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A IA AMEAÇA A EDUCAÇÃO, O TRABALHO E A DEMOCRACIA

Atualizado: há 3 horas

Se na primeira parte da série a crítica de Miguel Nicolelis se concentrou nos fundamentos políticos e históricos da chamada inteligência artificial, nesta segunda etapa o debate desce ao chão da vida cotidiana. A palestra apresentada no 35º Congresso Nacional da CNTE dedica atenção especial aos efeitos já observáveis da digitalização intensiva sobre educação, trabalho, saúde e instituições democráticas. Não se trata, em sua fala, de um cenário futurista, mas de processos em curso.

EDUCAÇÃO: QUANDO A TELA SUBSTITUI O DIÁLOGO

Um dos pontos mais enfáticos da palestra diz respeito à educação. Nicolelis afirma que há evidências concretas de prejuízos cognitivos associados à introdução massiva de sistemas digitais no ensino básico. Ele cita a decisão recente da Suécia de remover computadores de programas educacionais em todo o país, após décadas de avaliação dos efeitos do ensino digital. Segundo o neurocientista, a Finlândia já havia identificado problemas semelhantes em 2019.

Na transcrição, os efeitos mencionados são claros: perda de criatividade, empobrecimento do vocabulário, enfraquecimento do raciocínio lógico e do pensamento crítico. O argumento central não é tecnológico, mas pedagógico. Nicolelis sustenta que crianças passaram a reproduzir conteúdos apresentados em telas, em vez de desenvolver processos próprios de elaboração intelectual mediados por um professor.

A crítica se ancora numa concepção clássica de aprendizagem. Nicolelis lembra que, desde a Grécia antiga, filósofos como Sócrates afirmavam que não há aprendizado sem diálogo. Para ele, não existe sala de aula — ainda que improvisada num parque — sem a troca humana entre aluno e professor. Nenhum sistema computacional, afirma, é capaz de substituir essa relação, porque ela envolve interação intelectual, emoção, intuição e experiência.

Esse ponto não aparece como defesa nostálgica do passado, mas como alerta sobre a redefinição silenciosa do papel do professor. Quando a tecnologia ocupa o centro do processo educativo, o risco apontado é o de reduzir a educação a replicação de padrões, enfraquecendo exatamente aquilo que deveria formar cidadãos críticos.

TRABALHO: AUTOMATIZAÇÃO E O FIM DA REMUNERAÇÃO HUMANA

No campo do trabalho, a fala de Nicolelis é igualmente direta. Ele afirma que a inteligência artificial é apenas o capítulo mais recente de um processo histórico de automação cujo objetivo central é reduzir o custo do trabalho humano. Ao automatizar tarefas, empresas eliminam o maior custo de produção e ampliam lucros — uma lógica que ele descreve como antiga e recorrente.

Na transcrição, o neurocientista alerta que a definição de trabalho está sendo alterada sem debate público. Ele recorda uma reunião com sindicatos, em 2016, na qual advertiu que a automação completa colocaria em risco o próprio conceito de trabalho remunerado. O problema, segundo ele, não é apenas a substituição de funções, mas a transformação da criatividade e da produção intelectual em serviços cobrados por acesso.

Nicolelis cita declarações recentes de executivos do setor tecnológico que apontam para um modelo em que indivíduos não terão mais seus próprios sistemas, mas dependerão de plataformas em nuvem para realizar tarefas básicas — pagando por minuto de uso para escrever textos, produzir planilhas ou criar apresentações. Nesse modelo, tudo o que é criado passa a pertencer ao proprietário da infraestrutura digital.

A crítica, aqui, não é à análise de grandes volumes de dados — prática que o próprio Nicolelis afirma utilizar há décadas —, mas à apropriação privada do trabalho cognitivo e à concentração de poder econômico em poucas plataformas.

SAÚDE: QUANDO A EMPATIA NÃO É PROGRAMÁVEL

Outro campo sensível abordado na palestra é o da saúde. Nicolelis relata iniciativas, nos Estados Unidos, de utilizar sistemas digitais para triagem em emergências hospitalares. O alerta é duro: decisões automatizadas nesse contexto podem custar vidas.

Para sustentar o argumento, ele recorre à própria experiência como médico em formação, narrando episódios em que a avaliação clínica baseada em experiência acumulada, intuição e sensibilidade foi decisiva para salvar pacientes. Segundo ele, nenhum sistema computacional é capaz de reproduzir empatia, solidariedade ou a leitura fina de sinais humanos que médicos desenvolvem ao longo de décadas.

O ponto central não é negar o uso de tecnologia na medicina, mas questionar a substituição do julgamento humano por decisões automatizadas em situações críticas. Para Nicolelis, há limites éticos e cognitivos que não podem ser ultrapassados sem consequências graves.

DEMOCRACIA E PADRONIZAÇÃO DO COMPORTAMENTO

Ao tratar da democracia, a crítica se conecta diretamente aos temas anteriores. Nicolelis afirma que a homogeneização cultural promovida por sistemas digitais ameaça o dissenso intelectual — elemento essencial da vida política. Quando bilhões de dispositivos passam a difundir padrões de comportamento, opinião e consumo, o espaço para divergência se estreita.

Na palestra, ele associa esse processo ao enfraquecimento da política enquanto campo de debate. Se apenas uma opinião se torna dominante — aquela definida por algoritmos e plataformas —, a política perde sua função de mediação de conflitos e escolhas coletivas. O risco descrito não é abstrato: trata-se da substituição do debate público por normas implícitas impostas pela tecnologia.

Essa padronização, segundo o neurocientista, afeta também a cultura. Ele menciona o declínio da leitura, especialmente da poesia, como sintoma de um empobrecimento simbólico. A poesia, lembra, foi uma das primeiras formas de expressão humana e ocupou papel central na construção das culturas. Sua perda não é apenas literária, mas civilizacional.

UM ALERTA QUE NÃO É FUTURISTA

Ao reunir educação, trabalho, saúde e democracia, a Parte 2 da série evidencia que a crítica de Nicolelis não se dirige a um futuro distante, mas a transformações já em curso. A inteligência artificial, tal como apresentada em sua palestra, não aparece como ferramenta neutra aguardando regulamentação, mas como elemento ativo na reorganização das relações sociais, econômicas e políticas.

A consequência desse processo, segundo ele, é a redução progressiva do espaço de autonomia humana — seja na sala de aula, no trabalho, no cuidado com a vida ou na participação democrática. O que está em disputa não é apenas eficiência, mas o lugar do humano em sistemas cada vez mais automatizados.

Na Parte 3, a série avança para a síntese final da palestra. A pergunta que atravessa toda a fala de Miguel Nicolelis deixa de ser técnica e se torna histórica: diante desse cenário, a sociedade escolherá preservar a soberania cognitiva ou aceitar a dominação digital? PARTE 3 - SOBERANIA COGNITIVA OU DOMINAÇÃO DIGITAL?

FONTES E LINKS

Palestra de Miguel Nicolelis | 35º Congresso Nacional da CNTE (YouTube):https://youtu.be/BH3oP-s6DJQ

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