top of page

FLÁVIO KOUTZII: DA RESISTÊNCIA A DUAS DITADURAS AO ALERTA CONTRA A ULTRADIREITA

Ex-preso político relembra a formação de uma geração marcada pelas lutas contra o nazismo, o colonialismo e as ditaduras latino-americanas e adverte que o avanço da ultradireita representa “um assalto à razão”.



Quando Flávio Koutzii recebeu o Prêmio Rubens Paiva – Memória, Verdade e Justiça, na noite de 3 de setembro, em Porto Alegre, começou agradecendo a homenagem pelo que ela representava: a continuidade da luta pelos direitos humanos. Aos 83 anos, depois de ter enfrentado perseguição política no Brasil, exílio e mais de quatro anos de prisão na Argentina, ele advertiu que essa luta permanece atual diante das circunstâncias do mundo contemporâneo. [1]


A história política de Koutzii começou muito antes dos cárceres argentinos. Nascido em Porto Alegre, em 20 de março de 1943, estudou no Colégio de Aplicação e ingressou, em 1963, nos cursos de Filosofia e Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foi no movimento estudantil que viveu suas primeiras experiências de militância política. [1][2]


Durante a homenagem, porém, Koutzii recuou ainda mais no tempo para explicar sua formação. Contou que cresceu ouvindo do pai duas histórias que classificou como suas “canções de ninar”: a resistência do Gueto de Varsóvia e a Batalha de Stalingrado, dois episódios decisivos da luta contra o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial. [1]


Mais do que lembranças familiares, aqueles relatos, segundo ele, tiveram importância decisiva em sua formação. Mostravam a resistência dos que, materialmente mais fracos, enfrentaram forças muito superiores, persistiram e sobreviveram. “Foi uma experiência existencial muito fundante na minha personalidade”, afirmou. [1]


UMA GERAÇÃO FORMADA PELAS LUTAS DOS ANOS 1960

A formação política de Koutzii avançou em meio às transformações que marcaram a década de 1960. Em seu discurso, ele situou sua geração no mesmo ambiente histórico das lutas anticoloniais e dos movimentos de independência na África e destacou especialmente a Guerra do Vietnã. [1]


Ao recordar a derrota imposta pelos vietnamitas aos Estados Unidos, utilizou uma imagem para descrever a resistência daquele povo: “um país de bambu, mas com nervos de aço e moral de ferro”. Para Koutzii, não se tratava de fanatismo, mas da determinação de preservar a independência e os direitos de um povo. [1]


No Brasil, sua militância se desenvolveu sob a ditadura instalada em 1964. Com o recrudescimento da repressão, especialmente depois do AI-5, Koutzii passou à clandestinidade e deixou o país em 1970. Seguiu inicialmente para o Chile, onde acompanhou o início do governo de Salvador Allende, e depois para a Argentina, onde retomou a militância política. [2]


A mudança de país não o afastaria da repressão que se espalhava pela América Latina.


QUATRO ANOS NOS CÁRCERES ARGENTINOS

Koutzii foi sequestrado e preso na Argentina em 1975, antes mesmo do golpe que, no ano seguinte, levaria o general Jorge Rafael Videla ao poder. Formalmente processado por atividades políticas, permaneceu encarcerado por mais de quatro anos e passou por diferentes prisões argentinas. [2][3]


A partir de 1976, o país mergulhou em uma das mais violentas ditaduras da América Latina. Para Koutzii, a condição de preso político brasileiro significava também viver sob a ameaça permanente do aparato repressivo argentino. Sua prisão mobilizou familiares, organizações políticas, entidades de direitos humanos e os movimentos pela anistia. Documentos preservados pelo Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul registram uma campanha específica pela libertação de Flávio Koutzii, preso na Argentina, e Flávia Schilling, encarcerada no Uruguai. O acervo do Memórias Reveladas também conserva material da campanha “Flávio Koutzii, vivo e livre!”. [4]


