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PARTE 1 — QUANDO A GUERRA ENRIQUECE: COMO O COLAPSO DO ORIENTE MÉDIO BENEFICIA A ECONOMIA DOS EUA

Atualizado: 25 de abr.


POR ALEXANDRE COSTA


Em março de 2026, com a escalada da tensão no Estreito de Ormuz — onde ataques a navios-tanque e manobras militares iranianas ameaçavam o fluxo de cerca de 20% do petróleo consumido no mundo [1][2] — o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, anunciou a liberação de 172 milhões de barris da Reserva Estratégica de Petróleo (SPR) [3].


Na superfície, uma resposta emergencial ao risco de desabastecimento global. Na prática, mais um movimento dentro de uma engrenagem consolidada há décadas: a relação entre petróleo, dólar, sistema financeiro e indústria bélica.


A LÓGICA DO SISTEMA — E SEUS LIMITES

A lógica não é automática nem funciona da mesma forma em todos os conflitos. A crise do petróleo de 1973, por exemplo, atingiu duramente a própria economia norte-americana. Foi justamente a partir desse choque e dos rearranjos diplomáticos posteriores — especialmente os acordos entre Washington e a Arábia Saudita — que o sistema do petrodólar se consolidou como peça central da hegemonia econômica dos EUA [4][5].


Hoje, esse mecanismo opera em condições específicas: quando guerras ou instabilidades elevam o preço da energia, cresce também a demanda internacional por dólar, aumenta a busca por ativos considerados seguros e se fortalece a centralidade financeira norte-americana.


POTÊNCIA SOB PRESSÃO: OS NÚMEROS DA HEGEMONIA AMERICANA

Os Estados Unidos seguem sendo a maior economia do planeta, mas enfrentam pressões estruturais relevantes.


A dívida pública norte-americana ultrapassou US$ 34 trilhões em 2025, alcançando cerca de 123% do PIB [6]. A inflação, embora distante do pico de 9,1% registrado em 2022, permaneceu acima da meta oficial de 2% do Federal Reserve, encerrando 2025 em torno de 3,2% [7].


O crescimento econômico também desacelerou. O PIB avançou cerca de 1,8% em 2025, abaixo da média histórica de aproximadamente 2,5% [8][9].


Ao mesmo tempo, os gastos militares seguem em patamar extraordinário. Segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), os EUA mantêm o maior orçamento militar do mundo, superior a US$ 800 bilhões anuais [10].


Não se trata de colapso econômico, mas de um cenário de declínio relativo de hegemonia — especialmente diante da competição tecnológica e industrial com a China e da reorganização geopolítica global.


O SISTEMA DÓLAR-PETRÓLEO-ARMAS

Desde Bretton Woods, em 1944, o dólar ocupa posição central no sistema financeiro internacional [11]. Após a crise do petróleo de 1973 e os acordos posteriores com a Arábia Saudita, o comércio internacional de petróleo passou a ser amplamente denominado em dólar, fortalecendo o chamado sistema do petrodólar [4][5].


Isso não significa um mecanismo automático e linear, mas cria uma estrutura poderosa: quando o petróleo sobe e a insegurança global aumenta, cresce a procura por dólares e por títulos do Tesouro americano.


Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), a participação do dólar nas reservas cambiais globais caiu de 71% em 2000 para cerca de 59% em 2025 — ainda assim, permanece dominante [12].


Em março de 2022, após a invasão da Ucrânia, o barril do petróleo saltou e o índice do dólar também se fortaleceu, refletindo esse movimento de busca por segurança financeira [13][14].


Quando isso acontece, os EUA conseguem financiar sua dívida com maior estabilidade e reforçam sua posição como centro do sistema financeiro global.


VENDAS DE ARMAS — O SEGUNDO PILAR

Conflitos prolongados também impulsionam o segundo eixo desse sistema: a indústria bélica.


Segundo o SIPRI, os maiores fabricantes de armas do mundo continuam concentrados nos Estados Unidos [15]. A Lockheed Martin, maior contratante de defesa do planeta, registrou receita de US$ 67,6 bilhões em 2023, com crescimento impulsionado pela demanda gerada pelos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio [16]. A RTX (Raytheon), segunda maior, registrou receita de US$ 68,9 bilhões no mesmo período [17].

As exportações globais de armamentos norte-americanos também cresceram. Entre 2015–2019 e 2020–2024, houve expansão relevante nas vendas internacionais de armas produzidas pelos EUA, reforçando sua posição dominante no mercado global de defesa [18].


A guerra, portanto, não representa apenas disputa geopolítica. Ela movimenta contratos bilionários, fortalece cadeias industriais e amplia o peso político do complexo militar-industrial.


MARÇO DE 2026 — A APLICAÇÃO PRÁTICA

Com a escalada militar envolvendo Irã, Israel e a presença norte-americana no Golfo, o Estreito de Ormuz voltou ao centro da disputa global.


Por essa rota passam cerca de 20% do petróleo consumido no mundo [2]. Qualquer ameaça à navegação impacta imediatamente os preços internacionais.


Entre o fim de fevereiro e março de 2026, o barril do petróleo registrou forte valorização, acompanhando o temor de bloqueios e ataques na região [19][20].


Foi nesse contexto que Washington anunciou a liberação emergencial da SPR [3], em coordenação com parceiros internacionais e com a Agência Internacional de Energia (AIE) [21].


Ao liberar petróleo, os EUA atuam como estabilizadores do mercado, reduzem pressões inflacionárias internas e reforçam sua credibilidade geopolítica. Ao mesmo tempo, a permanência da tensão sustenta a valorização do dólar e amplia a demanda por segurança militar.


