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SOBERANIA COGNITIVA OU DOMINAÇÃO DIGITAL?

Ao longo de sua palestra, Miguel Nicolelis constrói um argumento que vai além da crítica tecnológica. O ponto de chegada de sua reflexão não é a rejeição de ferramentas digitais nem a defesa de um retorno ao passado, mas a formulação de uma escolha histórica. Para ele, a sociedade contemporânea se encontra diante de uma encruzilhada: preservar a soberania cognitiva humana ou aceitar um processo de dominação digital que redefine, silenciosamente, o que significa pensar, aprender e decidir.


A noção de soberania cognitiva aparece como eixo implícito de toda a fala. Nicolelis sustenta que o ser humano é resultado de milhões de anos de evolução biológica e cultural, durante os quais se desenvolveram capacidades que não podem ser reduzidas a cálculo estatístico. Pensamento crítico, imaginação, empatia, dissenso e criação não surgem da repetição do passado, mas da capacidade de romper padrões. Preservar essa soberania significa garantir o direito de errar, criar e discordar.


O risco apontado pelo neurocientista é o de um processo inverso: a homogeneização da mente humana. Quando sistemas digitais passam a organizar a educação, o trabalho, a cultura e a circulação de ideias segundo padrões previsíveis, a diversidade intelectual se estreita. Na palestra, Nicolelis associa esse movimento à morte da política enquanto espaço de conflito legítimo. Sem dissenso, resta apenas a norma — aquela difundida em escala massiva por dispositivos e plataformas.


Essa crítica não se limita ao plano simbólico. Nicolelis insiste que a dominação digital se materializa em estruturas econômicas e institucionais: plataformas que concentram dados, poder de decisão e propriedade intelectual; modelos de negócio que transformam usuários em produtos; infraestruturas que consomem recursos públicos e naturais enquanto oferecem poucos benefícios sociais. A dominação, nesse sentido, não é abstrata: ela reorganiza territórios, relações de trabalho e prioridades políticas.


Na parte final da palestra, o neurocientista recorre a uma imagem que sintetiza sua preocupação com a perda da escolha humana. Ao mencionar a pintura central da Capela Sistina, de Michelangelo, ele chama atenção para o detalhe do dedo de Adão que não se alinha completamente ao de Deus. Para Nicolelis, essa distância simboliza algo fundamental: o direito humano de dizer “não”, de não aceitar passivamente um dogma imposto, seja ele religioso, político ou tecnológico.


A metáfora é central para compreender o alerta. O problema não é a existência de máquinas, algoritmos ou sistemas digitais, mas a substituição progressiva da decisão humana por automatismos apresentados como inevitáveis. Quando escolhas são delegadas a sistemas opacos, treinados a partir do passado e controlados por poucos atores econômicos, a autonomia se dissolve sem alarde.


Nicolelis enfatiza que trabalhou por décadas desenvolvendo tecnologias voltadas à saúde e à reabilitação, e que nunca defendeu a rejeição da ciência ou da inovação. O que ele questiona é a inversão de finalidade: quando a tecnologia deixa de servir à condição humana e passa a exigir que seres humanos se adaptem a ela. Nesse cenário, o risco não é a obsolescência de profissões, mas a erosão de capacidades humanas fundamentais.


A pergunta que dá título a esta parte — soberania cognitiva ou dominação digital? — não aparece como dilema retórico na palestra, mas como convocação. Trata-se, segundo Nicolelis, de uma decisão que extrapola ciclos eleitorais e políticas setoriais. Está em jogo o tipo de sociedade que se quer construir e o lugar reservado à educação, à cultura e ao pensamento crítico nesse projeto.


Ao fechar sua fala, o neurocientista sugere que o futuro não será decidido apenas por engenheiros, investidores ou empresas de tecnologia. Educadores, sindicatos, comunidades científicas e a sociedade em geral têm papel central na definição de limites, prioridades e valores. Preservar a soberania cognitiva não significa recusar a técnica, mas submeter a técnica ao bem comum.


A série se encerra, portanto, com uma constatação que atravessa toda a palestra: a inteligência artificial, tal como vem sendo apresentada e implementada, não é apenas um conjunto de ferramentas. É uma disputa sobre poder, autonomia e humanidade. A resposta a essa disputa não será dada por algoritmos, mas por escolhas políticas, culturais e éticas feitas no presente. LEIA A SÉRIE COMPLETA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, PODER E CONDIÇÃO HUMANA: O QUE DIZ MIGUEL NICOLELIS


FONTES E LINKS

Palestra de Miguel Nicolelis | 35º Congresso Nacional da CNTE (YouTube):https://youtu.be/BH3oP-s6DJQ


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