MAPA DA CULTURA | O FOTÓGRAFO QUE ESCONDEU IMAGENS PARA SALVAR A MEMÓRIA DO URUGUAI
- Alexandre Costa

- há 16 horas
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POR ALEXANDRE COSTA | ESQUINA DEMOCRÁTICA
Documentário sobre Aurelio González tem estreia brasileira no CineBancários, em Porto Alegre, com a presença do fotógrafo de 94 anos. A história dos negativos escondidos às vésperas da ditadura uruguaia mostra como preservar uma imagem pode também ser um ato de resistência.

O que acontece quando uma ditadura tenta apagar a história, mas alguém consegue esconder as imagens? Em 1973, diante da escalada repressiva que desembocaria no golpe de Estado no Uruguai, negativos produzidos pela equipe de fotógrafos do jornal El Popular foram escondidos no edifício onde funcionava a publicação, em Montevidéu. Mais de três décadas depois, grande parte daquele arquivo reapareceu e passou a constituir um dos mais importantes registros visuais das lutas sociais, políticas e sindicais que antecederam a ditadura uruguaia.
No centro dessa história está Aurelio González, então chefe da equipe fotográfica do El Popular, cuja trajetória chega agora ao cinema. O documentário O fotógrafo que escondeu e salvou a história terá sua estreia brasileira em Porto Alegre, no dia 31 de agosto, às 19h, no CineBancários, com entrada franca e presença do próprio homenageado.
A sessão integra uma edição especial do Cine-Debate promovido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SindJoRS) e pelo Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região. Após a exibição, González participa de conversa com o público e recebe uma homenagem às vésperas do Dia do Repórter Fotográfico e do Repórter Cinematográfico, celebrado em 2 de setembro.
QUANDO FOTOGRAFAR TAMBÉM ERA RESISTIR
Nascido em 1931 no Marrocos, então sob domínio espanhol, Aurelio González chegou ainda jovem ao Uruguai. Tornou-se fotógrafo do El Popular, jornal ligado ao Partido Comunista do Uruguai, e acompanhou pelas lentes um país atravessado por mobilizações operárias e estudantis, conflitos políticos e uma repressão que crescia à medida que se aproximava o golpe de 27 de junho de 1973. A Biblioteca do Poder Legislativo uruguaio registra González como fotógrafo da publicação desde sua fundação, em 1957, até o fechamento durante a ditadura. [1]
Suas fotografias também documentaram a histórica greve geral desencadeada em resistência ao golpe, além das manifestações e ocupações que marcaram aquele período. Mas preservar as imagens tornou-se tão importante quanto produzi-las.
Diante do risco de apreensão e destruição do arquivo, milhares de negativos do El Popular foram escondidos no Edifício Lapido, sede do jornal. É importante fazer aqui uma precisão histórica: embora a trajetória de González esteja profundamente associada à preservação desse patrimônio, o acervo contém fotografias produzidas por toda a equipe do jornal, integrada também por Julio Alonso, Daniel Bauer, Eduardo Bonomi, Hermes Cuña, Ariel Fernández, Fernando González, Héctor Mesa e Sergio Pereyra. [2]
González acabaria perseguido e partiria para o exílio. Os negativos permaneceriam escondidos.
UM ARQUIVO QUE SOBREVIVEU À DITADURA
A maior parte daquele material somente seria reencontrada em 2006, quando o Centro de Fotografia de Montevidéu preparava justamente uma exposição em homenagem a Aurelio González. Os negativos haviam permanecido ocultos por quase 33 anos. Recuperados em boas condições, passaram por processos de conservação, documentação e digitalização. [3]
O conteúdo ajuda a explicar a dimensão histórica da descoberta.
São imagens de manifestações políticas, movimentos estudantis, reivindicações dos trabalhadores, episódios de repressão policial, vida cultural, esporte e cotidiano uruguaio. Em outras palavras, não sobreviveram apenas fotografias de uma ditadura: sobreviveu uma parte da memória de uma sociedade nos anos que antecederam a ruptura democrática.
Novos materiais ainda apareceriam posteriormente. Documentação do Centro de Fotografia registra outro conjunto encontrado em 2022 e incorporado ao arquivo. [4]
É essa combinação entre fotografia, risco, perseguição, exílio e recuperação da memória que está no centro do documentário.
