MAPA DA CULTURA | SELTON MELLO TRAZ AO RS 40 ANOS DE MEMÓRIAS DO AUDIOVISUAL BRASILEIRO
- Alexandre Costa

- há 16 horas
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POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINA DEMOCRÁTICA
Ator, diretor e produtor recebe o Kikito de Cristal no Festival de Cinema de Gramado e ministra masterclass na PUCRS neste sábado (22). Entre as duas agendas, uma trajetória que passa por personagens populares, direção, memória política e pela crescente circulação internacional do cinema latino-americano.

O que uma trajetória individual consegue contar sobre quatro décadas do audiovisual brasileiro? A passagem de Selton Mello pelo Rio Grande do Sul nesta semana oferece uma oportunidade para olhar além da sucessão de personagens, filmes e prêmios que marcaram sua carreira e perceber também algumas das transformações vividas pelo cinema brasileiro.
Aos 53 anos e celebrando quatro décadas de trabalho, Selton chega ao Estado para dois encontros diferentes com essa história. Nesta quarta-feira (19/8), recebe o Kikito de Cristal, no 54º Festival de Cinema de Gramado. No sábado (22/8), às 20h, estará em Porto Alegre para uma masterclass no Centro de Eventos da PUCRS, promovida pela PUCRS Cultura com apoio da Jambô Editora. [1][2]
O ponto de partida da conversa em Porto Alegre será o livro autobiográfico Selton Mello: Eu Me Lembro. A proposta é revisitar os bastidores e processos de criação de uma carreira iniciada ainda na infância e que posteriormente incorporou também direção, produção e dublagem. O livro está incluído no ingresso e será entregue ao público na entrada do evento. [2]
Mais do que uma retrospectiva, porém, o encontro permite discutir uma palavra presente no próprio título da obra: memória.
DE CHICÓ A RUBENS PAIVA
Selton Mello pertence a uma geração de artistas cuja trajetória atravessou televisão, cinema comercial, produções autorais e diferentes momentos da indústria audiovisual brasileira. Entre seus personagens mais conhecidos está Chicó, de O Auto da Compadecida, que ajudou a transformar a adaptação da obra de Ariano Suassuna em uma referência popular do audiovisual nacional.
Como diretor, construiu outra frente de sua carreira, com trabalhos como O Palhaço, no qual também atuou. Mais recentemente, voltou ao centro de uma produção diretamente ligada à memória política brasileira ao interpretar Rubens Paiva em Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles.
O filme, baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva sobre a história de sua família e o desaparecimento do ex-deputado durante a ditadura, conquistou em 2025 o Oscar de Melhor Filme Internacional — o primeiro do Brasil na categoria. A atuação de Selton colocou, portanto, uma história sobre memória, violência de Estado e democracia no centro de uma obra que alcançou projeção mundial. [3]
É também por isso que falar de memória em sua trajetória ultrapassa o exercício autobiográfico. O trabalho de um ator acaba preservando personagens, histórias e conflitos de diferentes momentos do país. Às vezes pelo humor de Chicó; em outras, pela reconstrução dramática de um homem que o Estado brasileiro fez desaparecer.
POR QUE ISSO IMPORTA?
A trajetória de Selton ajuda a mostrar como o audiovisual constrói parte da memória cultural de um país. Filmes não são apenas entretenimento nem permanecem restritos ao momento em que chegam às salas de cinema. Eles preservam linguagens, comportamentos e conflitos, recuperam histórias e podem apresentar a novas gerações acontecimentos que não viveram.
Essa dimensão se torna ainda mais relevante quando uma carreira de quatro décadas é revisitada num momento de renovada projeção internacional do cinema brasileiro.
O reconhecimento em Gramado ocorre justamente depois de Ainda Estou Aqui alcançar o Oscar e enquanto Selton participa de outra produção que atravessa fronteiras nacionais.
DE CANNES A GRAMADO, UMA PONTE LATINO-AMERICANA
O filme é La Perra, dirigido pela chilena Dominga Sotomayor e realizado em coprodução entre Chile e Brasil. O longa estreou em maio na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes e agora integra a programação do Festival de Gramado. Selton está no elenco e também participa como produtor executivo. [4][5]
Baseada no romance homônimo da escritora colombiana Pilar Quintana, a história acompanha Silvia, interpretada por Manuela Oyarzún, uma mulher que vive em uma ilha remota no sul do Chile e resgata uma cachorra filhote. O vínculo entre as duas conduz a personagem ao confronto com traumas, ressentimentos e relações rompidas.
