MARTA HAAS: ARTE E EDUCAÇÃO PARA TRANSMITIR A MEMÓRIA ÀS NOVAS GERAÇÕES
- Alexandre Costa

- há 23 horas
- 5 min de leitura
Última agraciada da segunda edição do Prêmio Rubens Paiva, atriz, educadora e pesquisadora recebeu a homenagem das mãos de Sônia Haas e destacou o papel da arte e da escola na transmissão dos valores de memória, verdade, justiça e democracia.

A última homenagem da segunda edição do Prêmio Rubens Paiva – Memória, Verdade e Justiça colocou no centro da cerimônia uma questão que atravessou toda a noite: como transmitir às novas gerações a memória daqueles que enfrentaram a ditadura e a violência do Estado?
A agraciada foi Marta Haas, atriz, educadora e pesquisadora, integrante desde 2001 da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Bacharela em Filosofia, mestra e doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Marta venceu o Prêmio CAPES de Tese 2024, na área de Educação, com a pesquisa Por uma pedagogia performativa da memória: performance e testemunho sobre violência de Estado na escola. [1][2]
A entrega do prêmio coube a Sônia Haas, irmã de João Carlos Haas Sobrinho, médico gaúcho e militante do PCdoB morto durante a repressão à Guerrilha do Araguaia e cujo corpo nunca foi entregue à família. Durante décadas, Sônia participou da busca por informações sobre o irmão e da luta dos familiares dos mortos e desaparecidos políticos. [3][4]
Diante de Marta, sua fala apontou para o futuro. “Tu e a tua geração, e essas pessoas que estão aqui, são a nossa esperança.” [5] E fez um pedido: “Siga a caminhada em meu nome [...] especialmente de João Carlos.” [5]
DE GERAÇÃO A GERAÇÃO
Emocionada, Marta disse considerar uma honra receber o prêmio das mãos de Sônia. Falou do orgulho de carregar, por meio de seu trabalho artístico e como educadora, a história de João Carlos e de tantos outros atingidos pela repressão.
A própria categoria na qual foi homenageada — Juventude — ganhou uma interpretação em seu discurso. “Eu sou indicada na categoria Juventude, o que significa que se acredita que a arte e a educação têm um papel muito importante na transmissão desses valores.” [5] Os valores aos quais se referia eram os que reconhecia nas trajetórias dos demais homenageados e daqueles que resistiram à ditadura: justiça, verdade, memória e democracia.
Essa transmissão entre gerações não aparece apenas em seu discurso. É também objeto de sua produção artística e acadêmica.
PEDAGOGIA PERFORMATIVA DA MEMÓRIA
Marta integra desde 2001 o Ói Nóis Aqui Traveiz, coletivo teatral de Porto Alegre cuja trajetória articula criação artística, formação, teatro popular e intervenção política. [2]
Na Universidade, aproximou essa experiência das pesquisas em Educação. Sua tese de doutorado, desenvolvida na UFRGS em parceria com a Université Paris Nanterre, investigou como a performance pode contribuir para a transmissão de memórias traumáticas relacionadas à violência de Estado no ambiente escolar. [1][6]
O trabalho envolveu estudantes de escolas públicas de Porto Alegre e utilizou testemunhos de pessoas atingidas pela repressão para pensar outras possibilidades de abordagem da memória na educação. A pesquisa recebeu o Prêmio CAPES de Tese 2024 na área de Educação, reconhecimento concedido às melhores teses de doutorado selecionadas nas diferentes áreas de avaliação da instituição. [1]
A trajetória acadêmica de Marta, portanto, encontra diretamente sua experiência no teatro: como fazer com que acontecimentos que uma geração não viveu possam ser conhecidos, discutidos e elaborados pelas gerações seguintes?
“NÃO SE ESCOLHE”
Marta começou seu agradecimento não falando sobre si, mas lendo um poema.
Escolheu Não se escolhe, da escritora nicaraguense Gioconda Belli, que participou do processo revolucionário sandinista. O poema fala sobre nascer em um país e em determinado momento histórico sem poder escolhê-los, mas assumir responsabilidade diante do tempo que coube a cada pessoa viver.
Um de seus versos foi escolhido por Marta para aquela noite: “Todos temos um dever de amor a cumprir, uma história a fazer nascer, uma meta a alcançar.” [5] Depois da leitura, ela explicou por que havia levado o poema à cerimônia. Disse estar emocionada por dividir a homenagem com pessoas que considera fundamentais e que haviam deixado “um legado de justiça, verdade, memória”, construído por meio da resistência e da luta pela democracia. [5]
“SIGA A CAMINHADA”
A cena que antecedeu seu discurso talvez sintetize melhor o significado daquela última homenagem. De um lado estava Sônia Haas, integrante de uma família que atravessou décadas procurando respostas sobre João Carlos e reivindicando do Estado brasileiro memória, verdade e justiça. Do outro, uma atriz, pesquisadora e educadora de uma geração posterior, cujo trabalho utiliza justamente a arte e a educação para transmitir histórias da violência de Estado a jovens que não viveram aquele período. Sônia pediu: “Siga a caminhada.”
Marta respondeu falando da responsabilidade de carregar essa história através de seu trabalho. A última homenagem da noite terminou, assim, não apenas recordando aqueles que resistiram.Terminou perguntando, na prática, quem continuará contando suas histórias.
FONTES PARA CHECAGEM
[1] CAPES — “Pesquisa investiga o processo de aprendizagem reparador e coletivo”. 26 de dezembro de 2024.
O que comprova: Marta Haas como vencedora do Prêmio CAPES de Tese 2024 na área de Educação; título da tese; objeto da pesquisa e trajetória acadêmica.
[2] MINISTÉRIO DA CULTURA — Rede das Artes. Perfil de Marta Haas.
O que comprova: formação em Filosofia e Educação, atuação como atriz, pesquisadora e arte-educadora e participação na Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz desde 2001.
[3] INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS — “Guerrilha do Araguaia deixou marcas profundas que não tem como apagar”. Entrevista com Sônia e Tânia Haas.
O que comprova: Sônia Haas como irmã de João Carlos Haas Sobrinho; trajetória de João Carlos e atuação da família na busca por informações e memória.
[4] INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS — “Doutor Araguaia retrata vida e morte de João Carlos Haas Sobrinho”.
O que comprova: trajetória de João Carlos Haas Sobrinho, perseguição política e participação de Sônia Haas na preservação da memória do irmão.
[5] PRÊMIO RUBENS PAIVA – MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA. Cerimônia de 3 de setembro de 2026, Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Falas de Sônia Haas e Marta Haas.
O que comprova: entrega do prêmio; pedido de Sônia para que Marta continue a caminhada; leitura de Não se escolhe; declarações de Marta sobre João Carlos, a categoria Juventude e o papel da arte e da educação na transmissão da memória. Fonte primária da reportagem.
[6] FUNDAÇÃO CARLOS CHAGAS — “Prêmio Capes de Tese 2024: confira teses reconhecidas em Ensino e Educação”.
O que comprova: desenvolvimento da pesquisa entre UFRGS e Université Paris Nanterre e objeto da tese premiada.
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