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O MITO DA CAVERNA

por Nora Prado (*)

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que ouvi sobre o Mito da Caverna, de Platão, na voz da minha amiga Vera Lúcia Berttoni numa das nossas conversas quando eu tinha dezoito anos. Vera me contou que no tempo das cavernas quando as tribos de homens e mulheres viviam juntas e temiam as tempestades com seus raios e trovões, os bisões e mamutes selvagens que eram o seu objeto de caça, mas poderiam matá-los, caso a caçada não fosse bem planejada, viviam sob intensa atenção e temor frente aos fenômenos naturais e a vida inóspita plena de perigos.


A fábula é mais ou menos assim: “Sócrates pede para imaginarmos uma caverna onde muitos prisioneiros vivessem desde a infância. Com as mãos amarradas em uma parede, eles podiam avistar somente as sombras que eram projetadas na parede à sua frente, no fundo da caverna. As sombras eram ocasionadas por uma fogueira, em cima de um tapume, situada na parte traseira da parede em que os homens estavam presos. Homens passavam ante a fogueira, fazendo gestos e passando objetos, formando sombras que, de maneira distorcida, eram todo o conhecimento que os prisioneiros tinham do mundo. Aquela parede da caverna com as sombras e os ecos dos sons que as pessoas de cima produziam era o mundo restrito dos prisioneiros. Repentinamente, um dos prisioneiros foi libertado. Andando pela caverna, ele percebeu que havia pessoas e uma fogueira projetando as sombras que ele julgava ser a totalidade do mundo. Ao encontrar a saída da caverna, ele se assustou ao deparar-se com o mundo exterior. A luz do sol ofuscou a sua visão e ele se sentiu desamparado, desconfortável e deslocado. Aos poucos foi se acostumando com a luz e começou a perceber a infinidade do mundo e da natureza que existia fora da caverna. Percebeu que aquelas sombras, que antes ele julgava ser a realidade, na verdade eram cópias imperfeitas de uma pequena parcela da realidade. O prisioneiro liberto poderia fazer duas coisas: retornar para a caverna e libertar os seus companheiros ou viver a sua liberdade. Uma possível consequência da primeira possibilidade seria os ataques que sofreria de seus companheiros, que o julgariam como louco, mas poderia ser uma atitude necessária, por ser a coisa mais justa a se fazer.”

Estabelecer contato real com os seres e a natureza é a única maneira de conhecer o mundo ao seu redor, bem como se conhecer a si mesmo. Ter a coragem de olhar para trás, sair da caverna, entrar em contato com a luz e se dar conta de que só via sombras é o primeiro passo para a inigualável aventura do conhecimento.


Lembro-me de que fiquei fascinada diante dessa lição, abençoada, que a minha amiga me contou. E me dei conta de que eu passava justamente por aquela experiência na minha juventude, numa espécie de batismo de fogo. Eu recém tinha começado a fazer Teatro e me descobria como uma profissional, iniciante, numa trajetória infinita e plena de aprendizado com pessoas diferentes. Pessoalmente eu mesma vivia um mundo de descobertas absolutamente formidáveis e que me modificavam continuamente me fazendo refletir e decidir sobre como eu gostaria de ser. Vivia a primeira grande paixão e a descoberta do amor e do sexo. Fazia novas amizades, conhecia novos autores e me apaixonava pelo teatro e o cinema. Bebia a vida em fartos goles todos os dias com muito prazer e gratidão.


Semelhante a esta metáfora podemos ver que ao longo da história sempre houve aqueles que preferiram se apegar às sombras acreditando ser a realidade do que admitir que estavam presos aos próprios preconceitos numa visão reduzida dela. Ao poder autoritário sempre foi conveniente provocar esta cegueira generalizada para melhor manipular o povo conforme os seus interesses perversos.


Hoje percebo com perplexidade que, guardadas as proporções, parte da sociedade brasileira voltou a viver na obscuridade da caverna igual ao mito de Platão, adorando as sombras projetadas, sem desconfiar da sua verdadeira natureza de sombra nem imaginar que a realidade acontece fora da caverna. Numa atitude infantilizada e arrogante, estão sempre negando qualquer verdade obvia, como por exemplo, a eficácia das vacinas ou a necessidade dos protocolos de higiene e distanciamento social para se proteger do contágio do vírus da covid 19. Preferem minimizar os riscos e a importância do uso da máscara, alegando que basta o tratamento precoce através da invermectina e da hidroxicloroquina amplamente desaconselhados pela OMS, além dos conselhos estaduais de medicina, por trazerem graves efeitos colaterais e sérios riscos para a saúde. Não existe tratamento precoce para a doença, a não ser a vacina. Curiosamente os mesmos que condenam a vacina, alegando que ela “afeta o DNA” e pode até “introduzir um chip no organismo”, são as mesmas que se apressam a furar a fila da vacina para garantir a sua dose a qualquer preço.