Anos mais tarde, Koutzii reconheceria que aquela mobilização pode ter sido decisiva para sua sobrevivência. “O trabalho constante, intenso e sistemático dos comitês pela anistia e dos meus familiares não apenas encurtou minha permanência nas prisões como também pode ter salvo a minha vida”, escreveu em depoimento sobre o período. [2] Condenado a seis anos e meio de prisão, acabou indultado e foi libertado em junho de 1979. Sem condições de retornar definitivamente ao Brasil, seguiu para a França como refugiado político sob proteção das Nações Unidas. [2]


“PEDAÇOS DE MORTE NO CORAÇÃO”

Na França, Koutzii estudou Sociologia na École des Hautes Études en Sciences Sociales e transformou a experiência dos cárceres argentinos em objeto de pesquisa. Sua tese analisou o sistema prisional destinado aos presos políticos e as formas de resistência desenvolvidas dentro das prisões. [2][3]


O trabalho daria origem a Pedaços de Morte no Coração, publicado no Brasil em 1984. Mais do que uma descrição das torturas e das condições carcerárias, o livro analisa os mecanismos utilizados pelo sistema repressivo para destruir física e psicologicamente os presos e as estratégias desenvolvidas por eles para preservar identidade, vínculos e capacidade de resistência. [3][5]


Koutzii permaneceu 14 anos longe do Brasil, entre Chile, Argentina e França. Retornou definitivamente a Porto Alegre em 1984. [2] A militância política prosseguiu por outro caminho. Participou da construção do Partido dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul, foi eleito vereador de Porto Alegre em 1988 e, dois anos depois, deputado estadual. Seria reeleito outras três vezes para a Assembleia Legislativa. Mais tarde, exerceu funções no Executivo estadual, entre elas a chefia da Casa Civil durante o governo Olívio Dutra. [1][6]


“UM ASSALTO À RAZÃO”

Foi a partir dessa trajetória que Koutzii chegou, em seu discurso no Prêmio Rubens Paiva, às preocupações com o presente. Ao falar sobre as ditaduras militares latino-americanas, observou que elas integraram um processo político mais amplo de reação da direita às formas de organização popular. Depois, voltou-se para o crescimento contemporâneo da ultradireita em diferentes partes do mundo. [1]


Sua avaliação foi contundente. Para Koutzii, valores elementares estão sendo sistematicamente atacados, ao mesmo tempo em que se procura desconstituir a própria capacidade de análise da sociedade. “É um assalto à razão e é um desmanche do pensamento, é um convite permanente à irracionalidade, à brutalidade e à violência.” [1]


Koutzii também mencionou a construção do Partido dos Trabalhadores como parte da experiência política de sua geração. Sem ignorar “suas virtudes e seus defeitos”, afirmou que o partido acabou ocupando um espaço que classificou como “espantoso e extremamente importante” na sociedade brasileira. [1]


Aos 83 anos, ele reconheceu que a idade e acontecimentos recentes de sua vida o levaram a pensar com maior frequência sobre limites e fronteiras. Não apresentou, entretanto, uma receita para responder aos desafios políticos que identifica no mundo atual.

Preferiu recorrer à experiência acumulada.


“A consciência do vivido, do lutado, do resistido e dos valores que permitiram isso são aquelas que vão permitir também enfrentar circunstâncias do presente para construir a possibilidade de um melhor futuro.” [1]


Era também uma síntese possível para uma trajetória que começou entre as histórias que o pai contava sobre a resistência ao nazismo, atravessou o movimento estudantil brasileiro, a clandestinidade, o exílio, as prisões argentinas e a campanha internacional por sua libertação.

Ao receber o Prêmio Rubens Paiva, Koutzii transformou essa experiência em uma advertência: a defesa dos direitos humanos que marcou sua geração não pertence apenas à história.


