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INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NÃO É PROGRESSO E SIM UM PROJETO DE DOMINAÇÃO

Atualizado: há 6 horas

A expressão “inteligência artificial” ocupa hoje o centro de um entusiasmo tecnológico que parece dispensar perguntas incômodas. Na palestra no 35º Congresso Nacional da CNTE, o neurocientista Miguel Nicolelis faz o movimento oposto: ele questiona o próprio nome do fenômeno e propõe um enquadramento político e histórico. Em vez de tratar IA como “evolução inevitável”, ele a descreve como um vetor de poder que tenta reorganizar a vida social, a cultura e a própria educação.

A primeira operação retórica do neurocientista é radical e deliberada: negar o encanto do termo. Ele diz que chama de “IA” algo que, segundo sua avaliação, “não é nem inteligente nem artificial”. A crítica não é de detalhe, mas de fundamento. Para Nicolelis, inteligência é uma propriedade que emergiu na evolução biológica e está ligada à sobrevivência em ambientes em mudança. Nessa chave, a inteligência humana não se confunde com desempenho estatístico de linguagem nem com automação de tarefas.

Essa distinção prepara o terreno para o que ele chama de “o verdadeiro dilema” do tema. Na transcrição, Nicolelis afirma que o projeto associado à IA é, na origem e na finalidade, um “projeto de dominação”, um “projeto de controle” que visaria à homogeneização da mente humana e ao enfraquecimento do dissenso intelectual. A formulação é explícita: trata-se, para ele, de produzir um tipo de ser humano que “aceita passivamente” doutrinações definidas pelo mercado e perde a capacidade de debate sobre direitos e condições de vida.

A partir daí, a palestra desloca o debate do terreno do “progresso tecnológico” para uma questão histórica: tecnologia não é sinônimo automático de progresso. Nicolelis sustenta que, ao longo da história, houve repetidas vezes a crença de que qualquer avanço técnico seria necessariamente benéfico. Na fala, ele critica a ideia de que a simples existência de novas máquinas e sistemas digitais deveria ser celebrada como melhoria da condição humana. Ele contrapõe a isso uma definição de ciência orientada por finalidade: ciência, segundo ele, existe para servir à humanidade e melhorar a condição humana, e não para submeter pessoas à lógica de mercado.

Nesse ponto, o alvo principal deixa de ser um software específico e passa a ser um modelo de sociedade. Na transcrição, Nicolelis associa a expansão da IA a um processo de captura do cotidiano por dispositivos digitais, descrevendo uma forma de servidão: “transformar-nos em escravos dessas pequenas máquinas digitais”. O peso dessa frase, no contexto da palestra, não está em condenar tecnologia em bloco, mas em denunciar uma tendência de reorganização da vida em torno de plataformas, métricas, previsões e padronizações.

A crítica ao termo “inteligência” também é sustentada por um argumento neurocientífico que ele apresenta na palestra: o cérebro humano não operaria como um sistema digital. Ele contrasta a lógica digital (zero e um) com a descrição do cérebro como um sistema analógico, que preencheria infinitos valores entre esses extremos. Na transcrição, ele afirma com ênfase que o cérebro humano “nunca, jamais” seria substituído por um sistema digital. Esse ponto é central para o enquadramento: não se trata apenas de temer máquinas “mais capazes”, mas de afirmar que há dimensões da condição humana que não cabem na ideia de computação como explicação total. Para sustentar esse argumento, Nicolelis menciona Alan Turing e associa a discussão à noção de fenômenos “não computáveis”. Na palestra, ele afirma que emoções, habilidades cognitivas e a condição humana não poderiam ser reduzidas a fórmula matemática; e que, quando um sistema digital encontra um fenômeno não computável, ele precisaria recorrer ao que Turing chamou de “oráculo”, que seriam os próprios seres humanos. O argumento, aqui, é usado para rejeitar a promessa de que a IA possa substituir, no núcleo, o humano.

A partir desse arcabouço, a palestra avança para um eixo político: o risco de se impor ao ser humano um modo de funcionamento “digital”. Nicolelis descreve o cérebro como um sistema plástico, capaz de se adaptar ao ambiente e economizar energia. O alerta é que, quando se força a vida a funcionar segundo regras digitais, o cérebro tende a se adaptar ao novo padrão, perdendo capacidades desenvolvidas ao longo de milhões de anos. Na transcrição, ele exemplifica esse raciocínio com a perda de navegação espacial quando se depende integralmente de aplicativos. O exemplo funciona como metáfora: a adaptação pode significar empobrecimento de capacidades humanas em nome de conveniência.

Uma das muitas críticas levantadas durante a palestra é o vínculo que Nicolelis estabelece entre homogeneização cultural e morte da política. Ele diz que, quando se homogeneíza cultura humana e se impede a dissidência intelectual, a política é “morta” porque sobra apenas uma opinião: aquela disseminada por bilhões de dispositivos digitais como norma a ser seguida. Aqui, o alerta deixa de ser apenas educacional ou tecnológico e passa a ser civilizacional: a disputa não é por ferramenta, mas por pluralidade, debate e escolha.

O neurocientista também ataca a ideia de “artificial” como mito. Nicolelis afirma que esses sistemas dependem de trabalho humano massivo para coleta e rotulagem de dados e do uso de dados pessoais fornecidos voluntariamente em redes digitais. Ele descreve um circuito em que pessoas trabalham por quase nada para treinar sistemas, e em que dados de usuários alimentam modelos sem transparência suficiente. A crítica central é a de uma cadeia de produção invisibilizada: a IA, nesse enquadramento, não é uma entidade autônoma, mas um sistema sustentado por exploração de trabalho e extração de dados.

Em outro momento, Nicolellis faz uma crítica cultural: esses sistemas coletariam o passado para prever o futuro e, por isso, tenderiam a produzir um “futuro sem futuro”, porque nada novo seria criado, mas sim recombinações e “plágio” do que já existe. Ele conecta isso ao incentivo à criatividade humana: se a produção intelectual é terceirizada para a máquina, qual o estímulo para estudantes criarem algo verdadeiramente novo? O argumento prepara o terreno para a Parte 2, que vai tratar diretamente da sala de aula e da avaliação escolar, mas aqui já aparece como crítica ao empobrecimento cultural e à padronização.

Ao final desta primeira parte, a síntese é clara e corresponde ao que a transcrição sustenta: Nicolelis não discute IA como moda tecnológica nem como simples ferramenta neutra. Ele a apresenta como um projeto de poder, com efeitos sobre dissenso, cultura, política e a formação do humano. A questão que fica não é se haverá mais tecnologia, mas quem a controla, a serviço de quê, e com quais custos para a condição humana.

Na Parte 2, a série entra no terreno dos impactos concretos descritos por Nicolelis: educação (Suécia e Finlândia, professor e diálogo), trabalho (automação e remuneração), saúde (triagens e empatia) e democracia. A Parte 3, por sua vez, fecha a série com a pergunta que atravessa toda a palestra: soberania cognitiva ou dominação digital? PARTE 2 - A IA AMEAÇA A EDUCAÇÃO, O TRABALHO E A DEMOCRACIA

FONTES E LINKS Palestra do neurocientista Miguel Nicolelis | 35º Congresso Nacional da CNTE (YouTube): https://youtu.be/BH3oP-s6DJQ

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