Não se trata apenas de "resolver" uma crise, mas de administrar seus efeitos dentro de uma estrutura que favorece a centralidade norte-americana.

O CONTRADITÓRIO NECESSÁRIO

Essa interpretação não é consenso absoluto.


Há economistas que apontam que guerras prolongadas também impõem custos severos aos próprios Estados Unidos — inflação, desgaste diplomático, aumento do endividamento e instabilidade interna.

"Os custos econômicos, sociais e políticos das guerras do Iraque e do Afeganistão superam em muito qualquer benefício estratégico de curto prazo", concluiu o projeto Costs of War, da Universidade Brown, que estimou gastos superiores a US$ 8 trilhões entre 2001 e 2022 [22].


Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, chegou a conclusão semelhante ao calcular os custos totais da Guerra do Iraque em mais de US$ 3 trilhões, incluindo impactos de longo prazo sobre veteranos, dívida pública e instabilidade macroeconômica [23].

A crise do petróleo de 1973 também foi inicialmente devastadora para a economia americana.

Ou seja: guerra não gera dividendos automáticos.

O que esta série investiga não é uma fórmula mecânica, mas a forma como, dentro de determinadas condições estruturais, crises energéticas e conflitos internacionais podem reforçar a posição econômica dos EUA no sistema global.

PADRÃO HISTÓRICO

Da Guerra do Golfo (1991) à invasão do Iraque (2003), passando pela intervenção na Líbia (2011), o petróleo aparece de forma recorrente no centro das grandes disputas estratégicas.


No Iraque, a justificativa oficial das armas de destruição em massa foi posteriormente desmontada por investigações internacionais — incluindo o Iraq War Inquiry britânico, que concluiu em 2016 que a intervenção foi baseada em inteligência falha e decisões políticas questionáveis [24].

Na Líbia, a derrubada de Muammar Gaddafi ocorreu em um país que possuía uma das maiores reservas de petróleo da África — cerca de 48 bilhões de barris comprovados, segundo a OPEP [25][26].

Os contextos variam, os pretextos mudam, mas o controle sobre rotas energéticas, reservas estratégicas e influência regional permanece como elemento constante.

CONCLUSÃO

A relação entre guerra, petróleo, dólar e indústria bélica não depende de teorias conspiratórias.


Ela opera por incentivos estruturais.


Em determinadas condições, conflitos elevam o preço da energia, fortalecem a demanda por dólar, ampliam o peso do sistema financeiro americano e impulsionam a indústria de defesa.


Não é um mecanismo automático. Nem uma explicação única para todas as guerras.

Mas é uma engrenagem real e fundamental para compreender como crises internacionais também podem produzir riqueza e poder.

FONTES — CAPÍTULO 1

[1] Reuters — Iran tanker attacks and Strait of Hormuz tensions, March 2026 https://www.reuters.com/

[2] U.S. Energy Information Administration (EIA) — Strait of Hormuz: World's Most Important Oil Chokepoint https://www.eia.gov/international/analysis/special-topics/World_Oil_Transit_Chokepoints

[3] CNN Brasil — EUA vão liberar 172 milhões de barris de petróleo da reserva estratégica https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/eua-vao-liberar-172-milhoes-de-barris-de-petroleo-da-reserva-estrategica/

[4] Council on Foreign Relations (CFR) — OPEC, Oil Prices and the Global Economy https://www.cfr.org/backgrounder/opec-oil-prices-and-global-economy

[8] U.S. Bureau of Economic Analysis — Real GDP Growth https://www.bea.gov/data/gdp/gross-domestic-product

[9] Federal Reserve Economic Data (FRED) — Real Gross Domestic Product https://fred.stlouisfed.org/series/GDPC1

[10] SIPRI — Military Expenditure Database https://www.sipri.org/databases/milex

[11] Bretton Woods Committee — History of the Bretton Woods System https://www.brettonwoodscommittee.org/

[12] IMF — Currency Composition of Official Foreign Exchange Reserves (COFER) https://data.imf.org/?sk=E6A5F467-C14B-4AA8-9F6D-5A09EC4E62A4

[13] Federal Reserve Economic Data (FRED) — Trade Weighted U.S. Dollar Index https://fred.stlouisfed.org/series/DTWEXBGS

[14] U.S. Energy Information Administration (EIA) — Crude Oil Prices https://www.eia.gov/petroleum/gasprices/

[15] SIPRI — Arms Industry Database https://www.sipri.org/databases/armsindustry

[17] RTX Corporation — Annual Report 2023 (Form 10-K) https://investors.rtx.com/financial-information/annual-reports

[18] SIPRI — Arms Transfers Database https://www.sipri.org/databases/armstransfers

[19] U.S. Energy Information Administration (EIA) — Weekly Petroleum Status Report, March 2026 https://www.eia.gov/petroleum/supply/weekly/

[20] Reuters — Oil prices surge amid Strait of Hormuz tensions https://www.reuters.com/

[21] International Energy Agency (IEA) — Oil Market Report https://www.iea.org/reports/oil-market-report

[22] Brown University — Costs of War Project https://watson.brown.edu/costsofwar/

[23] Stiglitz, Joseph E.; Bilmes, Linda J. — The Three Trillion Dollar War: The True Cost of the Iraq Conflict. W.W. Norton & Company, 2008.

[24] Iraq Inquiry (Chilcot Report) — Executive Summary, 2016 https://www.iraqinquiry.org.uk/the-report/

[26] UN Security Council / Human Rights Watch — Libya 2011 https://www.hrw.org/world-report/2012/country-chapters/libya

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