FONTES PARA CHECAGEM

[1] PRÊMIO RUBENS PAIVA – MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA. Cerimônia realizada em 3 de setembro de 2026, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Apresentação e discurso de Flávio Koutzii.

O que comprova: dados apresentados durante a homenagem; formação política; referências ao Gueto de Varsóvia, Stalingrado, lutas anticoloniais e Vietnã; avaliação sobre as ditaduras latino-americanas; referência ao PT; declarações sobre ultradireita, “assalto à razão”, direitos humanos e “consciência do vivido, do lutado, do resistido”. Fonte primária da reportagem.


[2] FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO. “Flávio Koutzii – Depoimento”. 23 de abril de 2006.

O que comprova: saída do Brasil em 1970; passagem pelo Chile; exílio e militância na Argentina; prisão em 1975; campanha pela libertação; indulto em 1979; ida para a França como refugiado político; estudos de Sociologia; origem de Pedaços de Morte no Coração e retorno ao Brasil. https://fpabramo.org.br/flavio-koutzii-depoimento/


[3] INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS (IHU). “Há uma engrenagem de destruição física e psíquica de Lula na PF em Curitiba, afirma Flávio Koutzii”. 24 de abril de 2018.

O que comprova: prisão entre 1975 e 1979; passagem por cinco prisões argentinas; formação na École des Hautes Études en Sciences Sociales; tese sobre o sistema carcerário destinado aos presos políticos e sua transformação no livro Pedaços de Morte no Coração.


[4] MEMÓRIAS REVELADAS / ARQUIVO HISTÓRICO DO RIO GRANDE DO SUL. Acervos sobre o Movimento Feminino pela Anistia e a campanha pela libertação de Flávio Koutzii.

O que comprova: existência de documentação específica sobre a mobilização pela libertação de Koutzii, preso na Argentina, e de Flávia Schilling, presa no Uruguai; preservação de material da campanha “Flávio Koutzii, vivo e livre!”.


[5] REVISTA BRASILEIRA DE HISTÓRIA / SCIELO. “Do mirante, um facho de luz: trajetória biográfica de um militante de esquerda”. 2021.

O que comprova: trajetória de Koutzii entre Brasil, Argentina e França; prisão e tortura; consequências físicas e psicológicas do cárcere; produção de Pedaços de Morte no Coração e contexto de sua biografia.


[6] PT ASSEMBLEIA RS. “Tarso Genro e Flávio Koutzii recebem Prêmio Rubens Paiva, Memória, Verdade e Justiça na ALRS”. 4 de setembro de 2026.O que comprova: concessão do prêmio em 3 de setembro de 2026; prisão política de Koutzii na Argentina; participação na construção do PT no Rio Grande do Sul; mandato de vereador; quatro legislaturas como deputado estadual e atuação no Executivo estadual.


📲 CURTA, COMPARTILHE E CONTRIBUA

jornalismo livre e independente



 
 
Design sem nome (3).png
  • Facebook
  • Youtube

COLABORE

Apoie o jornalismo livre, independente, colaborativo e de alta integridade, comprometido com os direitos e as liberdades coletivas e individuais. Participe dos novos modelos de construção do mundo das notícias e acredite que uma outra imprensa é possível. 
 

O Esquina Democrática não se submete às avaliações métricas, baseadas em quantitativos que impulsionam visualizações, acessos, curtidas e compartilhamentos. Também não compactua com modelos  de trabalho que prejudicam a produção de conteúdos e colaboram com a precarização profissional. 

CHAVE DO PIX

 559.642.490-00

BANCO 136 - UNICRED
AGÊNCIA 2706
CONTA 27928-5
ALEXANDRE COSTA
CPF 559.642.490-00

JORNALISTA RESPONSÁVEL: ALEXANDRE COSTA 
FILIADO AO SINDJORS E ASSOCIADO À ARI

100673-maior_sindjors_jul16.jpg
images (1).jpeg
bottom of page