Os adoradores do tenente mito que além de gastar milhões do erário público em estoques destes medicamentos inúteis e perigosos, é o mesmo que lava dinheiro comprando uma verdadeira fábula de leite condensado, no seu mais recente escândalo, ente muitos. A exemplo do Ministro das Relações Exteriores, muitos deles, acreditam na teoria, absurda, da Terra Plana embora todas as evidências científicas provem exatamente o contrário.


São os mesmos que espalham factoides e fake News pelos grupos de whatsapp da vida gerando intriga e disseminando mentiras, como as citadas acima. Essa massa de manobra, grosseira, foi quem ajudou a espalhar as fakes bizarras sobre a mamadeira de piroca, que a JBS pertencia ao filho do Lula e que o que aconteceu em 2016 foi impeachment e não um golpe deslavado. Conviver com gente assim dá muito trabalho, pois precisamos constantemente contrapor suas mentiras e delírios, descabidos, com fatos amparados por comprovação científica e jornalística séria e consequente. Com alguns, mais inflexíveis, não há, sequer, possibilidade de discussão tamanho o nível ou a sua falta para contrapor aos argumentos.


Sim, eles fazem parte dos antigos 33% que ainda apoiavam o presidente, mas, que depois do escândalo do desabastecimento do oxigênio na rede hospitalar de Manaus, perceberam o plano genocida do governo em trânsito, desde o início da pandemia, e agora começam a acordar do pesadelo. Esses últimos arrependidos participaram até da carreata defendendo o afastamento de Bolsonaro no último domingo, aumentando o coro dos descontentes. Mas a parcela de quem olha o mundo de dentro da caverna, seduzido pelas sombras e reduzidos a 26%, ainda representam um contingente expressivo de gente sem noção manipulada pelo fanatismo.


É com eles que travamos discussões apaixonadas tanto quanto inúteis pelos grupos de whatsapp, semanalmente, num desgaste constrangedor. Pois são justamente eles que se dizem ignorar a política e preferem que não se discuta política em grupo para não minar o seu precário equilíbrio. Alegando que sempre que a política entra as relações se desmancham. Naturalmente preferem uma saudação de bom dia com florzinhas e um boa noite com estrelinhas como se a vida passasse ao largo do que realmente importa. Ora, a política permeia toda e qualquer relação social desde o berço em qualquer família, relação profissional ou pessoal, entre aluno e professor, marido e mulher, patrão e empregado. A política diz respeito a alta do gás e do pãozinho que compramos no mercado, o preço do combustível e a inflação generalizada que agora segue nas alturas nos últimos meses. Negar a sua influência seria o mesmo que tentar tapar o sol com a peneira ou fingir que as sombras da caverna correspondem à realidade.


Num desses grupos pude testemunhar o mal-estar causado por uma postagem feita por um primo, distante, no qual mostrava o desgosto da Dra. Margareth Dalcomo com a inabilidade da diplomacia brasileira para negociar os insumos da vacina com a China e suas críticas pelos atrasos na campanha de vacinação em massa. Bastou o vídeo circular pelo grupo, afetando a aura de normalidade e paz reinante, para que a fúria adormecida no grupo de idosos bondosos se levantasse contra aquela brutalidade. Onde já se viu postar aquilo? Numa onda crescente de desaprovação o dito primo resolveu tirar o time de campo enquanto eu e outra prima esclarecida nos declarávamos totalmente a favor dele argumentando que aquilo era assunto do nosso interesse enquanto cidadãos e em respeito e solidariedade pelos milhões de infectados e os mais de 200 mil mortos. De nada adiantaram os argumentos, também fomos criticadas.


Decidi me afastar do grupo para manter a minha paz de espírito e sanidade mental. Para com essa parcela tosca e negacionista, sinceramente, eu perdi a minha paciência. Simplesmente saio ou deleto quando percebo o modo de funcionamento “in caverna”, pois com burro empacado não há o que fazer.

Porto Alegre, 26 de janeiro de 2021.


OBS: Considerei apropriado recontar o mito de uma fonte mais próxima da realidade do que confiar apenas na minha memória. Trecho extraído do site História do Mundo.


* Nora Prado é atriz, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

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