NOSSOS CORPOS LÉSBICOS, NOSSAS MEMÓRIAS, NOSSO FUTURO: EXISTIR, AMAR E PERMANECER VIVAS SÃO ATOS REVOLUCIONÁRIOS, POR SILVANA CONTI*
- Alexandre Costa

- há 2 dias
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Não é sobre sermos vistas.
É sobre permanecermos vivas.
É sobre podermos amar sem que o amor se transforme em sentença. Sobre voltar para casa. Sobre envelhecer de mãos dadas.
Sobre fazer do cotidiano um lugar onde o medo deixe de morar.
Somos filhas de uma memória antiga. De Safo de Lesbos, que escreveu o amor quando o mundo ainda aprendia a nomeá-lo. De Rosely Roth, que abriu frestas quando quase tudo era muro. De Lurdinha, Claudete, Mary Lúcia, Carla e de tantas outras que fizeram da própria existência um gesto político para que hoje pudéssemos respirar um pouco mais livres.
Cada uma delas vive em nós como quem acende uma fogueira que o tempo não consegue apagar.
Mas agosto também chega trazendo nomes que doem. Luana. Ieda. Fabiana.
Mulheres arrancadas da vida porque ousaram amar, existir e sonhar. Mulheres negras, mulheres de terreiro, mulheres lésbicas. Não são tragédias isoladas.
São parte de um projeto de mundo que transforma vidas em mercadoria, naturaliza desigualdades e alimenta o ódio como método de poder.
A crise estrutural do capitalismo, aprofundada pela lógica neoliberal, encontra no conservadorismo e nos fundamentalismos terreno fértil para produzir silêncios, violências e apagamentos.
O lesbocídio e o lesboódio não nascem do acaso; nascem de uma sociedade que ainda insiste em controlar os corpos, os afetos e a liberdade das mulheres.
As pesquisas continuam revelando o medo de demonstrar afeto em público, o assédio, a violência psicológica, sexual e familiar vivida por tantas lésbicas brasileiras.
E, no entanto, seguimos. Porque nenhuma violência conseguiu interromper completamente a corrente de afeto que nos une.
Somos a memória das que vieram antes e o horizonte das que ainda virão.
Em cada beijo que resiste, em cada roda de conversa, em cada terreiro, sindicato, escola, universidade, ocupação, periferia ou praça, há uma revolução acontecendo em silêncio.
Nossa existência desafia o patriarcado, o racismo, a misoginia e todas as formas de exploração que lucram quando aprendemos a ter medo de nós mesmas.
Amar outra mulher continua sendo um gesto profundamente revolucionário.
Exijamos direitos humanos, justiça, democracia e o direito radical de existir.
Que nenhuma mulher tenha seu nome acrescentado à lista das que partiram cedo demais. E que, quando o mundo pronunciar os nomes de Luana, Ieda e Fabiana, também escute o coro de Safo, Rosely, Lurdinha, Claudete, Mary Lúcia, Carla e de todas aquelas que nos ensinaram que existir é muito mais do que sobreviver: é transformar a própria vida em esperança para que nenhuma de nós caminhe sozinha. * Silvana Conti é militante lésbica, feminista, antirracista, diretora de Formação do SIMPA, membra do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil e doutoranda em Educação. 📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA
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