade Weighted U.S. Dollar Indexhttps://fred.stlouisfed.org/

[12] U.S. Energy Information Administration (EIA) — Crude Oil Priceshttps://www.eia.gov/

[13] SIPRI — Arms Industry Databasehttps://www.sipri.org/

[14] Annual Reports (10-K): Lockheed Martin, RTX, Boeing, General Dynamics, Northrop Grumman

[15] SIPRI — Arms Transfers Databasehttps://www.sipri.org/

[16] EIA — Strait of Hormuzhttps://www.eia.gov/

[17] EIA — Crude Oil Priceshttps://www.eia.gov/

[18] Bloomberg — Commodity Priceshttps://www.bloomberg.com/

[19] Agência Internacional de Energia (IEA)https://www.iea.org/

[20] Brown University — Costs of War Projecthttps://watson.brown.edu/costsofwar/

[21] Iraq War Inquiry (UK)https://www.iraqinquiry.org.uk/

[22] OPEC — World Oil Reserveshttps://www.opec.org/

[23] UN Security Council / Human Rights Watch — Libya 2011https://www.un.org/https://www.hrw.org/

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