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O MEDO DA MORTE

por Nora Prado (*)

Tenho observado através das redes sociais o quanto as pessoas têm evitado usar a palavra morte cada vez que um ente querido morre. Normalmente elas usam “fulano fez a passagem”, “beltrano partiu”, “não sei quem, descansou”, “outro, virou estrela”. Antes de pensar como preconceito pelo uso mais correto e direto para se referir a condição de morto que a pessoa assume, considero imaturidade, praticamente uma negação infantil de recusar nomear com uma palavra própria para isso. Como se usar essas outras metáforas para aludir a morte, fossem capazes de diminuir o impacto que ela causa em si e nos outros ao seu redor.


No fundo me preocupa a distância e o tabu com que tratamos a questão da morte, sobretudo num momento dramático como a pandemia de covid 19 na qual já morreram mais de 550.000 mil pessoas. Essa distância da morte e a possibilidade de entrarmos em contato com a transitoriedade típica da vida, que ela oportuniza, é fundamental para aceitarmos a finitude alheia e a nossa própria. Acredito que antigamente o fenômeno da morte era encarado com mais naturalidade e, talvez até, fosse menos traumática. Os rituais fúnebres faziam parte da vida cotidiana e todos estavam mais expostos a essa importante experiência dolorosa, sem dúvida, mas necessária. As pessoas tinham tempo de entrar em contato com a morte nos seus detalhes mais prosaicos e meditativos. Os mortos eram velados em casa, rodeada dos familiares e amigos mais próximos, e o enterro culminava com o adeus final cheio de significado e transcendência. Inclusive as crianças tinham a oportunidade de entrar em contato com essa porção misteriosa e enigmática da vida. Havia tempo para se assimilar esse triste momento, na maioria das vezes. O próprio estado de luto era levado em consideração como um processo intenso com altos e baixos emocionais até a aceitação final.


Com a modernidade, percebo que estamos perdendo a capacidade de lidar de maneira mais orgânica com a única certeza que temos: a morte. Ela chega para todos e a qualquer hora, indiferente ao nosso amor e apego à vida. No entanto pouco conversamos sobre a morte e sequer consideramos oportuno qualquer debate a respeito. Muda-se rápido de assunto passando para amenidades e coisas mais leves. Evitamos discutir o tema na família e na escola, fugimos da noção da morte e cada dia ela se torna mais estranha e inacessível para a maioria. Ora isso é trágico, pois perdemos a chance de lidar com uma das experiências mais transformadoras da vida.


Lembro-me de que com doze anos de idade, na chácara das minhas amigas Daniela e Fernanda, depois que o cachorro da família morreu de raiva, todos ficamos muito abatidos e tristes. Otto, se chamava o cão perdigueiro, nosso companheiro inseparável das brincadeiras e aventuras da criançada.


Tempos depois passamos a fazer rituais fúnebres de passarinhos, lagartixas e bichos menores que morriam perto de nós. Creio que era uma necessidade de entrar em contato com a morte e de entender a própria morte do Otto que foi sacrificado e morreu na clínica veterinária sem nunca mais voltar para casa. O enterro é um rito de passagem fundamental para o nosso amadurecimento. Fugir dele não nos poupará de lidar com a morte nem a ausência da pessoa amada.


Voltando aos obituários do facebook, por exemplo, confesso que em certos casos a mensagem de morte é tão enigmática e hermética, que na dúvida, leio as várias mensagens de pêsames abaixo, até que fique claro que fulano morreu.


Enfim, cada um pensa e trata da morte como lhe aprouver, mas eu prefiro dar nome aos bois, ou melhor dizendo: tratar da morte como morte mesmo. Isso não significa suprimir o seu significado de transcendência, que ela evoca, mas antes aceitar a sua porção telúrica e finita.


Porto Alegre, 21 de julho de 2021.


(*) Nora Prado é atriz, poeta, professora de interpretação para Teatro e Cinema, atuou na Escola das Artes do Palco - SP.

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