UMA HISTÓRIA URUGUAIA PRODUZIDA POR GAÚCHOS
O fotógrafo que escondeu e salvou a história foi produzido pelos gaúchos Itamar Aguiar, Marco Villalobos, Milton Cougo e Zé Carlos de Andrade, com colaboração da jornalista uruguaia Amalia Antúnez.
O documentário estreou em julho, em Montevidéu, e chega agora pela primeira vez ao público brasileiro. A escolha de Porto Alegre reforça uma relação histórica e cultural que atravessa a fronteira entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai — inclusive na memória das ditaduras que atingiram os países do Cone Sul.
A exibição ganha outra dimensão pela presença do próprio Aurelio González, hoje com 94 anos. Não será apenas a apresentação de um personagem registrado pelo cinema, mas o encontro do público com uma testemunha que utilizou a fotografia para documentar acontecimentos e participou da preservação de um arquivo que o autoritarismo poderia ter feito desaparecer.
POR QUE ISSO IMPORTA?
Porque regimes autoritários não perseguem apenas pessoas. Também procuram controlar aquilo que poderá ser lembrado sobre o que fizeram.
Arquivos destruídos, documentos escondidos, fotografias apreendidas e informações mantidas em segredo fazem parte da disputa pela memória. Quando um registro sobrevive, ele pode adquirir uma importância que seu autor talvez sequer pudesse dimensionar no momento em que apertou o disparador da câmera.
A presidenta do SindJoRS, Laura Santos Rocha, resume essa dimensão ao afirmar que cada fotografia preservada representa um testemunho contra o esquecimento e um registro da resistência diante da violência de Estado. Já o presidente da Arfoc-RS, Rodrigo Ziebell, destaca que a trajetória de González demonstra a força da imagem para preservar a memória e contar a história.
A história dos negativos de El Popular também oferece uma resposta concreta à pergunta que orienta o Mapa da Cultura. Uma fotografia importa não apenas pelo instante que registra, mas pela possibilidade de permitir que outras gerações enxerguem aquilo que alguém tentou apagar.
Mais de meio século depois do golpe uruguaio, aquelas imagens continuam existindo.
A ditadura conseguiu fechar o jornal, perseguiu seus trabalhadores e obrigou González a partir para o exílio, mas não conseguiu destruir as imagens que ajudariam o futuro a enxergar aquele passado.
SERVIÇO
O FOTÓGRAFO QUE ESCONDEU E SALVOU A HISTÓRIA — ESTREIA BRASILEIRA
Data: segunda-feira, 31 de agosto, às 19hLocal: CineBancários
Endereço: Rua General Câmara, 424 — Centro Histórico — Porto Alegre
Entrada: franca
Participação: Aurelio González e equipe do documentário
Promoção: SindJoRS e SindBancários
Apoio: Arfoc-RS, ARI, Fenaj, Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH) e Rel-UITA.
RODA DE CONVERSA E ATENDIMENTO À IMPRENSA
Data: terça-feira, 1º de setembro, às 15h
Local: Associação Riograndense de Imprensa (ARI)
Endereço: Avenida Borges de Medeiros, 915 — Centro Histórico — Porto Alegre
Entrada: gratuita.
Esta matéria foi produzida a partir de texto de Stela Pastore, da Diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SindJoRS), complementado pelo Esquina Democrática com pesquisa histórica e documental.
FONTES PARA CHECAGEM
[1] BIBLIOTECA DO PODER LEGISLATIVO DO URUGUAI — AURELIO GONZÁLEZ E EL POPULAR
O que comprova: atuação de González no El Popular desde 1957 até o fechamento do jornal em 1973; registro das mobilizações sociais e da greve geral; recuperação posterior dos negativos.
[2] INTENDÊNCIA DE MONTEVIDÉU — ARQUIVO FOTOGRÁFICO DE EL POPULAR
O que comprova: composição coletiva da equipe de fotógrafos; ocultação dos negativos no Edifício Lapido em 1973; conteúdo político, social, sindical, cultural e cotidiano das imagens preservadas.
[3] CENTRO DE FOTOGRAFIA DE MONTEVIDÉU — RECUPERAÇÃO DO ACERVO
O que comprova: localização da maior parte dos negativos em 2006, depois de quase 33 anos escondidos; conservação e incorporação do material ao acervo fotográfico.
[4] CENTRO DE FOTOGRAFIA DE MONTEVIDÉU — NOVOS NEGATIVOS
O que comprova: existência de novo conjunto de fotografias encontrado em 2022 e incorporado posteriormente ao arquivo de El Popular.
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