Na adaptação, Sotomayor deslocou a história da selva colombiana do romance para uma paisagem fria e insular chilena, numa construção mais atmosférica. Ao falar sobre a circulação internacional da obra, a diretora também chamou atenção para uma função fundamental dos festivais: permitir que produções autorais e menos orientadas pela lógica comercial encontrem públicos mais amplos.
É um aspecto que ajuda a explicar por que La Perra importa para além da presença de um ator brasileiro conhecido. A obra aproxima profissionais e cinematografias do Chile, Brasil e Colômbia, demonstrando possibilidades de cooperação cultural dentro da própria América Latina. [4]
Depois de Cannes, o percurso passa agora pelo Rio Grande do Sul. A programação de Gramado prevê La Perra na reta final do festival, que termina no sábado (22). [5]
O RECONHECIMENTO EM GRAMADO
Antes da chegada a Porto Alegre, Selton recebe nesta quarta-feira (19), às 20h, no Palácio dos Festivais, o Kikito de Cristal. A distinção é destinada a personalidades com trajetórias de destaque no cinema brasileiro e projeção internacional. [1]
Nesta 54ª edição, o festival decidiu homenagear dois artistas com o prêmio: Selton Mello e Maria Fernanda Cândido. É a primeira vez que dois nomes recebem o Kikito de Cristal em uma mesma edição. [6]
Gramado e Porto Alegre acabam oferecendo, assim, dois olhares complementares sobre o mesmo artista. Na Serra, o festival reconhece uma trajetória já consolidada e sua projeção para além do país. Na Capital, Selton retorna às próprias lembranças para discutir como essa trajetória foi construída.
Entre os dois encontros está uma história que ajuda também a contar parte das transformações recentes do audiovisual brasileiro: da televisão ao cinema, do ator ao diretor e produtor, de Chicó a Rubens Paiva e, agora, de Cannes a Gramado.
SERVIÇO
MASTERCLASS COM SELTON MELLO — EU ME LEMBRO
Quando: sábado, 22 de agosto, às 20h
Onde: Centro de Eventos da PUCRS — Prédio 41
Endereço: Avenida Ipiranga, 6681 — Porto Alegre
Realização: PUCRS Cultura, com apoio da Jambô Editora
Ingressos: disponíveis pela plataforma Sympla; o livro Selton Mello: Eu Me Lembro está incluído no ingresso e será entregue na entrada. Não haverá sessão de autógrafos. [2]
FONTES PARA CHECAGEM
[1] FESTIVAL DE CINEMA DE GRAMADO — KIKITO DE CRISTAL
O que comprova: homenagem a Selton Mello com o Kikito de Cristal e programação da entrega do prêmio em 19 de agosto, às 20h, no Palácio dos Festivais
Programação oficial do 54º Festival de Cinema de GramadoKikito de Cristal — Festival de Cinema de Gramado
[2] MASTERCLASS EM PORTO ALEGRE
O que comprova: realização em 22 de agosto, às 20h, no Centro de Eventos da PUCRS; promoção da PUCRS Cultura; participação da Jambô Editora; livro incluído no ingresso e ausência de sessão de autógrafos.
[3] TRAJETÓRIA E “AINDA ESTOU AQUI”
O que comprova: relação da homenagem com a trajetória de Selton, participação em Ainda Estou Aqui e Oscar de Melhor Filme Internacional conquistado pela produção em 2025.
[4] “LA PERRA” — CANNES E COPRODUÇÃO LATINO-AMERICANA
O que comprova: direção de Dominga Sotomayor, participação de Selton Mello, adaptação do romance de Pilar Quintana, características da produção e passagem pelo Festival de Cannes.
[5] “LA PERRA” NO FESTIVAL DE GRAMADO
O que comprova: presença de La Perra na programação da 54ª edição e participação de Selton como ator e produtor executivo.
[6] SELTON MELLO E MARIA FERNANDA CÂNDIDO
O que comprova: os dois artistas são os homenageados com o Kikito de Cristal na edição de 2026 e a concessão inédita da distinção a dois nomes na mesma edição.
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