O PESO DA MEMÓRIA: PARA QUE O SILÊNCIO NÃO TENHA A ÚLTIMA PALAVRA
- Alexandre Costa

- há 2 dias
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Ao receber o Prêmio Rubens Paiva – Memória, Verdade e Justiça pelo Esquina Democrática, percebi que aquele reconhecimento atravessava o jornalismo e alcançava uma história familiar iniciada 55 anos antes, quando meu pai foi preso e torturado pela ditadura.
Por Alexandre Costa | Esquina Democrática

Nenhum outro prêmio que eu pudesse receber teria, para mim, o significado pessoal e profissional do Prêmio Rubens Paiva – Memória, Verdade e Justiça. Não se trata de estabelecer uma hierarquia entre premiações, mas de reconhecer o que esta representa na minha própria história. O nome que carrega, a Associação dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Rio Grande do Sul, que o concede, e as trajetórias das pessoas reunidas naquela noite fizeram com que o reconhecimento ao Esquina Democrática ultrapassasse, desde o primeiro momento, o trabalho jornalístico realizado ao longo de mais de duas décadas.
Naquela noite, o peso do prêmio não foi apenas uma metáfora.
Pouco antes de ser chamado, acompanhei as representantes da Comissão da Memória e da Verdade Enrique Serra Padrós, da UFRGS, receberem a homenagem. Ao erguerem o troféu, foram surpreendidas pelo peso e, por muito pouco, ele não sofreu danos maiores. Foi um instante de apreensão em meio à cerimônia.
Minutos depois, chegou minha vez.
Peguei o troféu com as duas mãos e senti o peso. Literalmente. Mas, quando olhei para aquela sala, percebi que carregava muito mais do que um objeto. Estavam ali pessoas cujas trajetórias se confundem com a resistência às ditaduras e a luta pela democracia. Flávio Tavares e Flávio Koutzii conheceram prisão, tortura, perseguição e exílio. Tarso Genro foi homenageado por sua trajetória na defesa dos direitos humanos. A Comissão Enrique Serra Padrós representava o esforço de investigar e preservar a memória dentro da universidade. Marta Haas, atriz e educadora do Ói Nóis Aqui Traveiz, trazia a arte, a educação e uma nova geração para essa travessia.
O DISCURSO QUE NÃO CONSEGUI FAZER
Eu havia escrito um discurso. Como os que foram agraciados antes de mim preferiram falar de improviso, senti-me desafiado a fazer o mesmo. No entanto, quando comecei a falar, precisei concentrar boa parte da atenção simplesmente para controlar a emoção (VEJA O VÍDEO NO FINAL DA PÁGINA). O discurso saiu devagar, arrastado. Algumas coisas foram ditas, outras ficaram incompletas e muitas sequer consegui mencionar.
Entre elas estava justamente a principal razão pela qual nenhuma outra premiação poderia ter, para mim, o significado daquela que eu segurava nas mãos. E pensar em Rubens Paiva sempre me leva ao seu filho, Marcelo Rubens Paiva, e a Feliz Ano Velho.
DUAS HISTÓRIAS QUE PASSAM POR 1971
Li Feliz Ano Velho quando tinha 14 anos. O livro de Marcelo foi uma das obras que marcaram minha adolescência. Com o passar do tempo, algumas coincidências entre a história da família Paiva e a minha própria história familiar começaram a chamar minha atenção, guardadas, evidentemente, todas as diferenças e proporções entre elas.
Foi em 1971 que Rubens Paiva foi preso por agentes da ditadura, torturado e assassinado. Seu corpo nunca foi devolvido à família. Meu pai, Bruno Mendonça Costa, também foi preso pela ditadura naquele ano, quando eu tinha apenas três anos.
Décadas depois, outras coincidências continuariam chamando minha atenção. Marcelo tornou-se jornalista, profissão que escolhi assim que comecei a desenvolver maior consciência política. Mas existe outra, talvez a mais delicada de todas. A mãe de Marcelo chamava-se Eunice, assim como a minha.
A PROCURA PELO MEU PAI
Depois de ser preso, meu pai passou pelo DOPS, em Porto Alegre, e foi transferido para a Operação Bandeirante, a OBAN, em São Paulo. Quando minha mãe soube onde ele poderia estar, procurou Afrânio e Marieta Araújo, pais de Carlos Araújo. Eles conheciam de perto a perseguição política e lhe deram apoio e orientação.
Eu fiquei em Porto Alegre aos cuidados da minha avó. Minha irmã, Rosangela, com apenas sete anos, acompanhou minha mãe até São Paulo. Começava uma peregrinação. Todos os dias, as duas tentavam encontrar meu pai. Durante dias, não conseguiram vê-lo. Não tinham sequer a certeza de que ele realmente estivesse naquele lugar.
