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9 - O Silêncio das Águas, por Nora Prado*

Moramos eu e a minha família no bairro Ipanema na zona sul de Porto Alegre, área que fica bem próximo ao Lago-Rio Guaíba e é bem silencioso por natureza. Região residencial e praticamente sem nenhum edifício, é um lugar aprazível cercada de muitas árvores e vegetação, um verdadeiro oásis dentro da cidade.


Posso dizer que desde o início da inundação que avançou por dezenas de ruas vizinhas e tirou centenas de pessoas das suas casas, o bairro ficou ainda mais silencioso. O tráfego de automóveis, que já é pouco normalmente, diminuiu consideravelmente nas últimas semanas aumentando o prazer silencioso ao longo do dia. Um cachorro aqui, outro acolá, o canto dos pássaros passou a ser as únicas interferências sonoras aumentando a sensação de calma e bem-estar.


Semelhante fenômeno podemos observar nos vídeos através das redes sociais ou nas reportagens exibidas diariamente nos telejornais. O mesmo silêncio na região do aeroporto assim como no centro histórico de Porto Alegre, perto da rodoviária, Mercado Público, Museu de Arte do Rio Grande do Sul e a Casa de Cultura Mário Quintana transmitem essa sensação de vazio de uma cidade fantasma. Bem diferente do burburinho em frente a orla ao lado do Guaíba na altura do Gasômetro ou nos abrigos espalhados pela capital. Ali um turbilhão de vozes, gritos e palavras de ordem quebram o silêncio numa algazarra de ansiedade, trabalho árduo e excitação. 


Se por um lado o efeito colateral das cheias é algo agradável de se perceber, como o profundo silêncio, por outro mostra como o bairro ficou deserto e quanta tristeza e dor há por baixo dessa aparente calma. Milhares de pessoas choram suas perdas, e tentam seguir em frente em situações provisórias como a de passar a viver num ginásio, paróquia ou colégio. Ver sua casa e o seu lugar de abrigo e conforto ser reduzido a uma cama deve ser algo perturbador, para dizer o mínimo. Perder o direito ao resguardo e intimidade, certamente incomoda, mas pelo menos essa casa improvisada, oferece segurança e um mínimo de calor e conforto.


À noite, na cama antes de dormir, o silêncio dos anjos abraça a casa, o bairro inteiro. Que felicidade não escutar nenhum ronco de motocicleta fazendo racha na Av. Beira Rio nem nenhum bate estaca de barzinho até a madrugada. O silêncio restaurador toma conta de tudo numa espécie de afago benfazejo.


As noites têm sido frias e, com a chuva, aumenta e a umidade e a sensação térmica baixa ainda mais. Será um inverno duro, triste e prolongado com desafios diários para mantermos a saúde física e emocional abaladas por esta catástrofe.


Que o silêncio ajude a acalmar nossos corações aflitos e possamos nos reerguer com confiança e plenitude novamente. Vai passar.



 

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