A violência daquele sistema repressivo não atingia somente quem estava atrás das grades. Do lado de fora, famílias procuravam informações, batiam às portas dos órgãos de repressão e tentavam descobrir onde estavam seus parentes e o que estava acontecendo com eles.
Minha mãe insistiu muito.
UM BOLO NO DIA 12 DE JUNHO
Há uma cena dessa história que sempre me acompanhou. Meus pais fazem aniversário no mesmo dia: 12 de junho, Dia dos Namorados. Naquele 12 de junho de 1971, minha mãe levou um bolo de aniversário para meu pai. Na OBAN, foi barbaramente torturado e, segundo ele mesmo contou, havia sofrido sucessivas crises convulsivas.
O bolo chegou até ele.
Dias depois, minha mãe finalmente conseguiu vê-lo. Encontrou-o muito magro, debilitado e trêmulo. Durante aquele encontro, meu pai pediu que ela comprasse um medicamento usado por cardíacos. Aquele martírio durou 63 dias.
Depois, meu pai retornou a Porto Alegre. Foi aconselhado a deixar o Brasil, mas decidiu permanecer. Mais tarde, foi julgado e absolvido. A prisão havia terminado, mas seus efeitos não desapareceriam simplesmente com a liberdade.
Hoje, aos 89 anos, Bruno Mendonça Costa continua exercendo a psiquiatria. Mais do que meu pai, tornou-se, ao longo da vida, meu melhor amigo.
MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA
Cinquenta e cinco anos haviam se passado desde 1971. Talvez eu ainda não tivesse compreendido inteiramente a minha emoção diante daquele troféu, que leva o nome de um homem que não teve a mesma possibilidade de envelhecer ao lado dos filhos. Meu pai voltou para casa. O pai do Marcelo, não.
É justamente aí que a semelhança das nossas histórias encontra seu limite. Minha mãe conseguiu reencontrar meu pai. Eunice Paiva passou décadas lutando para que o Estado brasileiro revelasse a verdade sobre a prisão e o assassinato do seu marido.
O JORNALISMO E A MEMÓRIA
O Esquina Democrática nasceu em 2005 e completa 21 anos neste mês, no dia 17 de setembro. Existe muita coisa daquela história de 1971 no nosso "fazer" jornalismo.
Um dos princípios que adotamos, desde sempre, é que nossa posição política não substitui a obrigação de provar o que afirmamos. Democracia, direitos humanos, justiça social, liberdade e soberania são compromissos que orientam nosso trabalho. Acreditamos que não existe jornalismo verdadeiramente democrático quando se impõe o silêncio diante de violações de direitos, tortura, racismo, feminicídio, homofobia ou qualquer outra forma de opressão.
Ao longo de 21 anos, o Esquina procurou construir um jornalismo livre e independente, comprometido com a informação, mas também consciente de que informar não significa retirar os acontecimentos de seu contexto histórico. Porque esquecer também é uma forma de permitir que determinadas histórias sejam novamente contadas por aqueles que gostariam de apagá-las.
O QUE NÃO ESTAVA NO DISCURSO
Não consegui ler as cinco páginas que estavam no bolso do casaco. Porém, no dia seguinte à premiação, percebi que uma parte importante do que deveria dizer também não estava no papel. A presença do meu pai naquela sala me fazia pensar nas ausências. Nos que foram assassinados, nos desaparecidos, nos corpos nunca entregues às famílias e nos filhos que não puderam envelhecer ao lado de seus pais.
Talvez seja essa uma das razões pelas quais memória, verdade e justiça tenham um significado especial na minha vida. As memórias individuais podem desaparecer. A memória coletiva, porém, depende de nós. Depende dos testemunhos e dos documentos. Dos livros e dos filmes. Das pesquisas e das universidades. Dos movimentos sociais e das famílias. Depende daqueles que sobreviveram e daqueles que se dispõem a escutá-los. E depende também do jornalismo.
Quando peguei aquele troféu com as duas mãos, compreendi o seu peso. Ali estavam os 21 anos do Esquina Democrática, mas também estavam os 21 longos anos de ditadura militar, a história da minha família, a dos Paiva e a de tantas outras que foram atravessadas pela violência da ditadura.
Por todas essas razões, nenhum outro prêmio, no meu caso, poderia ter o mesmo significado pessoal e profissional.
No discurso que havia preparado para aquela noite, escrevi que uma das maiores responsabilidades do jornalismo, agora ou em qualquer momento da história, é não permitir que o silêncio tenha a última palavra.
A frase acima me levou a escrever este texto.
NO VÍDEO ABAIXO, DISCURSO DE ALEXANDRE COSTA, APÓS A ENTREGA DO PRÊMIO RUBENS PAIVA - MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA
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